Conta Loios

inferências

Por dentro dos dias – Barreiro
E o outro pão que é a Liberdade

Por dentro dos dias – Barreiro<br>
E o outro pão que é a Liberdade Decidi sentar-me na cadeira, esticar as costas. Escrever este texto. Sorrir. Hoje, afinal, é daqueles dias de teatralização, de encenação de sorrisos, de olhar para o relógio. O pão obriga.

Nas minhas rotinas diárias tenho por hábito, enquanto tomo o pequeno almoço, mergulhar por dentro de palavras-poema. Vou à estante, pego num livro, ao acaso, porque a poesia deve vir ao nosso encontro, ao acaso, assim como acontecem os dias, por muito que os programemos. Há sempre um acaso que tudo transforma.
De repente uma lágrima, de repente um beijo, de repente uma dor. De repente...

Hoje, o livro que veio ter comigo tem por título - «Poemas das algemas quebradas», de José Rosa Figueiredo, um homem da Baixa da Banheira, um homem da imprensa regional, um documentalista, que escreveu a história do Futebol Clube Barreirense, um homem com quem travei conversas, nos tempos que lancei o meu primeiro sonho de imprensa regional – O Jornal Daterra. Um homem vertical. Um lutador de antes de Abril, apaixonado pela Liberdade.
Abro ao acaso as páginas, e dou comigo a deliciar-me com um poema, escrito em 1947, mas, só editado nesta obra publicada em Junho de 1974.

Um poema a um filho. Um hino à Liberdade. Um poema com valores. Porque os valores, podem ser uma coisa de partido, de religião, de convicção, mas, eles, valem mais, muito mais, quando transcendem essa visão circunscrita a um tempo e um modo de pensar. É por isso que os valores não têm preço, nascem no que somos dentro do coração. E expressam os nossos actos.

Leio o poema. Sinto a humildade e a pureza de sentimentos. Um testamento. Uma convicção. Como quem diz: filho se eu for preso ou se não voltar amanhã. Aqui fica esta nota do coração, do pulsar dos nervos. Em pleno fascismo, que existiu, por muito que tentem branquear. Que silenciou. Que matou. Que explorou. Que ficou para trás, como escreveu Sofia, naquele dia aberto e puro.

Percorro as palavras. Leio. Volto a reler. Imagino o José Figueiredo, com aquela sua voz rouca, de ternura a tocar as palavras com os nervos, a sonhar Abril, a sonhar Liberdade.
Um poema feito de um pensar poético que diz – “a modéstia é uma virtude”, “a riqueza não é felicidade” que “tenhas meu filho – “o pão indispensável à saúde e o outro pão que é a Liberdade”.

E deixa este apelo aos seus filhos e netos ( o filho que tive a honra de conhecer, os netos que conheço, e sei continuaram essa luta pelo amor à Liberdade e por um mundo melhor, com valores, com sonhos...) – “será teu dever, lutares como eu fiz, p’la Liberdade”.

Comecei este meu dia a ler este poema e por dentro de mim as palavras a tocar os neurónios, a sentir como é bela esta luta pela Liberdade. Esta luta que vale mais muito mais que a luta pelas riquezas.
Mergulho no tempo e nos sonhos inscritos na palavra Liberdade. Sim, principalmente, como o tempo de hoje, que, como habitualmente, será feito de enredos e deixas, de simulações, de narrativas travestidas de valores. Dói tanto quando, se sente a ausência de amor, quando nem se respeitam os mortos, quando, até, se usam os mortos, para afirmar valores ao mesmo tempo que matam os vivos, ou tudo fazem para silenciar os vivos e a Liberdade, e as diferenças, que não sentem como uma coisa natural e pura que é a essência da humanidade.
Decidi sentar-me na cadeira, esticar as costas. Escrever este texto. Sorrir. Hoje, afinal, é daqueles dias de teatralização, de encenação de sorrisos, de olhar para o relógio. O pão obriga.
É por isso que eu gosto do “outro pão que é a Liberdade”.

António Sousa Pereira

18.11.2020 - 12:32

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2020 Todos os direitos reservados.