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Inferências - Barreiro
«Está melhor do que estava» ou quando o «culto da obra» anestesia o direito à diferença

Inferências - Barreiro<br>
«Está melhor do que estava» ou quando o «culto da obra» anestesia o direito à diferença Entretanto não há revisão do PDM, não há pensamento estratégico. O que se faz é mera herança do que estava negociado, pré- negociado, pré-estudado, estudado, e, até parece que estamos a renascer das cinzas.

Estes tempos de confinamento não nos proporcionam vivências quotidianas, encontros com a cidade, vivenciar o espaço urbano.
Um dia, lá longe, nos anos 80, no decorrer de uma visita de estudantes de arquitectura ao Barreiro, registei na memória alguns conceitos sobre o pensar cidade e o fazer cidade.
Uma das coisas que aprendi é que o espaço urbano é continuidade da nossa habitação, que nós fruímos do espaço envolvente das nossas ruas. E este, foi um tema que veio para as conversas no decorrer da visita à Cidade Sol, um modelo de urbanização, que nasceu após o 25 de Abril, sendo na época, referenciado como exemplo, do construir cidade moderna, do fazer novas centralidades, do urbanizar com qualidade de vida. A habitação continuava na sua envolvência, com zonas verdes e de lazer, com ruas que deixavam entrar o sol, uma urbanização com os olhos num modelo de cidade inovador e de futuro.

A visita à Cidade Sol, contrapunha-se a outras visitas que os mesmos alunos, anteriormente fizeram a outras zonas do concelho, urbanizadas antes do 25 de Abril, nomeadamente na Verderena e Alto do Seixalinho, onde no espaço urbano os prédios cresceram como cogumelos, sem preocupações de criar zonas de estacionamento, nem espaços verdes, com uma enorme densidade populacional, sem ligações ao rio, sem preocupações de pensar que a nossa habitação prolonga-se no espaço envolvente.

A longo de anos foram gastos pela Câmara Municipal do Barreiro, em diferentes gestões, ainda hoje isso acontece, e vai continuar a acontecer, de tal forma foram os logradouros, os espaços envolventes a prédios, que os patrões da construção civil deixaram ao abandono. Como sei o imenso trabalho de Juntas de Freguesia e da Câmara, ao longo de anos, e os milhões gastos, nestes mais de 40 anos após o 25 de Abril, na recuperação valorização de logradouros, na construção de arruamentos e passeio, sinto, indignação quando, nos dias de hoje, fala-se de um concelho ao abandono, fala-se que hoje é que à obra, como querendo apagar todo o imenso trabalho de muitos homens e mulheres que, nestes anos, deram contributos e, até, permitiram criar condições para a reflexão e o pensamento sobre o fazer cidade possa, deva, dar saltos qualitativos, para que não se comentam os mesmos erros, principalmente esse de não se pensar a cidade como um espaço de cidadania, sim, só pensando o espaço urbano com algo que é continuidade da nossa habitação, proporciona que possamos fruir o espaço urbano.

Ora tudo isto vem a propósito do discurso muito em voga de centralidades e de transformações que se vão registando no espaço urbano, que, em nada coincidem com este pensar a cidade como lugar de fazer e viver cidadania. Um espaço urbano para fruir a cidade.

Tudo isto ocorreu-me a propósito de dois espaços públicos que são, hoje, tema de conversas nas redes sociais, que gera trocas de adjectivos. Os substantivos, esses, não existem.
Ou seja, a substância das conversas, por imperativos dos tempos que vivemos, passam para a mera adjectivação, atingindo níveis da banalidade e ofensas.

Um espaço é o estacionamento criado na zona da Rua Miguel Pais. Estive a visitar. Não gostei da opção. Não gostei que na reconversão de uma zona ribeirinha se optasse por dar lugar ao automóvel.
Se me perguntarem se como «parque de estacionamento», está, ou não, melhor que estava, claro que está. Aliás está melhor como parque de estacionamento, e, até, melhor que se naquele local, com um acrescento de aterro tivessem sido construidos os prédios que estavam previstos que só não avançaram devido ao 25 de Abril, numa discussão que, tanto quanto sei, começou na Comissão Administrativa de tal forma, pelo que apurei, até foi consultado o falecido Gonçalo Ribeiro Telles, que terá expressado um grande apreço pelo facto dos barreirenses quererem combater o betão na zona ribeirinha de Alburrica. Uma opção que envolveu pessoas de diferentes matrizes ideológicas, num acção pioneira na defesa de valores ambientalistas e de ligação da cidade ao rio. Depois, bom depois muitos sabem a história. Uma história que devia ser escrita, essa da cidade e o rio, com tantas estórias, que davam uma tese de doutoramento.
Por isso, não gostei da opção tomada. Aquele espaço merecia um olhar de um arquitecto paisagista, merecia coragem politica, merecia que fosse pensado que a habitação tem continuidade no espaço urbano. Está melhor que estava. Está. Já podia estar há muitos anos. Mas, se após tantos anos das lutas que levaram a evitar a construção de prédios, chegar a esta solução, é mesmo de quem não pensa a cidade e só anda a correr atrás do «obrismo».

A outra obra é aquela Rua Verde, que visa ligar o Parque Catarina Eufémia e o centro da cidade ao rio, um ideia que foi equacionada pelo arquitecto catalão Joan Busquet, no âmbito do projecto do Forum Barreiro, da reconversão da Avenida Alfredo da Silva, da implementação do REPARA, visando desenvolver o conceito de ligação da cidade ao rio, fazer do rio um ponto de encontro com a centralidade urbana.
Gostei do conceito, logo quando o mesmo foi apresentado, e, aguardava com algum interesse o resultado final da intervenção naquela artéria, de forma a percepcionar a forma com podia ser vivido este conceito de «rua verde» - a rua que leva o centro da cidade para a zona ribeirinha, motivando a passear, proporcionando uma visão de centro que se prolongava para o rio através dos passadiços.
A intervenção naquela rua, para dar vida e afirmar este conceito merecia uma atenção e uma intervenção modelar, estruturante, porque ela é isso, uma via estruturante do pensar e fazer cidade, do pensar e viver a cidade e o rio. Não havia pressa. O importante era fazer uma obra de futuro.
Mas, há sempre um mas, esta cultura da actual gestão – do aqui há obra – só pensa em obrar e, foi feito aquele «mamarracho pintado de verde». É uma obra que não passa de obra de «fachadismo». Não gosto. Gosto do conceito. Não gosto do resultado.
E disse. Esta é a minha opinião. Tenho o direito a ter opinião. E como não alinho na anestesia do silêncio, nem quero ficar sufocado, nesta cultura do obrismo. Aqui fica o meu pensamento.
Já agora acrescento, que esta «politica do obrismo» - do aqui há obra, do culto da obra – tem sufocado o debate sobre a cidade que temos e a cidade que queremos. A discussão que hoje se faz no pensar a cidade em torno do «culto da obra» é uma mera manobra de diversão, para estimular os bons e os maus, os que fazem obra, os que não fizeram obra. É uma discussão que banaliza a discussão, numa frase síntese - «está melhor do que estava», nem permite que se pense – “podia estar melhor que aquilo que ficou”. É este o nível a que se chegou no pensar e fazer cidade.
Entretanto não há revisão do PDM, não há pensamento estratégico. O que se faz é mera herança do que estava negociado, pré- negociado, pré-estudado, estudado, e, pelo que se diz, até parece que estamos a renascer das cinzas.
Continuamos isolados. Sem empregos. Com os antigos espaços ferroviário e industrial, em pousio. Um concelho com um potencial adiado.
Enfim, vamos ver como vai aguentar, no pós pandemia, o nosso tecido económico, feito de gente que arregaça as mangas e trabalha...

António Sousa Pereira

23.02.2021 - 17:23

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