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«Barreiro 2830» é uma invenção de marketing – I

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«Barreiro 2830» é uma invenção de marketing – I No plano do pensamento politico, o 2830 não é um acaso ingénuo, tem atrás de si objectivos politicos, faz parte de uma gestão de imagem, de uma gestão de emoções, de uma gestão geracional.
O pensar esta cidade centrada em torno do «Barreiro 2830», não é pensar o Barreiro, é pensar a cidade com base numa invenção de marketing politico. É um bluff social.

O concelho do Barreiro é mais que um mero 2830.
Reduzir o concelho do Barreiro ao número 2830 é retirar-lhe a sua história e memória. É desconstruir a sua coesão social. É desconstruir um território e recriá-lo num vazio de emoções. É uma cidade números, que pensa números, que vive números. Os números afogam a humanidade. As crises. As troikas. O preço. O ter.

Uma cidade tem nome, o seu nome é a sua memória e história. Uma cidade com nomes é uma cidade feita de pessoas. O António. O Ricardo. O Rui. O Bruno. A Joana. A Irene. A Helena. O Manuel. O Helder. O Pedro. O Emidio. O Carlos. A Sara. O João. A Filipa. A Fernanda. A Lurdes. A Maria. Nomes muitos nomes. Nomes que são identidades. O ser. Uma cidade tem nome. Uma comunidade. Esta diz-se Barreiro. O Barreiro cidade-concelho.

O Barreiro forjado em torno do 2830, é uma mera percepção, uma simplória visão, uma interpretação temporal. É isso, apenas isso, um código postal. É um vazio sem ideias.
E isto, digo-o, nada tem a ver com qualquer momento de criatividade no plano estético, nas pulsões artisticas, geradores de emoções, fruto do trabalho de tal ou tal artista. Esse é um pensar o momento, é um percepcionar temporal. A criatividade é livre. É mesmo estimulante. Emocional. Lá longe a cidade, de fumo e solidão, já se cantava outrora.
O que me atormenta é que se perspective gestão da polis entrando nessa onda, nessa curtição. E, até, como protagonistas dessa onda emocional e circunstancial, reduzindo a memória, esquecendo a memória, essa que se escreve com a palavra - Barreiro.
Nas ruas do Barreiro está escrita essa memória, de resistência, de amor à vida, de luta pela Liberdade, de resiliência, de transformação, passo a passo, porque a vida é para transformar. Essa a garra de um povo que brota na sua vida associativa, desportiva e cultural. Essa a garra daqueles encontros de amizade na noite da véspera de Natal. Calor humano. Respeito pelas diferenças. A cidade que se diz, em cada esquina um amigo. Isto é que uma cidade que se faz plena de unidade na diversidade – a cultura da fábrica, a cultura da associação, a cultura da comunidade – “eu sou do Barreiro”.

E, de facto, é tudo isto que faz pensar, porque a vida é para pensar, todos os actos são geradores de pensamento, são passiveis de interpretação no contexto histórico e epocal.
E, na verdade, certos actos, quando tornados referência no fazer polis, passam a ter dimensão politica, e não podem ser vividos ou dissociados do que se diz, do se faz, no pensar e no gerir cidade, no pensar e fazer politica. Isto vai para além da mera percepção.
Como dizia o poeta, todas as coincidências são puramente matemáticas.

O pensar esta cidade centrada em torno do «Barreiro 2830», não é pensar o Barreiro, é pensar a cidade com base numa invenção de marketing politico. É um bluff social.
O Barreiro nunca foi 2830. O Barreiro não é 2830.
Há mais Barreiro para além do 2830. Até há o Barreiro 2835, tantas vezes esquecido e ignorado, do Lavradio a Santo António da Charneca ou Coina.
Podem ter a agenda 2830. Podem cultivar o 2830. Até podem recriar ou reinventar a «Plataforma 2830». Mas nada disso dá identidade ao Barreiro. Antes, nas anteriores eleições deu outdoors, deu visões, gerou estados de espirito, mitigou culpados. Coisas.

O Barreiro é esse território que se sente em cores e lugares. Que não é um número. É lugar. É sitio. Há o Barreiro do rio. Há Barreiro da Mata da Machada. Há o Barreiro feito de pessoas, vindas de muitos lados. Há o Barreiro com história inscrita no seu território.
Eu, que sou do Barreiro 2835, sinto uma enorme alegria, e garra, dentro de mim e maior por esta terra Barreiro. Terra dos meus filhos e neta.
Esta cidade que tem uma Avenida do Amor, que se diz Avenida da Praia. A cidade que tem uma Avenida da Liberdade, que se deita no POLIS. Esta terra da resistência que abriu portas ao 25 de Abril.
Esta terra de resiliência, no pós desindustrialização, do pós descomercialização, do pós desferroviarização. Esta terra que nunca abdicou de sonhar, erguendo-se contra todas as adversidades.Que gritou nas ruas contra a ETRI. Que encheu as ruas de jovens nos anos 90.
Este é o Barreiro que eu amo – terra da liberdade, terra de criatividade, terra de solidariedade.
Esta terra que renasce em murais de arte urbana. Esta cidade que renasce na zona ribeirinha, com trabalho realizado em diferentes mandatos. Que desmente a teoria dos 40 anos sem vida.
Esta cidade que renasce em novos autocarros urbanos. Esta cidade que precisa de novas energias com rostos. Que prova como há obra feita, e um legado de qualidade.
Esta cidade-concelho que precisa de emprego. Trabalho. Dignidade. Isto vai para além de meros números e gestão de números e marketing geracional.

O Barreiro tem que andar para a frente, todo o Barreiro o 2830, o 2835...e todo o Barreiro – da ilha do Rato a Coina.
Ninguém deve ficar para trás, todas as gerações tem o seu papel no fazer Barreiro, no sentir e amar Barreiro.
Reduzir uma terra ao seu código postal não é mais que fomentar o esvaziamento da sua identidade.

Mas, no plano do pensamento politico, o 2830 não é um acaso ingénuo, tem atrás de si objectivos politicos, faz parte de uma gestão de imagem, de uma gestão de emoções, de uma gestão geracional.
O 2830 não é um acaso tem raízes politicas em formas de acção politica que se espelham no pensar e gerir a cidade, um pensamento que é incapaz de reconhecer o legado de outros, que a história desta terra não começou hoje, tem vida, tem pessoas, tem gente que a construiu com suor e lágrimas. Um pensamento que fomenta clivagens, para que exista um eventual «inimigo comum».

O mundo não começou agora, há vida no Polis que vem de ontem, há vida do Parque da Cidade a Alburrica, que não começou ontem, há vida na Quinta das Canas, nos Fidalguinhos ou na Quinta de Braamcaamp, que não começou ontem, sim, começou nesse ontem de muitas gerações, de gente de trabalho.
Ignorar que a vida de uma cidade é continuidade, é uma herança de geração para geração, de gestão para gestão, é ignorar as gerações que semearam este presente.

Fazem-se adjectivações sobre tudo e tudo está ao abandono.
Tecem-se teorias de centralidades, sem o sentido de um planeamento de sitios e lugares.
Não se demonstra a diferença no fazer cidade. Nem se mostram caminhos inovadores. Vagueia-se. Uma politica de surf. Ir na onda. Quanto às opiniões criticas ou discordantes, essas são vilipendiadas.
A diferença para quem quer ser diferente não é querer dizer que, agora, é que isto está bom, que, agora é que há obra, é provar que se faz diferente, sem espelhos retrovisores. A diferença no fazer cidade e cidadania é isso, ser diferente. Isso não existe.

No futuro, assim como hoje se sente o legado do passado, sentir-se-á o legado dos caminhos que forem abertos ou fechados nos dias de hoje. O futuro não nasce amanhã, nasce hoje em todos os actos.
A autoridade se quer ser autoridade, tem que ser autoridade politica e autoridade moral. A autoridade se quer ser respeitada deve respeitar.

Um exemplo simples de autoridade politica a decisão tomada de renovação da frota dos TCB. Isto é autoridade politica, porque tem pensamento estratégico. É isto que dá credibilidade e respeito.
Outro exemplo, os passadiços de Alburrica. Outro exemplo a compra da Quinta de Braamcamp.
Outro exemplo o Parque da Cidade, isto sim, gerou uma nova centralidade.
Outro exemplo o Masterplan, que foi a pedrada no charco que colocou na agenda o debate sobre os vazios urbanos, a abertura do espaço industrial ao centro da cidade.
Outro exemplo, a criação da Reserva da Mata da Machada e Sapal do Coina, que rasgou o caminho para pensar o Barreiro Verde. E há mais, muito mais. Isto é estratégia. Isto foi pensar e fazer futuro.
Até já.

António Sousa Pereira

22.09.2020 - 23:40

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