inferências
A(nota)mentos – Barreiro
Pôr o guiso ao gato
. Do marasmo ao potencial
Ontem à noite voltou de novo à reunião da Assembleia Municipal do Barreiro a proposta relacionada com um eventual pedido de empréstimo de 5 milhões de euros, que a Câmara Municipal do Barreiro, pretende vir a utilizar num eventual projecto de reabilitação do Barreiro Velho.A proposta foi aprovada com os votos favoráveis do PS, PSD e do MCI. As restantes forças politicas optaram pela abstenção CDU, BE e PAN.
A proposta insere-se naquele pensamento táctico de fazer politica local com base no estafado binómio de marketing politico – marasmo versus potencial.
Depois de muita parra e pouca uva, de legalidades ou irregularidades, que marcaram os discursos do PSD e CDU, de trocas de adjectivações, de insinuações, de gatilhos de mudança, por parte do PS, de dúvidas sobre as razões da opção por tal ou tal proposta, dados que os spread e encargos podiam ser mais ou menos benéficos. Coisas e loisas que não ficaram esclarecidas.
Depois de ficar esclarecido que, afinal este eventual investimento, para além da reabilitação, irá transformar-se num activo para a Câmara Municipal do Barreiro.
Depois de sabermos que os 5 milhões, pelo milagre do eventual recurso aos fundos europeus, podem transformar-se em 10 milhões de euros.
Depois de sabermos tudo isto e, de facto, nada se saber do que se pretende fazer na dita reabilitação no Barreiro Velho, apenas, ficamos, com a garantia, desde já, que não vai haver nenhuma roda gigante, nem nenhuma estátua a importantes figuras públicas. Depois de muita cacofonia, de cansaços pelo adiantado da hora, de declarações de voto, que não são declarações de voto.
Depois de sabermos que a CDU, que estava contra, optou pela abstenção, porque não quer ser acusada de que vota sempre contra, que está sempre no contra, por isso, optou pela abstenção, embora não concorde com o processo e considera que aprovar é passar um cheque em branco.
Depois de sabermos que o PSD estava contra e ter tecido fortes criticas a um parecer juridico que estava baseado em informação capciosa, ao mesmo tempo que exigia respeito pela AMB, mas, enfim, depois, aceitou e decidiu aprovar a proposta, porque, pasme-se, existiu o compromisso da proposta, no futuro, ser no seu conteúdo, debatida na AMB, e, mesmo de, depois de ter sido, subtilmente, rotulado como o Chega do Barreiro. Aprovou e silenciou-se.
Enfim depois de sabermos que a reunião visava aprovar um empréstimo, no plano politico, e não no plano juridico, ficando em suspense eventuais avaliações pelos Tribunais, se tal vier a justificar-se.
Depois de se saber que a proposta anda a arrastar-se desde Março, e, que, até já podia ter voltado à reunião de Câmara para anexar informação que lhe desse mais validade e conceptualidade e voltar a ser, de novo, remetida à AMB, com novo texto e reformulada, anexando a informação essencial, optou-se por caminhos de solicitar pareceres juridicos, como caminho para tapar os caminhos politicos, fazendo de questões juridicas, questões politicas. Um cansaço de alta politica.
Depois de ficar claro, bem claro, que não há projecto, mas que se pretende ter as eventuais verbas em carteira, para quando houver projecto, de imediato, existirem condições de ir para o terreno e, finalmente, o gatilho disparar e transformar o marasmo em potencial.
Depois de tudo isto, de tanta conversa, surgiu a grande conclusão da razão deste tema e da sua actualidade na agenda politica, ficando tudo muito claro numa frase de Francisco Alves, do Bloco de Esquerda, palavras claras, sábias e sem filtros, sem cacofonias, assim ditas, tal e qual, ele, sublinhou que o Barreiro Velho é uma coisa séria, e por isso, era necessário – pôr o guiso no gato.
Escutaram-se uns sorrisos. Mas, para mim, aquele instante, aquele «pôr o guiso no gato» fez-me ganhar a noite. Pensei, finalmente uma frase que espelha a realidade da razão do surgimento deste tema da recuperação do Barreiro Velho, de um pedido de empréstimo para qualquer coisa, que ha-de ser qualquer coisa, que, ficou o compromisso – porque os compromissos são compromissos – de o eventual projecto ser analisado e debatido com os deputados municipais, depois de ser debatido na Câmara, um projecto que vai nascer, mas que antes de nascer, sem se saber que tipo de intervenção, fala-se em 5 milhões, que podem ser 10 milhões, se, claro se, há sempre um se, o eventual projecto, que ninguém sabe o que é, e, se, vier a ser comparticipado 50 % por fundos europeus. É tudo assim tudo um se, um talvez, um vai ser...
E, portanto, o pôr o guiso no gato, foi dito, é isso mesmo, vamos entrar em ano de eleições, e como foi salientado, «todos sabemos o que andamos para aqui a fazer». É verdade, isso ficou claro na diferença entre o que se disse e, depois, nos sentidos de voto.
Um louvor a José Caetano, CDU, que costumo chamar de ortodoxo, que, ali, sem papas na língua, disse que só se absteve por respeito à decisão do colectivo, porque ele, pessoalmente, votava contra. Pois. Isto é coerência.
Mas, gostava na discussão desta dita eventual proposta de intervenção no Barreiro Velho, ter escutado na sua apresentação, ou até mesmo de urbanistas, que não são juristas, para além das narrativas do marasmos versus potencial, coisa que não passa de mero discurso populista e que conduz a populismos.
Gostava de ter, nesta noite, de futuros anunciados, com pompa e circunstância, ter escutado algumas perguntas, e, sobre elas ter escutado algumas respostas.
Ou seja para além do olhómetro que o Barreiro velho está degradado, por exemplo, quando se fala de um projecto de recuperação, saber qual a metodologia que vai ser dinamizada para elaborar o tal dito projecto. A conversa dita juridica abafou as sementes de qualquer discussão politica. Falou-se no acessório e ignorou-se o essencial. Muita espuma.
Que diagnóstico foi feito para se concluir que a verba de 5 milhões é a necessária para a revitalização do Barreiro Velho ?
Que tipo de intervenção está prevista? Que debates ou recolha de dados foi feito com o comércio instalado naquele território, para o envolver no projecto? Que população residente vai beneficiar com a intervenção? Quais as intervenções prioritárias – nas vias viárias, nos passeios, na rede de abastecimento de águas, na rede de saneamento?
Que medidas vão ser tomadas no sentido de melhorar a protecção civil numa zona antiga, com dificuldades de circulação de veiculos? Vão ser criados espaços verdes? Que tipo de circulação de trânsito vai ser definida? Qual a área de intervenção - vai do Largo das Obras à Igreja de Nª Srª do Rosário?
Se os proprietários do edificado vão ser beneficiados com a eventual valorização do espaço urbano, foram consultados? A Associação de Proprietários do Barreiro foi envolvida no diagnóstico? E o Movimento Associativo vai ser envolvido nesta reabilitação? Pretende-se erguer das cinzas o Clube 22 de Novembro, num espaço que é emblemático, histórico e emocional?
O que está pensado neste projecto em termos de valorização da população residente no fazer cidade e na sua participação no projecto? Esse envolvimento não devia já ter sido iniciado? A reabilitação limita-se a olhar para o espaço público, ou, também tem uma visão para a actividade económica e para a dimensão humana?
Este projecto é uma intervenção circunstancial ou insere-se numa estratégia de longo prazo, sendo agora implementada uma fase e outras posteriormente? Há uma previsão de fases a dinamizar? Numa década? Duas décadas? Ou os cinco milhões é já para desbastar em 2021, a todo o vapor? Só porque sim, só porque se pensa uma intervenção no Barreiro Velho, como quem olha para uma rotunda?
Este projecto tem, ou não, uma visão que articule a intervenção pública, com a intervenção privada? O projecto vai contemplar ou não medidas de contribuam para a recuperação e revitalização do edificado? Foi pensado neste projecto algum tipo de intervenção no sentido da renovação demográfica?
Uma ideia, um dia, lançada por Cabós Gonçalves de activar o Mercado Marquês Pombal, na dita rua, que implica investimento estratégico de futuro, até, com uma visão de colocar o Barreiro Velho, como referência na AML e Península, faz parte do pensamento estratégico dessa reabilitação, porque seria pensar na criação de uma rua exclusivamente pedonal?
Nada, não se sabe nada. Bola, é tudo bola. Bolinhas de sabão. Não se soube nada. Bola, que significa em linguagem politica da actualidade zero. Bola corresponde, igualmente , o dizer que não há nada para trás.
Não ouvi uma razão para esclarecer o pedido de empréstimo. É isso apenas isso, um empréstimo para reconversão urbana, como se o problema do Barreiro Velho ficasse resolvido, apenas, com uma intervenção desta natureza. Intervenção urbana até já foi feita, em diversas gestões, mas, o resto, é sempre o resto – soluções para o edificado e soluções para a humanização do território e dar-lhe dimensão á sua actividade económica, artistica, residencial. Não se sabe o que se pretende, nem o municipio sozinho tem a solução. Nem hoje, nem nunca.
Não foi dado a conhecer um mero esboço de um estudo prévio ou de um esboço de um plano de pormenor. Se querem 5 milhões sabem o que querem, nem que seja por aproximação. Mas, isto parece mais um projecto a olhómetro.Eh pá, depois ajusta-se o fato.
Por isso estou céptico. Isto de se olhar para uma cidade, com os olhos em outubro, é, foi e será sempre complicado.
Sim, dirão, que todas as matérias referidas, serão tema de reflexão quando da apresentação do projecto. Pois. Talvez.
Para mim, estas perguntas são necessárias para fazer um projecto que tenha visão, e, por essa razão podia existir um pré diagnóstico, tendo como lema – Barreiro Velho põe-te bonito! – e, ser esse o esboço de um estudo prévio, que devia ser a essência estruturante de uma proposta desta natureza, mas, afinal, a que foi apresentada na reunião da Assembleia Municipal do Barreiro, foi com base em retórica politica, com base num vazio, e, só como mera arma de arremesso, mera táctica eleitoralista, que se insere na treta já gasta do discurso do marasmo, dos 40 anos sem se fazer nada ( e tanto já foi feito no Barreiro Velho), do fazemos e do que não fizeram, e depois, espremido tudo é, isso, resume-se ao vamos lá pôr o guiso no gato!
É por isso, só por isso, que ganhei a noite perdida a escutar este debate do agora diz, que logo direi eu, e, agora isto, depois aquilo, marasmo coisa e tal potencial. Ponto final.
Vamos lá pôr o guiso no gato. E isso foi dito e, sem dúvida, é óbvio, que esta proposta, até ao final do ano 2021, não vai avançar para além dos desenhos, videos e discursos.
Uma coisa vai ser certa, ela vai permitir muita criatividade, vão surgir videos com a visão tridimensional – não interessa que depois se faça, ou não faça, não é bem uma promessa, será sempre uma visão. Um projecto que vai nascer ligado à Veneza do Tejo.
Vão surgir fotografias, legendadas – não com o antes e o depois, mas, certamente, com «é assim há 40 anos», e «vai ser assim no futuro». Do marasmo ao potencial.
Eu, já agora, acho que sendo para o ano que se comemoram os 500 anos de atribuição do Foral ao Barreiro, por D. Manuel I, devia era dizer-se : «era assim no tempo de D. Manuel I», e, «este potencial vai ser assim»...tal qual, colocando o guiso no gato!
António Sousa Pereira
11.12.2020 - 09:48
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