Conta Loios

inferências

Por dentro dos dias
Recordar faz bem aos nervos e estimula o pensamento.

Por dentro dos dias<br>
Recordar faz bem aos nervos e estimula o pensamento. Nestes tempos de confinamento, na verdade. tudo o que seja possivel realizar para estimular os afectos, abrir portas de diálogo, esses, são sempre momentos que permitem respirar e sentir o pulsar do mundo. A alegria de sentir que todos somos humanos.

Ontem, a convite da minha amiga Isabel Braga, entrei numa «tertúlia zoom», na qual participaram antigos alunos do Externato de Vila Real de Santo António, a minha terra natal. Não fui aluno do Externato. Recordo quando as suas instalações eram na «avenida», ali, em frente ao «Café Empurre», e, mais tarde passaram para «zona do farol», junto à Escola do Ensino Primária dos «moços», mesmo por trás da Cantina.

Achei estranho o convite de Isabel Braga, ela, também vilarealense, antiga aluno do Externato. Mas sendo de Vila Real, disse-me, talvez apareça alguém seu conhecido. Venha conversar. E lá estive.
La na terra, os meninos e meninas do Externato eram pessoas de outra classe social, talvez possa ter convivido com alguns, mas, não recordo, eu era do pessoal da Rua da Espanha (uma espécie de Rua Aguiar, no Barreiro).
Mas, deixando para trás esses pormenores, quero registar como foi agradável ter participado nesta «tertúlia».
Nestes tempos de confinamento, na verdade, tudo o que seja possivel realizar para estimular os afectos, abrir portas de diálogo, esses, são sempre momentos que permitem respirar e sentir o pulsar do mundo. A alegria de sentir que todos somos humanos.

E, como acontece sempre quando abrimos o nosso coração ao diálogo, a conversa tornou-se numa viagem por dentro de memórias e estórias. Recordações. Não reconheci nenhum dos participantes, com excepção de Isabel Braga, que, tal com eu, há muitos anos fez do Barreiro a sua terra, a terra dos seus filhos.
Dizer, que Isabel Braga, para além da sua actividade profissional de professora na Escola Secundária Augusto Cabrita, é, uma apaixonada por fotografia, uma criativa, que faz dos seus olhos objectivas, sim, porque um fotógrafo tem que sentir que a objectiva é a continuidade da sua forma de olhar o mundo, como dizia Henri Cartier-Bresson – “fotografar, é colocar na mesma linha, a cabeça, o olho e o coração”.

Isabel Braga desde que a conheço é uma agitadora, uma construtora de pontes, uma animadora, uma criativa, é, mesmo, como se diz na minha terra: «uma marafada».
Gosta de juntar pessoas. Gosta de conversar. Gosta de agitar. Não gosta de águas paradas. Não se incomoda com o politicamente correcto. O importante é fazer. Agir.
E, esta, afinal, foi mais uma das suas agitações, o seu desejo de reencontrar amizades, juntar o passado com o presente. Vasculhar nas memórias. Sentir que todos somos aquilo que o tempo faz de nós, nas alegrias e nas tristezas, em todo o tempo que vivemos em comum.

A conversa da «tertúlia do externato» foi um momento para recordar pessoas da minha infância – o João «Pechinha», o Roque, o Vargas. Foi um percorrer pelos espaços da vila, porque falámos de ruas, e, na verdade, as ruas da minha terra, como certamente as ruas de todas as terras, são ruas e lugares com rostos, são ruas e lugares com memórias, com estórias.

Em todas essas memórias e estórias está inscrita um pouco da nossa personalidade do que fomos, do que somos, porque todos vamos construindo a vida com os outros, nos sitios que se inscrevem no tempo que percorremos. A vida.
Na conversa, recordámos os nomes de barcos – o Agadão, a Conceiçãonita, a Maria Rosa, o Tufão. Falámos da Fábrica do Parody (onde trabalhou a minha mãe, a minha tia e a minha avó). Recordei lugares da minha infância. A Avenida da República, onde abria a porta a olhar o Guadiana. A minha Rua da Espanha, o Largo da Bica. Onde cultivei amizades para a vida. Falámos de pessoas e de lugares. Soube de pessoas que já partiram. Falou-se do Cine Foz, do Manuel Cabanas e, até, do Adragão.

Recordei os dias, antes de Abril, quando no Glória, uma velhinha colectividade, à noite, no Bar, com outros conterrâneos cantava as canções de Zeca Afonso e do Adriano. Um nome que ficou na memória, desse tempo, foi o meu amigo Camarada. Ele, que nas primeiras férias em Vila Real, após o 25 de Abril, fiquei a saber que era um dos fundadores do então PPD. Era homem bom, com quem sempre mantive uma amizade, porque os amigos, se são amigos, sabem respeitar- se nas diferenças. Esta é, acredito, a força de uma cultura democrática.

Um dos participantes na tertúlia que está a viver em Viana do Castelo, deu a conhecer as suas lindissimas aguarelas de Vila Real. Belas. Davam uma bela exposição. As autarquias – junta ou câmara – deviam proporcionar que este projecto se concretizasse. Divulgavam a criatividade de um arquitecto vilarealense e a sua visão estética sobre os lugares da «vila-cidade». Uma terra é feita das memórias dos seus lugares.

O engraçado é que dos participantes na tertúlia, só um estava em Vila Real, os restantes estavam em diversos pontos do país, esses, que foram sendo comentados, assim como outros, que cada um foi inscrevendo nas suas vidas – Faro, Beja, Vidigueira, Barreiro, Viana do Castelo. E as terras onde estão os filhos Barcelona ou Amesterdão.

Em todo esses lugares tinham recordações, estórias para contar e memórias. Um pouco a vida de professores que, ontem como hoje, sempre se fez de terra em terra, semeando saber.

Em certo momento, entrou na tertúlia um neto, sentou-se no colo da avó, e, naturalmente, não podia faltar a minha Alice, que ontem, ontem mesmo, deu os seus primeiros passos sozinha. Ela também entrou na Tertúlia a caminhar para o futuro.
Sim, igualmente, entrou o livro bilingue - «Fé/ Faith» - com as belas fotografia e citações, uma obra de Isabel Braga.

Em suma, foi uma conversa agradável. Fica inscrita. Era giro, numa próxima tertúlia, outros participarem, estas tertúlias permitem recordar, comunicar, entrar pela memória. Recordar faz bem aos nervos e estimula o pensamento.
No mundo de hoje, acreditem, cada vez mais dominado pela ausência de rostos, este diálogo, mesmo virtual, é necessário e importante, para promover afectos, gerar diálogos, partilhar a vida, que é para viver e não para consumir.
Enquanto aqui existimos, neste nosso tempo, que é a nossa vida, só faz sentido encher os dias comunicando, construindo, estreitando laços de fraternidade. Sorrir.

Obrigado, Isabel Braga pelo convite. Gostei.
António Sousa Pereira

Foto- Aguarela de Gavino Mascarenhas

07.02.2021 - 23:01

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.