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ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...
Um rosto convidado... Rodrigo Mendes
As nossas vidas são infinitamente mais do que o nosso ser físico e psíquico

ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...<br />
Um rosto convidado... Rodrigo Mendes<br />
As nossas vidas são infinitamente mais do que o nosso ser físico e psíquico Para nós que vivemos nesta região do Barreiro, bom seria igualmente que esta Páscoa fosse passagem para um tempo em que já não vivemos no temor da construção do aeroporto no Montijo. De vez em quando, passa aqui por cima uns desses grandes aviões que vão aterrar na atual Base Aérea.
O barulho é ensurdecedor; sei que os gases que emitem são altamente tóxicos e também sei que essas enormes máquinas já têm caído nas imediações dos aeroportos.

O Senhor Diretor abre-me caminho para a escrita de umas palavrinhas em “Rostos”.
Faço-o com muito gosto, até para me associar à celebração dos 20 anos de bons serviços já prestados por esta publicação. Não porque esteja convencido de que o meu rosto mereça ser especialmente conhecido.
Os rostos que mereceriam ser conhecidos são os de todas essas figurinhas anónimas sem as quais não haveria figurões. Mas como não consigo resolver esse problema, aí vão então algumas palavrinhas. Não ficarão certamente surpreendidos se soarem aquilo que sou, ou seja, um padre da igreja católica.

Estamos em plena Páscoa. Mas não passou já a Páscoa? Não, porque a Páscoa que tem a sua génese na Ressurreição de Cristo, é uma madrugada, um dia, uma semana, cinquenta dias… Uma madrugada porque significa que a vida não termina na noite mas desemboca num amanhecer; um dia porque é dia a dia que se caminha para esse amanhecer que tem manhãs, tardes e noites; uma semana porque esse é o tempo bíblico para se chegar à nova criação na qual desemboca essa madrugada; cinquenta dias porque esse é o templo bíblico para que se estenda por toda a parte.

Mais do que qualquer outra do passado, esta foi uma Páscoa anunciada e não particularmente pela Igreja. Todos estávamos ansiosos por saber o que se poderia ou não fazer nesta Páscoa. A fogueira do lume novo com que se inicia a Vigília Pascal era há muito luzinha no fundo do túnel que se vislumbrava ou não. Em muitos lados se escreveu: “vai ficar tudo bem!” Num grande centro comercial da região a frase aparece em grande letras por cima da entrada principal, encimada pela imagem bíblica do arco-íris que anunciou nos tempos de Noé o fim da catástrofe.

Páscoa quer dizer passagem. Precisamos de acreditar que, como diz o povo, estamos a passar desta para melhor e que vai ficar tudo bem. E estamos a descobrir que, para isso, urge tratar melhor a natureza e cuidarmos melhor uns dos outros e de nós próprios.
Damo-nos conta de que muitas vezes esbracejamos no meio de lixo, disputando-o uns aos outros em lutas fratricidas e privando do essencial os mais fracos ou menos sortudos. Mas também urge descobrir que as nossas vidas são infinitamente mais do que o nosso ser físico e psíquico. Se a isso nos reduzimos é óbvio que nunca ficará tudo bem.

Para nós que vivemos nesta região do Barreiro, bom seria igualmente que esta Páscoa fosse passagem para um tempo em que já não vivemos no temor da construção do aeroporto no Montijo. De vez em quando, passa aqui por cima uns desses grandes aviões que vão aterrar na atual Base Aérea.
O barulho é ensurdecedor; sei que os gases que emitem são altamente tóxicos e também sei que essas enormes máquinas já têm caído nas imediações dos aeroportos.
Aqui estão cheias de casas com gente dentro, de escolas e até um grande hospital. Fico a imaginar o que seria a vida nesta zona se por aqui passasse a quatrocentos metros de altitude um avião de dez em dez minutos.
Dizem-me que isso poderia acontecer em certas horas do se o aeroporto fosse constuído na Base Aérea.
Por mais bonito que seja as pessoas aterrarem em Lisboa no meio dessa paisagem magnífica do estuário do Tejo, o progresso humano não passa certamente por aí. A mim, dada a minha idade, já não me incomodará.
Mas todos estes mais pequeninos que chilreiam na escola aqui ao lado, certamente não me perdoariam quando um dia forem grandes se, em plena pandemia também motivada por este tipo de progresso, eu tivesse assistido calado ao avanço para esse pandemónio de que serão vítimas.

A continuação de uma santa e feliz Páscoa para todos!

Rodrigo Mendes

09.04.2021 - 17:00

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