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A(nota)mentos
A politica local está reduzida à banalidade.

A(nota)mentos<br>
A politica local está reduzida à banalidade.<br>
Não assistimos a um debate de ideias sobre o Barreiro, sobre opções para a cidade, ou para o concelho. Vivemos quatro anos de vazio de debate, a politica viveu assente na municipalização

Hoje, pela manhã, um amigo que tem opções partidárias determinadas e convictas, um social democrata, com quem pontualmente mantenho diálogo, sobre os mais diversos temas, quer da vida local, nacional ou internacional, numa breve troca de palavras, expressava o seu lamento sobre as vivências que marcam nos dias de hoje a vida politica local, no Barreiro, dizia-me: «a politica local está na pocilga».
Ele, sublinhava a importância do debate de ideias sobre o território, referia que as eleições autárquicas deviam ser uma oportunidade para abordar temas que contribuíssem para o desenvolvimento económico do concelho, e, conformado, afirmava – “ninguém vai discutir ideias”.

E, pela tarde, enquanto tomava o meu café, a olhar o Tejo, por ali, também troquei umas palavras com uma amiga que, de forma entusiástica, defendia que a proximidade das eleições autárquicas devia ser uma motivação para debater projectos, debater ideias.
Referia a minha amiga - “Eu não tenho partido, nem quero nada com partidos” – mas, acrescentava que os partidos deviam ser os primeiros a lançar o debate de ideias, porque, salientava – “é pelas ideias que envolvemos as pessoas”.
Sublinhava a necessidade de discussão de projectos para a cidade, acrescentando que – “as ideias são essenciais, para gerar conteúdos, para definir projectos”.
E, desta vez, era eu, calmamente a dizer-lhe, que, pelo caminho que isto leva, não estou a ver que a campanha eleitoral vá contribuir para o debate de ideias, ou para a abordagem de projectos com visão de futuro.

“Gostava de debater ideias sobre o futuro da minha terra”, afirmava a minha amiga.

Duas pessoas que não são da minha geração, duas pessoas com formação superior, duas pessoas que já os vi participar, e, a agir no fazer cidade e cidadania. Estavam tristes. Ambos, não desistindo da importância do debate de ideias, lamentavam a ausência de discussão de politicas locais, de estratégias locais.
Gostei, destas conversas, afinal, senti que nesta terra, há pessoas que pensam e acham importante as ideias e o debate de ideias. Que ter diferenças de opinião não é razão para cultivar o desprezo pelas ideias.

E, após esta duas conversas dou comigo a pensar sobre a vida politica local, as suas marcas essenciais, que não são de hoje, arrastam-se desde a pré-campanha eleitoral das últimas eleições autárquicas.
Na verdade, quem tiver memória recorda, certamente, que as últimas eleições autárquicas foram as primeiras marcadas pelos «confrontos» nas redes sociais. A politica reduziu-se à banalidade.
Recordo que na época comentei com candidatos da CDU, porque não respondiam às sucessivas agressões, calúnias, mentiras, deturpações da realidade que enxameavam diariamente as redes sociais. Responderam-me que não deviam entrar nessa confusão e optaram por ignorar. Talvez convencidos com a vitória.
Na campanha eleitoral a politica desceu ao nível não do confronto ideológico, mas, por vezes nos ataques pessoais. O confronto de ideias só tinha uma linha presente, o ataque aos papões que comem criancinhas.
A politica desceu ao nível dos fait-divers. Os debates de ideias centraram-se na gestão de emoções, na criação de um bode expiatório de todos os males do Barreiro. O binómio abandono e ruínas - versus – potencial por aproveitar, foi repetido até à exaustão. Está de volta.
O confronto era sempre de forma reducionista, de grande simplicidade discursiva, ideias repetidas – o lixo nas ruas, as ervas, uma agenda de marketing politico, na época, sempre referi aquelas «urdiduras«, como o manter de forma constante e viva a tese dos «bons» e dos «maus».
E nos dias de hoje continua...pelos vistos a cultura democrática e a aprendizagem da democracia, os erros cometidos, os sobressaltos, o sentir as mudanças na história, só beneficiou alguns. Outros pararam no tempo. Enfim. Os perfeccionistas. Os Cristalizados.

E, ao longo do actual mandato isso continuou, as reuniões da CMB foram o núcleo dessa constante urdidura. Cansava.
Não assistimos a um debate de ideias sobre o Barreiro, sobre opções para a cidade, ou para o concelho. Vivemos quatro anos de vazio de debate, a politica viveu assente na municipalização. A gestão de imagem foi a linha central da acção politica, aliás, sublinhe-se, que foi tecnicamente bem feita, principalmente, na gestão e produção de videos.

Portanto, chegados aqui, no agora, perante este cenário, é natural que as próximas eleições autárquicas, mais uma vez, decorram sobre a «urdidura» da gestão de emoções. Os bons e os maus. Já está na rua.

É tudo isso que, afinal, permite contribuir para que não se avalie a acção de quatro anos, e, qual o seu contributo para gerar ideias estratégicas, de visão de cidade ou de valorização da cidadania.
Costumo dizer que, nos últimos anos, vivemos quatro anos de «politica do cuco». Foram quatro anos a realizar projectos que estavam em agenda, e, gerir uma boa herança orçamental. Não existiu pensamento estratégico. Não existiu debate politico. Viveu-e se um tempo de «anestesia do debate politico», que ficou centrado em torno das reuniões de Câmara, cansativas e sufocantes.
A «politica do obrismo» com a finalidade de fazer passar a ideia, que os outros passaram o tempo a pensar e nós fizemos, foi um elemento estruturante da fuga para a frente, do não debate, da negação da participação e da não valorização da cidadania.
Os exemplos mais flagrantes das «urdiduras», podemos encontrar em torno da forma como se fala da renovação da frota dos TCB. Ou em torno da temática da venda da Quinta da Braamcamp e da não intervenção naquele território, que ficou quatro anos, esse sim, desnecessariamente ao abandono.

E, portanto, é natural, com este caldo de gestão de emoções, de ausência de visão estratégica, de acção politica com base no ir na onda, no gerar ondas – os jovens e os velhos - para manter o clima de pseudo confronto ideológico, dos maus que não querem a evolução, os bons que fizeram obra, isso, na verdade, não abre espaço para o debate de ideias, mas, isso sim, apenas serve para estimular um inimigo de estimação e a negação do direito à diferença.
É natural, portanto, sem dúvida, que a próxima campanha eleitoral se transforme numa campanha vazia, assente na gestão de manobras de diversão e fait divers.

António Sousa Pereira

15.04.2021 - 20:11

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