Conta Loios

inferências

Por dentro dos dias - Barreiro
«Nem voltei a ver o rosto do meu pai»

Por dentro dos dias - Barreiro<br />
«Nem voltei a ver o rosto do meu pai» Estes dias que vivemos são dias que exigem de todos nós muita serenidade. Este é um tempo que dói. Dói nos olhos. Dói no coração. Dói nos nervos.

Pela manhã, nestes dias de confinamento, na minha única saída diária, quando me desloco à rua para comprar o jornal, encontrei um amigo que, vestido de negro, após o cumprimento matinal, disse-me: “Ela já partiu, foi o COVID que a levou”.

Nestes momentos as palavras ficam secas nos lábios. Os olhos colam-se ao chão. Expressei os meus sentimentos. No meu cérebro, esse lugar onde o tempo é feito de memórias que vasculham os neurónios, o rosto da esposa do meu amigo surgiu com o seu sorriso. Recordo-a na sua simpatia. Ela, era uma presença permanente no Café-Bar da SFAL, naqueles tempos que eu frequentava com assiduidade aquele espaço, quer no exercício das minhas funções de dirigente, quer quando aquele era o «largo da terra», um lugar de vivência associativa e comunitária.

Recordei o rosto dela e muitos rostos, que fazem parte daquele sitio onde tenho inscritas memórias de ternura. Rostos que foram partindo. Ali aprendi o amor à vida. A alegria de viver, o acreditar, o sentir que agindo estava a contribuir para fazer um mundo melhor. É essa a razão do nosso agir. O resto esvai-se. É o que fazemos que fica, que será partilha de futuro.
“Ela já partiu, foi o COVID que a levou”, essa frase toca o meu pensamento. Recordo que havia um tempo, no começo da pandemia, que a morte era distante, chegava pelas noticias, de longe, primeiro da China, depois de Itália, de Espanha, do Brasil. A morte era noticia. Era apenas noticia, neste mundo global.

Depois, lentamente foi-se aproximando, chegavam rumores. A noticia de uma morte por COVID, em Portugal, era manchete.
E, o tempo foi inscrevendo pouco a pouco a morte no nosso quotidiano, eram números, meros números. Números sem rosto. Número de estatísticas diárias.

Os meses passavam. O tempo serenava a dor. E, por fim, sabemos que, aqui e agora, há um amigo que parte, e mais outro, e outro, outra, mais um. Dói. Os nossos mais velhos. E até os mais novos.
A relação da vida com a morte começa a doer, cada vez mais, mais e mais, por dentro do coração. São amigos. São pessoas que fazem parte do tempo que vivemos, com quem partilhamos os dias. Sorrisos. Angústias. São vizinhos.
Estou em casa, entro no facebook, uma amiga despede-se do pai, com lágrimas, num balão que percorre o céu azul. O COVID levou.
É o meu vizinho, um homem calmo, sereno na voz e nos seus passos. Naqueles encontros matinais, sorria, com uma voz melódica e timbrada : Bom Dia.
Não vou mais escutar a sua voz, nem observar os seus passos calmos feitos de tempo vivido. Suaves, sem pressa. Nunca tinha pressa.

O dia passa, neste que foi o dia que se atingiu o número mais alto, num só dia de mortes pelo COVID – 293.
E, ao fim do dia, de novo, outra morte, mais uma morte a atormentar os ossos.
Leio as palavras escritas por um amigo : “O COVID deixou-me órfão e nem posso abraçar a minha mãe, nem a minha irmã. Nem voltei a ver o rosto do meu pai e meu melhor amigo. Protejam-se!”
Leio. Releio. Uma lágrima cai no meu rosto.

Tempos dolorosos. Tempos duros. Tempos que dão para pensar e sentir como somos vulneráveis. Somos pó. Somos, isso, apenas isso, o silêncio de um instante, que fica entre o nascer e o morrer.
Leio. Volto a reler: «Nem voltei a ver o rosto do meu pai e meu melhor amigo».
Este é um tempo que seca as palavras. São tantos os que sentem a dor bater nos olhos! Que só resta o silêncio.
Este tempo exige que aprendamos a (re)escrever a palavra fraternidade.

Um grande abraço fraterno
António Sousa Pereira

28.01.2021 - 14:13

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.