inferências
Por dentro dos dias – Barreiro
«Gosto de estar aqui a escutar o silêncio de Lisboa»
. Basquetebol está a registar uma redução na ordem dos 70% de praticantes ao nível da formação.Um passeio matinal pela Avenida da Praia é sempre um momento para "lavar os olhos no tejo", descansar a mente, e, até encontrar pessoas com quem trocamos breves palavras e sentimos o pulsar da vida da cidade.
Há quem diga – “a minha vida é um romance”, eu prefiro dizer que – “a minha vida é um poema”. A poesia é o encontro da nossa tranquilidade, o nosso bem estar, com o tempo que fomos e com o tempo que somos. A poesia é essa tranquilidade que está na memória e se cruza com o nosso quotidiano, fazendo brotar emoções, o prazer de sentir nos dias uma paz de ternura, essa, que se escreve com a palavra Amor a beijar a palavra Liberdade, e a palavra Liberdade a beijar o coração que pulsa com a palavra Fraternidade. É isto a poesia. É isto que me ocorre ao pensamento, por vezes, ali, quando estou sentado no centro da minha Catedral do Tejo, nesses instantes toco as memórias, beijo as palavras, percorro o tempo vivido e penso, serenamente – é pá a tua vida é um poema!
E, quando hoje pela manhã, estava a deambular nestes meus pensamentos, passou o meu amigo Rosado – o Professor Rosado, antigo Delegado Escolar, nos anos 80. Ele, parou e interrogou: “Então está a ganhar inspiração para o próximo texto?”.
Respondi: “Gosto de estar aqui a escutar o silêncio de Lisboa”.
Recordei-lhe que nasci junto a um rio, que a minha infância, até ao 7 anos, até â morte da minha mãe, foi sempre acordar, abrir a porta e tocar com os meus olhos no Guadiana, beijando ternamente as suas ondas, passear no areal da «praia dos empelotes», e, voando sobre as duas margens chegavam até mim os sons do flamengo.
Ali, estive, hoje pela manhã, naquela Avenida da Praia, para alguns, ou Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita, como ficou inscrita na toponímia, desde a gestão de Emidio Xavier, ou, para outro, os jovens dos anos 70, 80 e 90, ela era sentida como a Avenida do Amor, dos beijos, das paixões. Um tempo que a cidade começou a despertar para o Rio, e, a sentir que o rio faz parte da sua história, mas, também é indissociável do seu bem estar e de contribuir para o prazer de viver o quotidiano, por dentro da paisagem que é continuidade da nossa casa.
Encontrei o Armindo Pereira, o homem do basquetebol do Barreiro, na sua caminhada. Trocámos breves palavras. Ele preocupado com os efeitos da pandemia COVID no desporto.
Comentou que ao nível nacional, e mesmo na região de Setúbal, a modalidade de basquetebol está a registar uma redução na ordem dos 70% de praticantes ao nível da formação.
São tempos difíceis, ainda conseguem manter alguma dimensão na formação os clubes que têm os seus pavilhões, porque conseguem estender horários e diversificar horas de utilização, os que dependem de instalações municipais, devido às regras impostas pela pandemia, é mais complicado. O Armindo é um apaixonado pelo basquetebol, vive a modalidade com uma intensidade enorme, senti nas suas palavras a inquietação pelo presente mas, ainda mais, a sua inquietação pelo futuro.
A pandemia mudou hábitos nos jovens e crianças, motivou-os para o uso das novas tecnologias e, isso, afasta-os das práticas desportivas. Vai ser difícil dar a volta se isto continuar a afectar as práticas sociais.
Por nós, passa a correr o Pedro Miranda da Silva, diz para mim que de fato não vou longe. Pedro Miranda, é artista plástico e escultor autor do salineiro que está no Mercado Municipal do Lavradio, mas, até hoje, ainda não está lá inscrito o seu nome como o autor daquele elemento escultórico. Acredito que um dia vão lá colocar um placa com o nome. O autor merece e a comunidade deve ter direito a essa informação.
O Pedro continua a sua corrida. O Armindo vai na sua caminhada. Eu sigo, calmamente.
“Tenho 68 anos, já não dá para correr”, é a minha resposta ao comentário do Pedro.
Olho a paisagem. Observo o voo das gaivotas.
Vou andando, e penso - a partir de uma certa idade a vida deixa de ser para correr, passa a ser tempo de viver a caminhar. Tranquilamente!
António Sousa Pereira
08.12.2020 - 16:31
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