inferências
A(nota) mentos - Barreiro
Há mais vida para além do «municipalismo de ideias»
O Fórum Cidadania Barreiro XXI fez-me recordar, hoje, neste século XXI, o BEM – Barreiro em Movimento, do século XX, porque, tal como no passado, está abrir espaço de debate e reflexão que vai para além dos muros da municipalização do pensar e fazer cidade.
Nos dias de hoje, qualquer debate politico ou cultural, ou qualquer acção realizada na comunidade que proporcione reflexão e análise politica, abrindo espaço ao debate de ideias, é sempre uma lufada de ar fresco que contribui para rasgar o silêncio ensurdecedor que marca a vida local.
Uma ausência de debate de ideias e de construção de um projecto de cidade. Toda a troca de «opiniões» é eivada de «dogmas de fé» e de «fetiches ideológicos», coisas repetidas, marketing politico, tais como - o caminho certo é este que se está a percorrer, que nunca se fez tanta obra, a queda de muros e, os tais factos, de tapar o sol com a peneira, sobre o envelhecimento e perda de população.
Na verdade, num concelho onde a discussão politica e o debate de ideias é quase inexistente, por parte da maior parte dos actores, quer por parte dos partidos, quer por parte dos mais diversos agentes locais, num concelho onde a politica da polis, no falar sobre o que somos e o que queremos, está «confinada» aos «Muros dos Paços do Concelho», para, depois toda aquela conversa ser propagada e difundida em videos, tudo isso define bem a falta de reflexão. O que conta é o votito. Coisas para conquistar o votito.
Lá virão os videos do estilo da roda gigante, que não era projecto, era visão.
Ali, por trás dos «muros dos Paços do Concelho», neste tempo que só se fala de muros a cair, o debate politico e o confronto de ideias está resumido ao «arco da governação» - PS e PSD – contra a única força politica que, ainda, assume esse direito democrático de ter opinião e ser oposição é a CDU.
E, por vezes, em situações meramente tácticas e pontuais, o PSD une-se com a CDU, contra o PS; ou a CDU une-se com o PSD, contra o PS. O PS é estilo cortiça, vai na onda. Vive-se um tempo de mero tacticismo. A politica local não passa de um muro de lamentações. Todos os debates estão circunscritos às circunstâncias, ou são fruto da vida politica nacional ou têm como referências as ditas bandeiras ( que nem são causas) que se erguem equacionadas em torno de agendas partidárias. Clichés.
Ali, por trás dos «muros dos Paços do Concelho», regra geral o debate tem como matriz reduzir a discussão da vida do concelho meramente à dimensão da acção autárquica, tendo a autarquia um papel municipalizador, parece que a cidade e o concelho rodam em torno do eixo que está enterrado no «muro dos Paços do Concelho». É assim com uma espécie de municipalização da vida politica e da cultura civica.
Por essa razão, quando há qualquer debate fora do sistema instituído existe uma apetência para participar e debater ideias.
O «Fórum Cidadania Barreiro XXI» tem vindo a promover debates ONLINE, convidando oradores, mas, estes debates estão a pecar por não proporcionarem troca de opiniões com aqueles que decidem marcar presença.
Devia existir algum diálogo entre os oradores convidados e os que entram na plataforma não ficarem resumidos a meros espectadores, em silêncio e numa de ouvir e calar, sem possibilidade de expressar opiniões. É enriquecedor ouvir, mas o debate podia acrescentar ou abrir novas pontes de reflexão.
O debate fica circunscrito aos oradores. Os outros escutam e comentam ou fazem perguntas no chat, sem retorno ou pouco retorno. Ponto final. Diga-se que o tempo para colocar questões é muito curto.
É verdade que este é um novo tempo e que o uso das novas tecnologias está no começo, é uma aprendizagem para todos, quer para os convidados, quer para os que assistem.
Mas antes existir este espaço de intervenção e de abertura à análise de pontos de vista, do que não existir um terreno onde semear ideias, e, todos ficarmos confinados às conversas feitas entre «muros dos Paços do Concelho», restritas a três muros ideológicos PS, PSD, e CDU.
Quero sublinhar que estas iniciativas, ao menos, contribuem para abrir novos espaços de debate sobre a vida local, sobre a cidade e o concelho, contribuindo para derrubar o «muro da municipalização» que foi construído para abafar a cidade e criar a ideia que uma cidade se discute em torno das agendas dos gestores municipais.
Nestes três anos os «muros dos Paços do Concelho» transformaram-se num reduto de desconstrução da cidadania activa, reducionista, limitando o debate de ideias e toda a discussão politica local aos «três grandes», que são os únicos com direito ao tempo de antena nas reuniões autárquicas.
Sempre gostei de escutar as reflexões sobre a cidade, sempre gostei de dialogar sobre as opiniões mais diversas no fazer cidade e cidadania. A cidade faz-se no dialogo e no confronto.
O «Fórum Cidadania Barreiro XXI» com estes debates on line está a criar uma sucessão de eventos que estão a dar uma lufada de ar fresco no pensar a vida politica na comunidade.
Estes eventos on line estão a proporcionar «momentos de laboratório de ideias», um espaço de nicho de visões, de confronto ou de exposições de ideias que permitem, uma abordagem diferenciada sobre o tempo que vivemos, sobre a cidade que temos, a cidade que somos, a cidade que queremos.
Estas iniciativas, nos dias de hoje, neste século XXI, numa cidade onde a discussão politica e o debate de ideias é quase inexistente, por parte da maior parte dos actores locais, onde o debate está, repito, porque nunca é demais repetir, «confinado» aos «Muros dos Paços do concelho», estas são iniciativas muito meritórias.
Isto, na verdade, faz-me lembrar aqueles debates que foram promovidos pelo BEM – Barreiro em Movimento, nos anos 90, que, de forma activa e pró-activa, procuravam abrir debates sobre os mais diversos temas da vida local, procurando estimular a cidadania activa e o envolvimento de todos no fazer cidade.
O BEM naquele tempo foi uma lufada de ar fresco contra o pensamento dominante. Marcou pela positiva o pensar cidade e o fazer cidadania. Foi uma esperança. Aquele movimento tendo no seu seio elementos partidários, e, diga-se, claramente com uma consciência politica estreitamente ligada ao PS, arrastava para os debates, outras pessoas, outras vontades. Era um espaço aberto ao pensar, promotor do diálogo e cultivava o respeito pelas diferenças. O BEM rasgou no plano politico o caminho que conduziu à perda da maioria absoluta da CDU, que, nesse tempo, esteva confinada e autista. Tinha feito imensa obra. Foi talvez dos mandatos que, até aos dias hoje mais obra houve no concelho do Barreiro, obras estratégicas, só um breve exemplo – desde o Parque da Cidade, Oficinas dos TCB, abertura da Avenida dos Fuzileiros Navais, o Mercado Municipal da Quinta da Lomba, o arranque do projecto POLIS, Centro de Saúde do Lavradio, o Pavilhão Municipal Luis de Carvalho, e, obras legadas para o mandato PS – AMAC, Centro Comunitário do Lavradio. E fico por aqui...sim rede de águas, saneamento, pavimentações, espaços verdes. Nunca se fez nada. Só agora.
Mas, voltando ao Fórum Cidadania Barreiro XXI, quero sublinhar que este espaço de debate de ideias, tal como o BEM, mesmo com os desafios epocais fruto da pandemia está a abrir portas ao debate de ideias, a estimular a importância do pensar cidade, a trazer para o debate publico o envolvimento das pessoas, criando zonas de confronto e diálogo de ideias, comprovando que há mais vida para além do «municipalismo de ideias», e, também dos pseudo debates que emergem quotidianamente nas redes sociais.
Este debate promovido pelo «Fórum Cidadania Barreiro XXI», teve como tema: Poder Local participado - uma alavanca para o desenvolvimento económico sustentável e inclusivo, valorizando o trabalho e protegendo o ambiente.
Foram quatro intervenções cada qual com uma narrativa própria, o que permite sentir diferente olhares sobre o território e sobre o fazer cidade.
José Paulo Rodrigues, foi uma intervenção que proporcionou o que se pode considerar como uma «visão de helicóptero». Gostei do seu discurso, numa perspectiva teórica, com um pensamento bem estruturado, uma visão entre o programa eleitoral e uma reinterpretação da história. A sugestão da criação de uma Agência de Desenvolvimento Local, uma bandeira do PSD. É uma ideia a explorar que só fará sentido com o envolvimento pleno do Poder Central que tutela mais de metade dos territórios potenciais do concelho.
Foi muito interessante a intervenção de Ricardo Fernandes, Empresário, que falou com o coração que falou da inexistência de politicas locais para mitigar as dificuldades ( referindo que o municipio vai comprar a empresas noutras zonas do país e ignora as empresas locais que fabricam esses mesmos produtos), a ausência de uma estrutura de apoio e de diálogo com os empresários. Uma lacuna. Uma intervenção de quem sente o quotidiano e com muita matéria para avaliar e criar projectos. Sim, estes, e nestes não devemos estar á espera de TTT, ou outras coisas. Foi assim e continua a ser assim.
José Manuel Henriques, trouxe um discurso académico, que é necessário e essencial, nos tempos de hoje para pensar as cidades e os projectos de cidades. Abriu pistas para sermos capazes de reflectir como nos tempos de hoje mudou a forma de pensarmos o futuro, E que o futuro, recordando que se em tempos idos o planeamento estratégico, antecipava o futuro, hoje é tudo mais imprevisível, por isso é necessário pensar a iniciativa local como forma de pensar o desenvolvimento regional. Longe vai o tempo da nossa capelinha. Defendeu como imperioso a implementação de um governança colaborativa que aposte nas redes sociais locais.
Susana Silva, foi uma intervenção sem grandes surpresas, um discurso politico, uma visão do território, com algumas ideias que são importantes e necessárias manter, mas que fazem parte de um caderno de encargos e de uma agenda politica.
Defendeu a não venda da Quinta Braamcamp, a TTT, o não ao aeroporto do Montijo.
E cá estamos. Foi uma conversa. O Barreiro precisa de muitas conversas como estas que tragam ao pensar a cidade, uma lufada de ar fresco, que nos faça equacionar os efeitos da desindustrialização, que já vinha de antes do 25 de Abril, da desferroviarização, que teve origem na febre de autoestradas, após o 25 de Abril, e da descomercialização, e como tudo isso conduziu à perda demográfica, ao envelhecimento da população, ao guetto que somos.
Não se pode falar de consequências, ignorando as causas. E acima de tudo não se pode falar de futuro enquanto não equacionarmos que modelo de cidade, que projecto de cidade.
Sem isto não passamos de conversas de potencial e de rotundas que abrem caminho ao futuro - ajudam a entrar e a sair mais rápido do Barreiro.
Obrigado pelo debate. Sabe bem, sentir que ainda há quem queira conversar e sonhar futuro, sem pensar em votitos. Os votos são depois – com ideias.
E fica a pergunta - Mas existe um projecto de cidade?
Ou estamos reduzidos a pensar o território com base num PDM caduco e ultrapassado pelos seus 30 anos. E o mundo mudou tanto. Pois, é isso - o mundo gira!
António Sousa Pereira
09.12.2020 - 17:52
imprimir
PUB.
Pesquisar outras notícias no Google
A cópia, reprodução e redistribuição deste website para qualquer servidor que não seja o escolhido pelo seu propietário é expressamente proibida.
Fotografia e Textos: Jornal Rostos.
Copyright © 2002-2020 Todos os direitos reservados.

RSS
TWITTER
FACEBOOK