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Por dentro dos dias
Uma rosa a florir no coração.

Por dentro dos dias <br />
Uma rosa a florir no coração. Sabes, também foi isso que aprendi contigo, que a vida é uma crónica permanente, está viva nos nossos passos quotidianos. O poema que se escreve nas páginas de um jornal. A cidade com rostos. A criatividade. Observar. Sentir.

Contigo aprendi a sentir o peso das palavras.
Contigo aprendi que a vida é o que somos, com o que aprendemos, com o que fazemos, com o que sonhamos e fizemos, com o que sonhámos fazer, com o que está por fazer, e, até com o que nunca faremos.
Contigo aprendi que a vida é um instante que se transforma em eternidade.
Contigo aprendi a sentir por dentro dos dias a beleza da palavra povo.
Contigo aprendi a sentir a alegria de voar no voo de uma gaivota.
Contigo aprendi a tocar a ternura da palavra criança, esse começo de tudo o que somos e seremos sempre, porque nunca devemos deixar morrer a criança que está no canto da nossa interioridade.

Contigo aprendi a mergulhar nos recantos do coração, esse lugar onde nos despimos, somos únicos, como quem sobe ao cimo de uma montanha, esse o lugar onde olhamos o infinito, mergulhando os olhos no mar.
Contigo aprendi o sabor de um beijo, a brotar na frescura dos lábios com sabor de moscatel.
Contigo aprendi que a palavra amor rima com esplendor. Luar.
Contigo aprendi que a palavra amizade rima com saudade. Liberdade.
Contigo aprendi que a palavra poejo rima com desejo. Alentejo.
Contigo aprendi que a palavra esperança rima com confiança. Criança.
Contigo viajei na noite por dentro do amor, mergulhando no azul do luar.
Contigo descobri a brancura dos sorrisos, a beleza das gargalhadas. O olhar. O lugar onde tudo começou – “foi aqui que te conheci”.

Contigo senti a maravilha da vida nascer em flor no abraço dos nossos braços, em gritos, em movimentos, em lágrimas, em abraços, em paixão de bastidores, em aplausos de comunidade.
Contigo aprendi que a poesia está no colorido que guardamos nos recantos do nosso coração, onde cada instante único é sempre único, esse lugar, onde a memória é história e é poema.
Contigo aprendi que o presente renasce em cada amanhecer, esse instante que marca o recomeço de todos os actos da nossa vida, quando sentimos a força e a energia do que é viver com dignidade e em Liberdade. Não tem preço. Isto é viver, não é sobreviver. Aprendi isso contigo. Antes ser do que ter.
Contigo aprendi que a Liberdade não é uma utopia é uma escolha, é uma rosa a florir num laço dos nossos olhos a abraçar o sol.

Contigo descobri a força de um poema dentro da raiz de um poema. O amor.
Contigo aprendi que nunca se perde aquilo que nunca se encontra e que, na vida, só fica aquilo que vivemos apaixonadamente, dando sem querer nada em troca, se não isso, apenas isso, darmos e recebermos, assim como uma cascata que desagua num rio.
Contigo aprendi que o que a vida nos deu e aquilo que demos à vida, isso é tudo o que somos, e tudo o que somos é o que faz sentirmos a felicidade.
Contigo aprendi que o importante da vida é viver fazendo e sendo. Tudo o resto é trocas.
Contigo aprendi que no charco dos dias apenas se sobrevive, sufocados nessa intensa procura do ter, afinal, num charco o luar não reluz e as flores sucubem no lodo.
Contigo aprendi a sentir os poemas a nascer nas mãos como um cântico, uma tela, um gesto que começa no abrir os olhos aos momentos fugazes e únicos, esses, que gravam as palavras num beijo com os dedos a florir na doçura dos lábios. Magia.

É assim em palavras, que leio e releio, que escrevo e reescrevo, que invento, que sonho, que abraço, como loucura, como ternura, palavras que faço nascer em sorrisos, palavras que escrevo nos olhos, quando atravesso as ruas da cidade, talvez feliz, talvez palhaço, mas caminhando, sempre caminhando. Isso é que é lindo.
É assim que te recordo, revivendo poemas, todos que estão inscritos nas calçadas, porque os poemas estão inscritos no chão que pisamos. Pedra a pedra.

Escuto o som de uma ambulância. Paro de escrever. Penso
Pode ir em busca de um homem caído no chão na rua da cidade. Há sempre um homem que cai numa rua de uma cidade envelhecida. Num adeus.
Ou talvez, em busca de uma mãe que grita nas águas a explodir vida. Há sempre uma criança que nasce na rua de uma cidade. Num beijo.
Sabes, também foi isso que aprendi contigo, que a vida é uma crónica permanente, está viva nos nossos passos quotidianos. O poema que se escreve nas páginas de um jornal. A cidade com rostos. A criatividade. Observar. Sentir.
Sabes contigo também aprendi a não ignorar a palavra inveja, a registar como somos pequeninos, num país pequenino, onde a Liberdade se esconde por trás de um postigo e, eles, nem sonham, nem sabem que o amor respira nas paredes azuis.

Eles não sabem, nem sonham que a Liberdade voa nas planícies, e, nós, somos vivos, bem vivos, apenas, quando navegamos no rio dos lábios, em ondas de sorrisos.
Eles não sabem, nem sonham que num poema matamos a saudade e fazemos renascer um brilho nos olhos, olhos nos olhos. Sim, olhos nos olhos.
Foi tudo isto que aprendi contigo que a vida é um poema. Palavra que é sangue, uma rosa a florir no coração.

António Sousa Pereira

Nota – Este texto é para ti, neste dia do teu aniversário, minha irmã, inesquecível Maria Rosa Colaço. Contigo aprendi como é lindo ser artesão de poemas.
. Nasceu no Torrão, Alcácer do Sal, em 19 de setembro de 1935

19.09.2020 - 10:16

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