Conta Loios

inferências

Barreiro - Inferências
A Autoeuropa e o principal erro estratégico do actual Plano Director Municipal

Barreiro - Inferências<br>
A Autoeuropa e o principal erro estratégico do actual Plano Director Municipal<br>
Hoje, pela manhã, chegou a noticia inquietante que a Volkswagen Autoeuropa, por efeito da pandemia de COVID-19, sofreu uma redução de 25 % na sua produção, comparativamente a 2019. Foram produzidas menos 58.000 unidades, face ao que estava previsto para o ano 2020.

E, esta noticia trouxe ao meu pensamento recordações de outrora, porque, a Autoeuropa tem um peso significativo no PIB de Portugal, e tem um forte impacto na débil economia da Península de Setúbal.

Esta noticia trouxe-me ao pensamento algumas conversas e debates, nos anos 90, quando da discussão pública, ou apresentação de argumentos para elaboração do actual Plano Director Municipal do Barreiro, que, tinha, e tem, nos seus conceitos estratégicos uma visão de gestão do território expansionista, cujo pensamento central é uma aposta no aumento do parque habitacional, objectivo visto como a única saída para crescimento e desenvolvimento do concelho, e, obviamente o único recurso para garantir receitas ao municipio, dada a falência do modelo industrial – ferroviário, quimico e metalomecânico – que arrastou consigo a falência comercial.
Uma das linhas de pensamento que, recordo, era utilizada com pompa e circunstância era que, nos próximos 20 anos, o concelho do Barreiro seria beneficiado com a instalação da Autoeuropa, tornando-se um território apetitoso para receber os quadros e muitos dos milhares de trabalhadores que, directa e indirectamente, seriam gerados por aquele parque empresarial.

Principal erro estratégico do actual Plano Director Municipal

Recordo que se falava, do enorme potencial que seria a zona de Coina, onde podiam vir a nascer condominios de alta qualidade, campos de ténis e piscinas, porque os quadros da empresa Autoeuropa, eram quadros qualificados, pessoas de excelência.
A Autoeuropa implantou-se e o Barreiro, certamente, pela sua proximidade, tem no seu território a residir algumas centenas de trabalhadores que integram aquele parque empresarial, mas, isso aconteceu também com Sesimbra, com Palmela e com Setúbal, outros concelhos limitrofes.
A principal conclusão, após mais de duas décadas, é que o Barreiro empolou em excesso essa sua visão expansionista, no plano urbano, aliás, essa visão expansionista, na época, era arma de arremesso e de combate politico das forças na oposição, hoje no poder, que criticavam o aumento potencial de população na ordem dos 200 mil habitantes, em 36 Km2.
E, esse afinal, foi o principal erro estratégico do actual Plano Director Municipal do Barreiro, a sua aposta, como grande prioridade, numa estratégia de crescimento e de desenvolvimento para o território com uma visão expansionista, apontando para o território um uso essencialmente vocacionado para a habitação, desde os antigos território ferroviários, passando pelas zonas ribeirinhas e deixando, apenas como zona de zero de construção, o território do Parque Empresarial da Quimiparque, com destino a empresas, aliás, um território para o qual não existia uma visão estratégica.

Gestão do território para obter receitas

O PDM tinha uma linha de pensamento a gestão do território para obter receitas para o municipio, as taxas de urbanizações, no imediato, curto e médio prazo, e , no futuro, o longo prazo garantir receitas do IMI.
Todos sabem, que a derrama não conta para o orçamento municipal, ao longo de décadas o municipio sempre esteve na linha limite de endividamento, e, começava cada mandato com o pedido de empréstimos para garantir a sobrevivência e manter a prestação dos serviços públicos, assim como garantir investimentos que contribuissem para melhorar a qualidade de vida. Muitos foram feitos. Só não vê quem não quer ver, mas, isso regra geral tem a ver com os muros que impedem o olhar de ver a vida real e optam pela ficção.

O pós crise da ETRI

Foi, afinal, esta a base do pensamento que conduziu ao PDM em vigor, um território para criar habitação – e isto não tem mal nenhum, se com a revisão se alterasse a densidade habitacional e se caminhasse para potenciar alguns aspectos que podem fazer a diferenciação, na AML e no estuário do Tejo.
Mas, pelos visto quando se fala em projectos de desenvolvimento, o que se pensa são no imediato as taxas de urbanizações, no curto e médio prazo, e, olhando para o longo prazo projecta-se as previsiveis receitas do IMI. Nada mudou. Aliás, já se diz mesmo que não se estava contra o PDM, estava-se contra os atrasos na revisão, quando este concelho tem estado sujeito a peripécias, das mais variadas, com origem em estratégias do Poder Central, que só começou a olhar para este território após a crise da ETRI, quando a população saiu á rua, acima de cores partidárias, para exigir um futuro digno para este território.
Se na outra margem estavam a reconverter os antigos territórios industriais fazendo deles a Lisboa do século XXI, foi isso que o Barreiro, veio para a rua gritar. Todos, sem muros ideológicos e sem teias ideológicas. Mesmo que uns o fizessem como estratégia de combate ao PCP/CDU, e outros o fizessem por estratégia de combate ao governo PS. Isso é outra história da vida politica local, sempre muito pendular.

O problema é quando se confunde que afirmar Barreiro é afirmar PS.

Por exemplo, das criticas ainda hoje utilizadas para combater as gestões CDU, são os esgotados argumentos, que, afinal, não se concretizaram na visão estratégica do PDM, o aumento demográfico, e, pelos vistos, nessa visão estratégica nada mudou, e, agora mais grave, nem há autoeuropa, o aeroporto de Lisboa, para margem sul, está adiado si ne die, seja no Montijo, seja em Alcochete, a crise da pandemia está a destruir o comércio de proximidade e Lisboa que estava a expulsar população, da classe média, devido ao boom do turismo, já está a alugar as casas do alojamento local, a preços mais baratos que antes da crise.
E, mesmo com tudo isto, pelo que me apercebi, não conheço o texto, mas pelo que foi dito na reunião da CMB, utiliza-se o que não se concretizou com a estratégia do actual PDM, para abrir o debate estratégico da sua revisão. Fiquei espantado, não pelo afirmar Barreiro, mesmo sendo slogan eleitoral do PS, não via mal nenhum, porque foi o PS que venceu as eleições, e, por essa razão é o PS que deve realizar o seu programa eleitoral, tudo fazendo para afirmar Barreiro. O problema é quando se confunde que afirmar Barreiro é afirmar PS.
É por esse pensar que o texto do Preâmbulo, utiliza argumentos basistas e reducionistas de quem quer afirmar Barreiro, mobilizando tudo e todos para fazer cidade, porque o PS não está a construir uma cidade para os socialistas, nem para os jovens, está, ou devia estar a construir uma cidade para todos, não para aqueles que os elegeram.
Esse discurso cheio de teias ideológicas, arma de arremesso contra as gestões CDU, que radicam nesses anátemas da perda de população, do envelhecimento da população, da fuga dos jovens – como se os jovens pudessem pagar rendas enormes, numa cidade que não tem empregos, e, onde o desemprego continua galopante – e, obviamente, isso que é a matriz do preâmbulo da estratégia de revisão do PDM, é empobrecedor do futuro.
Talvez por essa razão, a ausência de reflexão consistente estratégica, com visão de cidade, com projecto de cidade. Fica-se pela banalidade. Continua-se essa narrativa que nada foi feito, que o Barreiro parou no tempo. Um série de conceitos e uma metodologia de pensar, meramente de confronto politico partidário, que nascem por dentro de teias ideológicas, que dizem querer combater muros ideológicos, pronto, foi a isto que chegámos e pelos vistos é este o rumo que apontam até aos anos 30, mantendo um PDM, com a mesma visão expansionista.

Diversidade nas formas de olhar a ocupação do território.

Felizmente, o pensamento estratégico em relação a uma visão do território, para muitos, começou a alterar-se no período pós ETRI, nesse tempo em que esta cidade ainda mexeu com garra e com esperança, que os jovens das escolas encheram as ruas da cidade, que a população cansada de anos de poluição, protestou e assumiu uma forte consciência ecológica, exigindo mudanças na forma de gestão do território.
Isso emergiu fortemente nas primeiras eleições deste século XXI ganhas pelo PS. Um visão de cidade inclusiva, moderna, com diversidade nas formas de olhar a ocupação do território.
No começo deste século XXI, nasceu a ideia de um concelho verde, isso, dizia Carlos Mauricio, candidato da CDU, no seu programa eleitoral; enquanto Mário Durval, candidato do Bloco de Esquerda, contestava a cidade abafada pelo betão, criticando as urbanizações, como a dos Fidalguinhos, onde o sol se esconde nas ruas; ou Emidio Xavier, candidato do PS, que defendia uma cidade que abria as portas ao turismo, num tempo que o turismo era uma miragem, que sonhava com marinas no Coina, e, perspectivava abrir o centro da cidade ao território industrial, assim como dialogar com o Poder Central, para transferir o Ministério do Ambiente para o território da Baía do Tejo, ou Mendes Costa, do PSD, que consciente da dimensão politica do seu partido, num concelho com o coraçâo à esquerda, tinha uma visão de participação na gestão municipal, no co-operar no fazer cidade, apontando sonhos de modernidade, com diferenças ideológicas, mas sem estigmas.

Nós no Barreiro ficamos pela guettização

Foi este sentir cidade pós ETRI, que trouxe para debate o tempo do Masterplan. Lá veio o tempo da Cidade do Cinema. Lá veio o tempo do Arco Ribeirinho Sul. Lá veio o tempo da cidade aero portuária, como novo aerporoto de Lisboa em Alcochete. Lá veio o tempo da terceira travessia do tejo, e, por fim o Terminal de Contentores.
E, de facto, enquanto a gente por aqui sonhava, e, por vezes se dividia em tácticas e politiquices. Na outra margem nascia a Expo, o futuro Parque das Nações. A ponte Vasco da Gama abria outra frente de expansão urbana ao serviço de Lisboa, em Alcochete, Montijo e Palmela.
No outro lado o comboio atravessava a Ponte 25 de Abril, colocando Almada, Seixal e Sesimbra, mais dentro do centro metropolitano – Lisboa a eterna sugadora da margem sul.
E, nós, impotentes, lá íamos de forma resiliente, aguentando aguentando, perdendo população, envelhecendo, porque é isso mesmo que acontece ao interior de Portugal, pela falta de acessibilidades, pela não capacidade de atracção de empresas, pela interioridade. Nós Barreiro é pela guettização.

Uma das grandes prioridades é a requalificação do seu território

E tudo isto, veio à memória, a propósito da noticia de hoje, sobre a pandemia e a perda de produtividade da autoeuropa. Um empreendimento industrial que lhe foi dado, no começo, um tempo de vida de 20 a 25 anos. Esses estão cumpridos. E, por vezes, no percurso, com ameaças e soluços.
O Barreiro com a estratégia do actual PDM devia ter aprendido, sem teias ideológicas, sem muros ideológicos, que há mais cidade para fazer para além de projectos de urbanização – devia ter aprendido em todo este tempo, que uma das grandes prioridades no pensar estratégico do concelho-cidade é a requalificação do seu território, na sua diversidade. Requalificar, requalificar, criar espaços que permitam ao jovens ter acesso a habitação. Dinamizar um concelho polinuclear de lugares e sitios, com urbanidade, não é fazer aquele crime urbano de implantação do LIDL no campo do Luso, gerando uma uma referência suburbanidade, numa entrada para o centro da cidade. Enfim é o fazer para dizer que se faz.
Em segundo lugar, tal como fez e pensou Emidio Xavier e Carlos Humberto, perceber que o futuro deste concelho ( se não quiser ser apenas um dormitório) passa por um estreito diálogo com o Poder Central que é responsável por a maior parte do território do concelho – Baía do Tejo, território ferroviário e Mata da Machada, discutindo, dialogando, dando a visão das nossas potencialidades ( como foi feito no caso da Doca Seca, pela anterior gestão CDU – não gostam, paciência) e. neste contexto, demonstrar que o Barreiro que contribuiu para o desenvolvimento do país – o que o país não tem a CUF cria – hoje, merece que os antigos território industriais façam parte de um modelo de desenvolvimento da região de Lisboa e de Portugal do século XXI. Lisboa tem sentir que o Barreiro faz parte da sua estratégia enquanto cidade de dimensão europeia. Uma cidade de cidades. Foi isto que li há décadas no PROT.

Municipio vende parte da sua alma só a pensar IMI

O país tem uma divida de gratidão para com o Barreiro. O Barreiro pode e deve ser uma terra para viver e para trabalhar. O governo não pode continuar a deixar-nos no guetto, nem grande parte do seu território – sem pagar IMI por abandono – ali, em linha de espera por um qualquer projecto de urbanização ( que também são bem vindos, mas que não podem ser o centro de uma visão estratégica do futuro).
Por exemplo, não vejo mal nenhum que na zona ribeirinha do Coina, se articule um zona estilo Alburrica, onde a habitação namora com o Tejo. Esta uma diferenciação do concelho do Barreiro, o tejo a beijar a cidade, por isso, sou contra, com a pseudo «Veneza no Tejo», que um municipio venda parte da sua alma, só a pensar IMI e expansão urbana.
E não venham com a conversa das verbas, hoje, pela candidatura aprovada, na gestão CDU, já estava em marcha a recuperação do Moinho e, sim, já tinha sido derrubados aqueles muros.
As nossas oportunidades, a oportunidade do Barreiro, tem que ser espelhada no futuro PDM, sob pena de ser mais do mesmo, habitação, habitação. Renovamos demograficamente, pronto ficamos felizes. Perdemos a alma, mas temos IMI.

Um território de emprego e de vida criativa e social

Temos que manter viva a nossa diferenciação ambiental no estuário do Tejo; temos que dar prioridade á reconversão urbana, estimulando o desenvolvimento de uma cidade de lugares e de sitios, com fortes ligações de vizinhança, com afectos, promovendo a cidadania activa, com raizes na vida associativa, gerando nichos culturais, focos de vida económica de proximidade; é preciso acreditar e exigir a implementação de um nicho tecnológico ferroviário, ao qual pode ser associado um nicho de visitação turistica único, porque fluvial e e terrestre; ligar o antigo tecido industrial da CUF ao rio e à cidade, sendo este um polo gerador de emprego, de modernidade, onde pode confluir a habitação a criatividade, um território de emprego e de vida criativa e social. Tenhamos coragem de abrir os olhos ao Poder Central. Que saudades do Emidio Xavier e do Carlos Humberto. Dois senhores, que, conjuntamente com as suas equipas na área do planeamento do território, demonstraram a caducidade do actual PDM, honra a Luis Pedro Cerqueira e a Rui Lopo. Eram tempos que se pensava a cidade, para lá do PDM, e com o PDM, que se discutiu futuro, que se legou muito trabalho. Pois, é isso, mais de 90% dos trabalhos preparatórios da revisão do PDM, foram concluidos na gestão da CDU, de Carlos Humberto, e muitos iniciados, na gestão de Emidio Xavier. E depois fazem um preâmbulo cheio de mofo e teias ideológicas, como porta que se abre para motivar uma discussão sobre o futuro, que é de todos e por todos deve ser discutido.

Não desistir da Terceira Travessia do Tejo, nem da ligação rodoviária ao Seixal, nem da ligação pedonal ( uma ponte de referência no Tejo, com um valor económico, social e ambiental de futuro, que vale mais, muito mais que qualquer rotunda, mas são opções de quem pensa hoje e não pensa maias longe).

E, por onde já vou, e tanto que ainda há para dizer, tudo isto, a propósito da Autoeuropa. Preocupa. E nós continuamos aqui no guetto. Por agora fico por aqui...

António Sousa Pereira

27.11.2020 - 18:29

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.