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Os muros ideológicos e os muros psicológicos

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Os muros ideológicos e os muros psicológicos Uns usam os muros ideológicos para fazer politica. Outros os muros psicológicos, os fantasmas do regresso do passado que atormenta a consciência. O poder. Sim, o passado que não pode ser apagado, só incomoda o presente, porque não sabem que futuro estão a escrever. Não há visão de futuro.

O Poder Local teve no nosso país um papel decisivo na consolidação da democracia. Enquanto a nível nacional a vida politica era permanentemente estigmatizada em torno do «culto» do arco da governação, nas vilas e cidades, o municipalismo esbatia esse estigma com a existência de executivos municipais multicores, e, com a distribuição de pelouros por todos os vereadores. Isso foi uma constante por todo o país pois as decisões dos executivos autárquicos eram colegiais. Era maior respeito e diálogo o ambiente politico partidário.

O municipalismo, tal com ao longo da história de Portugal, desde os «homens bons», passando pelo «foralismo» de D. Manuel I, pelo municipalismo da monarquia constitucional, e, até na I República, neste processo pós 25 de Abril, foi, sem dúvida um pilar de construção da vida democrática. O diálogo e o confronto partidário é a essência da vida democrática.

A partir dos anos 90, com a criação do órgão «presidência», a situação começou a alterar-se e, a nível das comunidades, cada vez mais, ao longo dos anos vamos assistindo à introdução de lógicas de poder, não de confronto e diálogo partidário, mas de partidarite, essa, que tem contribuído para a degradação da democracia, que leva a que os partidos se confundam com o estado – a partidarização do estado, a partidarização das autarquias – de tal forma que, nos tempos de hoje, já se acha normal municipalizar a vida politica.

Não é por mero acaso que já se discutem lógicas de um novo modelo de Poder Local, que tenha por concepção uma espécie de «parlamentarismo» local. E vai certamente ser esse o rumo. É por isso que não avança, nem nunca irá avançar a regionalização.

Quando se confunde a vida partidária com a vida de um municipio, o que nada tem a ver, com a dinâmica de uma força partidária na valorização do seu pensamento estratégico no pensar e fazer comunidade. Enfim.
Tudo isto ocorre-me sempre que escuto aquele discurso, o tal, referido em torno de um dito «preâmbulo» sobre a estratégia 2020/2030 do Plano Director Municipal.

O tal discurso do abandono de quarenta anos, de perda de população, de envelhecimento do concelho, de fuga dos jovens, de muros ideológicos, de nada ter sido feito, de um concelho parado no tempo, todas essas coisas que fazem parte das narrativas eleitorais, de circunstância, de fait divers, ampliadas nas redes sociais, com convicção, porque, afinal, cada vez mais neste mundo onde o populismo é rei, a politica é arte de capturar votos. Seja com meias verdades, seja com meias mentiras. A ideologia está na gaveta. O que contra é o obreirismo. A ficção. A imagem.

Mas, nestas coisas da acção politica, quando as diferenças se diluem não na substância, mas na adjectivação, isto é preocupante, porque afinal é isto que está a abrir caminho ao populismo.
Uns usam os muros ideológicos para fazer politica. Outros os muros psicológicos, os fantasmas do regresso do passado que atormenta a consciência. O poder. Sim, o passado que não pode ser apagado, só incomoda o presente, porque não sabem que futuro estão a escrever. Não há visão de futuro.
O único presente que escrevem nos dias de hoje, afinal, é, esse, o futuro que foi escrito com o lápis de ontem.
É por isso, só por isso, que, em vez de existir a coragem e, de facto, não ter medo de «afirmar Barreiro», optam, por eternizar os muros e a queda dos muros e reduzir a politica à banalidade, à agressividade, a intolerância, ao tacticismo, à espuma dos dias.

Sim, tudo isto me ocorreu a propósito de uma obra hoje iniciada, os arranjos exteriores em torno da antiga Doca Seca da CP, que foi objecto de muitas horas de estudo, reuniões, projectos, diálogos, visitas de governantes, protocolos, com o Poder Central, agora, finalmente está no terreno. Louvável.
E dou comigo neste pulsar quotidiano da cidade, a registar que a obra surge nas redes sociais «amarrada» à adjectivação, da queda de mais um muro. O muro de Berlim, já caiu há décadas.
O mundo mudou. Hoje o perigo da humanidade está entre os que querem viver democracia e os que querem colocar garrotes na democracia. Isto já é real na Europa.
Enfim, Freud, explica isto!

António Sousa Pereira

23.11.2020 - 13:21

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