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Por dentro dos dias - Barreiro
TEMOS QUE JUNTAR À PALAVRA ESPERANÇA A PALAVRA FRATERNIDADE.

Por dentro dos dias - Barreiro<br />
TEMOS QUE JUNTAR À PALAVRA ESPERANÇA A PALAVRA FRATERNIDADE. Mas, nestes dias, parece que há uma força que vem de dentro, lá do fundo, desse fundo onde encontramos o querer – a resistência, a resiliência, essas palavras que são a energia que faz florir a esperança.

Há dez anos, por esta altura, vivíamos os dias da troika. De repente parecia que o barco tinha naufragado. E, para sobreviver saltamos para o mar, de colete, para tentar salvar a vida. O temporal era imenso. Chuva torrencial. Vento forte. O barco naufragava lentamente. Nós, cada um de nós, procurava nadar, era nadar, nadar, uma luta feroz pela sobrevivência.

Lá estávamos no mar alto, ao sabor das ondas, dando braçadas, procurando encontrar no horizonte a terra. Nadar, era nadar. O que se ouvia a cada instante era aquela frase: “um dia de cada vez, temos que viver um dia de cada vez”.
Estar ali, no mar alto, no meio de ondas crispadas, no meio de um forte temporal, erguendo os braços, mergulhando, tentando chegar a terra firme.

O tempo foi amainando. O ventou perdeu intensidade. Aguentar à tona de água e, por fim, lá se via, ao fundo uma praia, rodeada de rochedos. Era preciso continuar a nadar. O importante, no imediato era chegar à praia, tocar a terra.
Parecia que estava tudo a normalizar. O sol aquecia. Um vento leve ajudava a refrescar. E, pouco a pouco a terra aproximava-se, lá vinha uma onda mais forte que puxava, de novo, para o mar. Um vai e vem, ao sabor das ondas. Quando os pés começavam a tocar terra firme, lá vinha uma onda mais forte que arrastava tudo na corrente.

Dias e dias, muitos, a lutar contra as ondas fortes. Uma vaga, outra vaga. O corpo a roçar nas rochas. Um esfolão. Outro esfolão. Dores fortes.
Mas, nestes dias, parece que há uma força que vem de dentro, lá do fundo, desse fundo onde encontramos o querer – a resistência, a resiliência, essas palavras que são a energia que faz florir a esperança.

Só quem viveu esses dias, quem nadou contra a corrente, quem sentiu as ondas a puxar e o vento a arrastar o corpo quase sem força, sim, só quem viveu, sabe o significado da palavra esperança.
Foi há uma década atrás, um imenso temporal que arrastou vidas para o fundo, que destruiu casas, que matou em silêncio. Afogou.
E lá fomos, entre vagas fortes e fracas, entre mergulhos e braçadas, mantendo à tona de água, com as próprias forças, com a energia do coração e dos nervos.

A praia estava ali, bem perto, e, por fim, tocamos a areia. Olhamos o céu azul. Caímos de bruços no areal. Terra firme, pensámos.
E, de repente uma onda enorme arrasta-nos para o mar. Força. Força. Exaustos. O cansaço era maior que a dor. Voltamos de novo à praia.
Demos os primeiros passos pelo areal. Coragem, Muita coragem. Árvores verdejantes davam sombra. As gaivotas voaram. As ondas agora era um ritual sonoro a beijar a areia.

Levantamos o corpo. De pés descalços. De sorriso quebrado pelo negro dos dentes. Com a poesia no coração, caminhamos, porque, como diz o poeta o caminho faz-se caminhando. Terra firme. A sensação de estar em terra firme depois de ter vivido um enorme temporal faz sentir o calor da vida. A esperança fica grávida de futuro. Sorrimos.
E, quando tudo estava calmo, numa serenidade que permitia tocar o brilho do luar e escutar a ternura do vento. Sentir os dias. Amar.

Lá vem outra inesperada tempestade, esta que toca os nervos, fere o coração. Silenciosa. Isola.
No meio de todo o turbilhão, nasce uma nova palavra – fraternidade – cantamos nas varandas, descobrimos a vizinhança. Sentimos que somos nós e os outros, agora, não se trata de cada um nadar por si para sobreviver, agora, trata-se de todos juntos caminharmos e unirmos vontades para viver. Olhamos o sol sorrimos. Vemos todas as cores a rasgar o horizonte, sentimos, que não é cada um por si, mas que temos que juntar à palavra esperança a semente onde nasce o sentir da humanidade que rima com fraternidade.

Era isto que pensava, hoje, pela manhã, quando passeava junto ao Tejo.
Olhei as ondas e sorri ao futuro!

António Sousa Pereira

05.01.2021 - 08:20

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