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«Barreiro 2830» é uma invenção de marketing - II

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«Barreiro 2830» é uma invenção de marketing -  II O futuro do Barreiro, sente-se, é, cada vez mais, muito óbvio, pelo que vamos vendo um voltar atrás, um retornar aos anos 70, quando começou o seu caminho para se transformar na terra dormitório.

É isso, apenas isso, depois da industrialização que fez desta terra uma referência com uma identidade e uma cultura humanista, o futuro será marcado pela cultura do betão.

É tudo isto que ocorre ao pensamento, quando vemos valorizar como estratégia do fazer cidade, a criação de umas rotundas, alcatroamentos e, não existe qualquer visão estratégica para o território no contexto da região, seja na Península de Setúbal ou na Área Metropolitana de Lisboa. Se existe não é pública.
O Barreiro é hoje uma polis sem liderança, porque, afinal, só há liderança quando há pensamento estratégico. Até podemos discordar desse pensamento, mas será da discussão que nasce o novo e se constrói futuro. O futuro hoje é um silêncio ensurdecedor que ecoa apenas no marketing politico, dirigido ao eleitor e não ao cidadão, nem com a visão de promoção do território.

E lá voltamos ao célebre «2830», porque ele transporta consigo uma carga politica, com uma visão sociológica dentro de si, o 2830 não é mais que uma ideia embrionária de quem pensa que o futuro é construído por uma nova geração, tudo o resto são velhos sem visão.
Hoje quando se cultiva o tal «Barreiro 2830», como essência de uma nova geração com garra, está-se a condenar ao silêncio os que fizeram o passado, rotulando-os como os que perderam o sentido do progresso.
Os que pensam 2830, pensam um conteúdo politico, que tem vindo a ser a marca de diversos discursos nas redes sociais.
Para eles, os que não pensam com a garra coaching do 2830, não passam de aziados, velhos do restelo, são os que não querem o desenvolvimento, os tais que preferem ver tudo ao abandono, esse estigma já tem raizes, é estimulado como linha de acção, porque afinal o que importa é criar estigmas para «ganhar eleições».

Eu velho resiliente e resistente cá estarei e irei continuar a erguer a voz, hoje, e sempre, esta minha voz com as minhas opiniões, com os meus valores, pela cidade e pela cidadania.
Cá por mim, não quero ganhar eleições. Quero dar o meu contributo para manter viva a democracia. Essa coisa complexa e simples que se faz no respeito pela diferença, no direito à diferença.
O pensamento da cidade em torno do marketing 2830, nascido na «Plataforma 2830», é uma clivagem negativa no fazer cidadania. É populismo puro e duro.

É óbvio que esta estratégia de marketing, que se está a implementar em torno do motivar o pensar a cidade em torno do «2830», é um pensamento que querendo passar por apolitico, afinal, insere-se numa visão pragmática que só tem uma intencionalidade – gestão do poder.
Isso já se sentiu quando o Projecto da Veneza na Quinta de Braamcamp, que, perante a sua dimensão no pensar e fazer cidade, pouco foi discutido com a comunidade, mas, foi apresentado nas escolas à geração que, sabemos, vai votar pela primeira vez nos próximos actos eleitorais. Gerar ilusões.

O pensamento 2830 só tem adjectivos e coaching motivacional. É uma marca gerada em laboratório, uma marca gerada em estudos de imagem, uma marca que nasce com base na exploração de sentimentos.
A marca – 2830 - nasceu a pensar poder, pensa poder e gere tudo para ser poder, pensa eleições e como ganhar eleições. Quem se meter no caminho, leva.

É triste esta realidade. O Barreiro hoje não pensa o seu futuro, não discute o seu futuro.
O PDM está hibernado. Não há qualquer envolvimento dos cidadãos no debate do fazer cidade, nem sequer há envolvimento dos partidos politicos.

A CDU agita-se, e, por tudo e por nada é acusada de aziada. É apontada como não tendo feito nada, quando, na verdade, tudo, ou quase tudo que o actual executivo fez, pode agradecer ao executivo anterior. Mas, a verdade é que o PS fez da CDU o seu inimigo de estimação. O culpado de todos os males. A CDU, através de «os Verdes» tem sido incansável, mas insuficiente.
Apesar de tudo, ainda hoje, a CDU continua a ser a força politica no concelho que pode ser alternância ao PS. É isso que motiva a agitação nas redes sociais com tanto anti-comunismo primário. Não é o regresso ao passado, nem sequer é o voltar atrás, é, talvez impedir que o Barreiro tenha uma voz que não se cala aos governos. Foi isso que fez a CDU nos últimos anos, com Carlos Humberto. António Costa, sabe. Passos Coelho, sabe. E respeitaram. E colocaram o Barreiro na agenda dos seus Governos.

O PSD mexe-se, e, é a força politica que ideológicamente mais marca a actual gestão municipal, e, simultaneamente aquela que mais desfaz a actual gestão municipal. O PS tem medo do PSD. O PSD tem uma liderança forte, um politico que é um estratega, que pensa antes de agir e quando age, procura por um lado manter a CDU encostada às cordas, por outro lado o PS dobrado, sem capacidade de abrir a voz. Por isso ouve e cala.
O PSD quer pelo menos eleger dois vereadores, tem, talvez, pela primeira vez, condições subjectivas para tal, perante o clima de anticomunismo primário que tem marcado a politica local.
Mas, diga-se o PSD (e até mesmo o PS) vão ter à perna outros, que podem crescer à custa dos discursos que têm sido, nos últimos anos, a marca de água da politica local, o anticomunismo. Por isso, vão ter que conseguir travar o crescimento anunciado de forças à sua direita. É que o Chega, anda por aí, e, tenho dúvidas que não vá ser a grande surpresa nas próximas autárquicas. Há quem fique surpreendido de observar certas pessoas, nas redes sociais, discretamente, levantando a voz, para a dar voz aos ditos. Cuidem-se. Andaram a brincar com o fogo. Semearam, outros vão colher.
O PSD prefere crescer um pouco e, de facto, que fique tudo como está, porque não vê com bons olhos o regresso da CDU à presidência. O PSD quer conquistar a presidência no Barreiro. Neste tempo de fragmentação do eleitorado é complicado.

Os outros estão hibernados. O BE está no seu conforto de dar a mão ao PS, para travar a CDU.
O PAN parece que ainda existe. O CDS só aparece nas eleições. E há outros, como referi acima que, pelos sinais no país, também aqui, vão beneficiar de toda a guerrilha de anticomunismo primário, das teorias de abandono, do fazer politica com as percepções e emoções, e na gestão das redes sociais . Esperem pela pancada.
Lá virá o tempo que vão dizer que os comunistas são bons e dar o braço aos comunistas na luta pela democracia.

Uma nota final quanto ao PS, esse, está municipalizado. Deixou de existir com acção politica própria, a sua barricada e a sua acção politica resume-se a defender a vida municipal.
Está nas mãos dos autarcas.

E, no meio de tudo isto, sente-se que o futuro do Barreiro, que uns dizem não quer voltar atrás, está de facto a retroceder a voltar atrás, aos anos 70, com uma gestão do território direccionada para o betão, que só vê duas coisas – o valor do dinheiro e ligado ao dinheiro, o pensar como ganhar as eleições. Uma cidade é mais que números, são as pessoas.

Não se pensa que a cidade precisa de espaços para respirar e sair do sufoco que a marcou nos anos 70, e, igualmente, rasgar um PDM que aponta para um projecção populacional de cerca de 200 mil habitantes, em 36 KM quadrados.
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Pronto, é isso, apenas isso, depois da industrialização hoje ao Barreiro, pelos vistos, resta-lhe, agora, este caminho da betonização. A cidade de betão.
O PDM que existe serve esse objectivo. Aquilo que se criticava, de excesso populacional é, afinal, para esquecer. É vida.

É neste contexto que, de certa forma, se insere o tal pensar 2830, que, afinal, não é mais que uma arma de combate politico, que visa colocar a emoção acima da razão, que visa dar força à politica da percepção e esvaziar a concepção da acção politica. Os adjectivos têm mais valor que o substantivo.
Tudo isto percebe-se quando se relêem os parcos textos produzidos sobre a égide da ida «Plataforma 2830», que existiu antes das últimas eleições autárquicas, e está na génese deste percepcionar a cidade e a cidadania
A Plataforma 2830, hoje percebe-se melhor, foi isso, apenas isso, um grupo de pressão que gerou candidatos e encerrou a porta expressando o seu apoio ao PS. Um bluff de marketing politico. Um vazio social. Um vazio politico. Tinha, isso sim, e certamente ainda tem, a capacidade de gerir recursos para intervir nas redes sociais e plantar outdoors.

Nos dias de hoje, este concelho pela sua história e memória, devia estar na primeira linha de debate de propostas e envolvimento da comunidade para os projectos de pós COVID.
Um concelho que deu tanto a Portugal, nos dias de hoje que se discute o PRR – Plano de Recuperação e Resiliência, que aponta estratégia para o futuro de Portugal, devia estar a erguer a sua voz e a dizer basta, já é tempo de se fazer justiça ao Barreiro.
Este é um tempo de unir vontades, todas as vontades, discutir, sugerir, dar tudo pelo futuro. Definir prioridades.
Seja a ponte Barreiro – Seixal, seja debater com proprietários do Barreiro Velho uma estratégia – ou de captação de jovens, com rendas sociais, até pelos milhares de casas vagas no concelho.

Seja recuperar património industrial e dar-lhe visão económica. O nosso potencial.
Seja valorizar a nossa dimensão ambiental de Alburrica ao Sapal do Coina.
Devia-se, porque não, estar a bater o pé pela TTT, porque há milhões, há mesmo milhões, só que podem passar-nos ao lado. Essa coisa do discurso da troika e pós troika, não ajuda. Estamos pobrezinhos. A pensar assim o mais certo é continuarmos a ficar no guetto e estagnados, porque não pensamos Barreiro, pensamos «barreirinho», pensamos 2830.

Devíamos estar a debater o prolongamento do Metro Sul do Tejo para o nosso concelho.
Devíamos estar a debater apoios estruturantes para habitação social, e requalificação do espaço urbano.
Devíamos estar a discutir mais e melhores barcos para as ligações fluviais.
Exigir, sim exigir, é exigindo que é sempre possivel obter alguma coisa, não exigindo é que não obtemos nada. Ficamos com o que nos vier bater à porta.
Há fundos comunitários que vão ser prioritários para valorizar os municipios.
Devíamos estar a colocar ao governo propostas e estratégias para os vazios industriais. Nada. Discute-se rotundas, essas ditas novas centralidades.
Nem acredito que isto seja uma herança do «plataformismo 2830», que, afinal, acaba por ser o pensamento que lidera a autarquia – marketing e coaching – porque esse, de facto, até sonhou rodas gigantes. Enfim. Fiquemos com essas ideias aqui há obra, nunca houve tanta obra. Ficamos felizes. O povo acredita, vota, ganhamos eleições. Isso é que interessa.
Enfim, tal como dizia Salgueiro Maia, é este o estado a que chegamos...paciência.

António Sousa Pereira


23.09.2020 - 21:04

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