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Por dentro dos dias – Barreiro
A ficção mistura-se com a realidade
. Aqui há obra!

Por dentro dos dias – Barreiro<br>
A ficção mistura-se com a realidade<br>
. Aqui há obra! Mas, pronto, são coisas. A ficção mistura-se com a realidade. O importante é fazer passar a tal mensagem, das décadas sem nada se fazer, do só pensar. Isto cansa.

Uma ideia repetida, uma frase sincopada, é uma técnica do marketing, que visa estimular sentimentos, levar ao consumo de produtos e valores.
É por isso que uma ideia repetida entra no léxico, de tal forma, quando o seu uso é regular que se transforma numa banalidade, afinal, o importante é manter “em banho maria” aquela ideia repetida, até à exaustão, até se tornar num pensamento corrente e vulgarizado. Abandono. Décadas. Obra.
Na vida, quando decoramos um texto, só por repetirmos o texto, não significa que estamos a exprimir um pensamento. Um texto repetido, sem contexto, é uma mera reprodução de texto, não são ideias, são reprodução de textos, slognas, ideias vazias, porque não são pensamento consolidado, são pensamento gravado no hipotalamo, que não é pensado.
No teatro, por exemplo, um bom actor tem que decorar o papel da personagem, para vivenciar a personagem, de forma que a dicção seja sentida com energia, expresse os sentimentos da personagem. Quando não se sente o papel, por vezes recorre-se ao improviso.
Só que a vida não é teatro. A vida real não é um filme, ou um guião de um video, é por isso, só por isso, quando a ficção está desligada da realidade, sente-se que o texto é apenas encenação, sente-se que é improviso.

Tudo isto vem a propósito de um folheto que entrou ontem na minha caixa do correio, que li, com muita atenção, embora convicto que ele é apenas um, dos muitos, que vou receber ao longo deste ano, neste período pré-eleitoral autárquico.

Li e fiquei emocionado com aquela nota introdutória do “espero” que se encontre bem, de saúde, com coragem para ultrapassar todos os desafios que se avizinham, esta nota, fez-me recordar as cartas que a minha avó me pedia para escrever ao meu tio quando ele estava a trabalhar em Matosinhos. Era sempre o mesmo texto: “Querido Filho, espero que estejas bem de saúde, nós por cá todos bem”.
Senti esse carinho, esse afecto, mas, a porca torceu o rabo, quando, de seguida, fui motivado a envolver-me naquele “estamos juntos neste desejo e nas ambições que queremos para a nossa cidade”.
Aí, parei para pensar, e recordei aquela anedota, alentejana, quando de repente faltou a luz durante um baile e, o alentejano, no meio da sala foi apalpado e gritou: alto e para o baile!
Até porque, de repente, aquele que vinha sendo um texto de afectos, marcado por uma relação pessoal, passou para um plano diferente, marcado de distanciamento, institucional, passando do “espero” que devia ser seguido de um “venho informar”, para uma linguagem que se transformou em “CMB informa”. Fiquei pensativo, porque não se percebe como um texto de “eu”, sem mais nem menos, se transforma num texto de uma “entidade”. Isso é complicado. Mas, pronto, percebe-se. Freud, explica isso. Certo!

E continuando na leitura, comecei a sentir necessidade de escrever este texto, que, aqui e agora, nesta manhã de fevereiro, estou calmamente a escrever para partilhar com quem tiver a paciência de ler esta crónica.

O dito texto anuncia a obra da Avenida da Liberdade, muito desejada e reivindicada pelos barreirenses, acrescentando, mais adiante, que esta obra vai por ponto final num nó rodoviário que subsiste há décadas, numa das mais movimentadas artérias da cidade, onde circulam diariamente milhares de pessoas do Barreiro e de concelhos vizinhos.
Leio e volto a ler e reler. É mesmo isto que estou a ler, belisco-me, para ter a certeza.
E, como tenho este defeito de ter memória e porque o que se escreve, quando pensado não deve estar desligado da memória, ao meu pensamento chegaram várias imagens daquele espaço da cidade. A Rua da Recosta. Os aterros da doca. O quartel dos Bombeiros do Sul e Sueste.
Recordei que, afinal. aquele dito nó rodoviário não tem décadas, basta só pensar que o viaduto foi inaugurado no ano de 2004, na gestão de Emidio Xavier. Há portanto 17 anos.
E, que o Terminal Ferro-Rodo- Fluvial foi inaugurado em 1995. Há 26 anos.
E, também, que a Avenida da Liberdade, como existe, actualmente, não tem largas décadas, porque, de facto, nem são assim tantas as décadas que passaram desde que foi derrubado o muro da Bomfim que, só então, permitiu ligar a Avenida do Bocage à Avenida da Liberdade.
Mas, pronto, são coisas. A ficção mistura-se com a realidade. O importante é fazer passar a tal mensagem, das décadas sem nada se fazer, do só pensar. Isto cansa.

E, por dentro da minha memória ocorrem-me as imagens de sonhos. Tantos sonhos.
Aquele de se construir uma «marina» na zona do Terminal Rodo Ferro-Fluvial, e transferir o Terminal para o território da Baía do Tejo, sonho equacionado no âmbito do Masterplan, proposto na primeira gestão PS, ou, até, igualmente, todo esse mesmo sonho, integrado em projectos na gestão CDU, no âmbito do Plano de Urbanização da Quimiparque e área envolvente, e, ao pensar nesses sonhos, interroguei-me se foram coisas para esquecer, se foi tudo para o lixo.
E tudo isto, motiva mais que razões, para equacionar se esta obra, que agora vai avançar, faz sentido, justifica-se, ou, até mesmo se a sua programação resultou de alguma discussão de pormenor sobre o futuro desta zona do concelho. Uma zona que é estruturante, sim estruturante, porque integra o pensamento sobre as zonas ribeirinhas e o chamado corredor do Coina.
Que discussão foi feita? Onde foi abordado este projecto, em reunião de Câmara, na Assembleia Municipal ? Esta obra em que estratégia se enquadra no pensar cidade? É mesmo uma prioridade? É mesmo uma reivindicação da população barreirense?

Quando li que esta é a artéria mais movimentada da cidade? Interroguei-me. Será? Certamente deve ter movimento de manhã e ao fim da tarde, durante o dia está às moscas.

Neste tempo de pandemia, não seria mais importante, por exemplo, pensar na revitalização da Rua Miguel Bombarda? Pensar o centro do Lavradio que está a degradar-se? Pensar a reconversão do Alto do Seixalinho? Renovar espaços de vivência quotidiana, para estimular a vida nas ruas, dar vida à cidade, melhorar a segurança, estimular o comércio local?
Não, opta-se por reconverter uma zona para facilitar o acesso do carro particular e, diz-se, em simultâneo que vai motivar mais a atração pelo transporte público. Foram feitos estudos? Há algum inquérito que permita saber as eventuais opções dos utentes? Ou isto é mera conjectura!?

O que penso, afinal, é que esta obra é mais uma nesta azafama de demonstrar que se faz obra. O culto do obrismo. O culto da obra de fachada. Esta para inaugurar com pompa e circunstância lá para Setembro, mesmo em cima das eleições. Coincidência.
Uma obra que se enquadra nessa «percepção» de planeamento, da cultura 2830, que fazer cidade é fazer rotundas, afinal, essas dão visibilidade e permitem a narrativa do «aqui à obra», do estamos a mudar a cidade.
Quem se atrever a dizer o contrário, ou a ter opinião diferente, é um aziado, que se cultiva nas redes sociais, onde, em politica tudo é permitido. Clubite. Ofensa.

E, já agora, falar que ali vai nascer mais uma centralidade, numa zona de passagem, de milhares de pessoas do Barreiro e de concelhos limitrofes, é, mesmo pensar que as centralidades não são sitios para viver, são lugares para circular. É verdade, circular é viver.
Esta concepção de cidade que as centralidades são pontos para sair e entrar – esta, na Quinta da Lomba – são ideias que estão subjacentes quando se refere que se vai transformar em mais uma entrada da cidade. Já agora, entrada e saída.
Afinal, é nisso que se está a transformar o Barreiro numa cidade com entradas e saídas, desde que começou a queda do seu tecido industrial – desindustrialização, desferroviarização, descormecialização.
E, até hoje, o país, não achou justo pagar ao Barreiro aquilo que o Barreiro lhe deu, como grande centro industrial.
Continuamos, sem que exista uma luz ao fundo do túnel.

Mas este comunicado, carta, oficio, vai certamente animar, hoje, a reunião da Assembleia Municipal, com as narrativas do costume - os senhores estão preocupados é com obra, que se faça obra, que se mude o que está ao abandono há décadas.
E, pronto, cá vamos, felizes, transformado com esta lista de prioridades, com a criação de novas centralidades, como aquele crime no Campo do Luso. Claro, está melhor do que estava, não se aceitou foi discutir que podia ser melhor, criar uma verdadeira centralidade, numa das zonas de maior densidade populacional.

Pronto, aí temos, mais uma rotunda para circular e, neste caso, para facilitar de forma mais eficaz e rápida a vida ao transporte particular...e mais eficiente do ponto de vista do transporte público.
É isso, o carro particular, o transporte público, transformar a cidade para que se possa circular com eficiência, eficácia, para sair e entrar, nas horas de ponta – de manhã e ao fim da tarde.
Entretanto, os espaços da cidade que podiam ser revitalizados, esses, continuam, ao abandono.
Divirtam-se!

António Sousa Pereira

25.02.2021 - 12:01

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