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Por dentro dos dias
Olhei as papoilas vermelhas. Sorrindo!

Por dentro dos dias<br>
Olhei as papoilas vermelhas. Sorrindo! Sentir a vida renascer é giro. Dizem que a Páscoa é a festa do renascer. A minha amiga Filipa Lopes, um destes dias, dizia que gostava de ler um poema meu sobre a Páscoa. Nunca fui de festejar a Páscoa, pelo menos da mesma forma como festejo o Natal. Talvez porque o Natal celebra o começo da vida e a Páscoa a morte.

Na minha volta matinal para ir comprar o jornal, passei junto à Escola do Ensino Básico, colada à rede, com um ar terno e deliciado estava uma senhora, que, quando com ela cruzei o meu olhar, comentou: “É tão lindo ver de novo as crianças na escola”. E ali ficou a olhar, vivendo aquele instante como quem observa um jardim de flores coloridas, neste começo de Primavera. Sorrindo.
Depois, de comprar o jornal, lá fui até à «Avenida da Praia», e, na Esplanada dos Dadores de Sangue, que, como todas, hoje reabriu, ali estive a beber o meu café, lendo o jornal e deliciando-me com aquela paisagem única sobre Lisboa.

Sentir a vida renascer é giro. Dizem que a Páscoa é a festa do renascer. A minha amiga Filipa Lopes, um destes dias, dizia que gostava de ler um poema meu sobre a Páscoa. Nunca fui de festejar a Páscoa, pelo menos da mesma forma como festejo o Natal. Talvez porque o Natal celebra o começo da vida e a Páscoa a morte.

Da Páscoa tenho uma recordação da minha infância. Duas irmãs, na minha terra Natal, durante vários anos, pela Páscoa, ofereciam-me uma prenda. Ano após ano, sempre, vestiam-me dos pés à cabeça, desde boina, sapatos, meias, calças, camisa. Total. Era um ritual. Todos os anos pela Páscoa eu contava com aquela vestimenta, oferecida pelas duas meninas ao «Tonico», como elas me chamavam, e, depois, ao longo da vida, sempre mantiveram comigo um imenso carinho, e, eu uma imensa gratidão e respeito. A vida é mais bela com gratidão.
É verdade, como eu me sentia, naquele domingo de Páscoa, todo emproado de roupa nova a passear na Avenida dos Mosaicos. Cruzava-me com elas e elas sorriam. Felizes. E eu feliz. Eu renascia. É talvez isso a Páscoa, mais que celebrar a morte, é o celebrar o renascer, renascer com a Primavera. Renovado. O ritual da Páscoa está associado à celebração da ressurreição. E dou comigo a pensar que a «ressurreição» é, afinal, o nosso «renascer», quando um dia partimos, ao sermos recordados pelo que fizemos e pelo que deixamos. As nossas sementes, que foram fruto das nossas lutas, das nossas acções, das nossas obras, serão a flor do nosso ressurgir. Sempre que, em futuras gerações, formos recordados pelo nosso legado, pelas nossas obras, renasceremos. É a memória que se faz eternidade.

Nestes dias de inicio de «desconfinamento» parece que estamos a reencontrar a vida, os espaços, a alegria de partilharmos os dias, os lugares. A cidade começa a renascer.

Regresso a casa, olho aquele novo espaço na Avenida da Nacionalizações, que já foi Avenida dos Descobrimentos – dois nomes que nos tempos que correm são estranhos. Essas coisas de quem considera que a memória é para enterrar nos escombros.
Olho e penso, a «Rotunda das Papoilas» está gira...e, circulando, no meu pensamento recordo as paisagens rurais que, ainda conheci, no Lavradio, na Baixa da Banheira, no Alto do Seixalinho, nos Fidalguinhos.
Hoje há prédios. Mudanças. Há quem pense que o nosso futuro está reservado a ser uma terra de habitação. Uma terra para viver.

Eu gostava que fosse terra para viver e para trabalhar, que voltasse a renascer como terra de trabalho, de gente que acredita e luta, gente de trabalho e cultura, gente de Liberdade.
Será que ainda é possível renascer? Interroguei-me.
Olhei as papoilas vermelhas. Sorrindo!

António Sousa Pereira

06.04.2021 - 20:34

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