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ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...
Um rosto convidado... Fernando Sobral
EC - O Clube do Bolinha

ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...<br />
Um rosto convidado... Fernando Sobral<br />
EC - O Clube do Bolinha O futebol, outrora chamado o “ballet” dos trabalhadores, tornou-se um espectáculo global. Mas continua a ser uma emoção local. Por isso, os clubes, ao contrário do que muitas vezes se proclama, são mais do que um negócio. O futebol é uma paixão. E esta não se mede em euros ou dólares.

Talvez por isso, Arrigo Sacchi, o treinador que criou a fórmula de sucesso do AC Milan que impulsionou o seu então presidente Sílvio Berlusconi para o centro da política italiana, tenha dito: “O futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes”.

Mesmo quando os jogadores deixaram de ter “amor à camisola” e passaram a ser “activos” dos clubes e dos agentes, continuámos a viver na ilusão perfeita: que o futebol era como Peter Pan e nunca crescia. Tornou-se adulto e agora parte dele ameaça transformar-se num Frankenstein. Só que a criação da Superliga, um Clube do Bolinha para bolsos endinheirados, é um apagão de tudo aquilo que o futebol representa: competição e tradição. É o dinamitar da promessa essencial do futebol - que cada clube pode triunfar. No Barreiro fomos do GD da Cuf (actual Fabril), do Barreirense ou do Luso. E todos tivémos o sonho de vencer os Golias deste rectângulo maior que é Portugal. Não é um acaso. Tudo na muda vida muda, excepto o amor a um clube. Cada um deles simboliza parte de uma comunidade. A chamada Superliga não é isso. É
uma traição a tudo aquilo que um clube é. E este é mais do que um negócio lucrativo. O plano do JP Morgan, de empresários e magnatas que vivem no mundo virtual, não é motivado pelo amor à camisola ou mesmo ao futebol. mas simplesmnte pela ganância e o dinheiro. As receitas circularão em circuito fechado - para jogadores, agentes e proprietários de clubes.

A Superliga é a ruptura da essência do futebol, onde a união (um campeonato) criava um contrato social entre adversários e comunidades diferentes. Lembre-se que a Taça dos Campeões Europeus nasceu em meados da década de 1950 como uma ideia para coser, através do futebol, as feridas emocionais da Segunda Guerra. Foi criada para unir e não para desunir, como é o caso da Superliga. Criar exclusividade de acesso é relegar as ligas nacionais para segundo plano. É trespassar a dimensão popular, romântica e comunitária do futebol.

O modelo da Superliga, com direito de admissão reservada, supõe a abolição da cultura de mérito. A magia global deste desporto residia, até hoje, na possiblidade de uma equipa pequena ganhar a uma grande. A Superliga quer expulsar os modestos perante a força do dinheiro. É aqui que o futebol é política: que modelo de sociedade pretendem os seus promotores vender? Nada mais do que o fim das classes médias e baixas e o regresso do poder aristocrático de alguns. Aos adeptos está reservado o lugar de consumidores. Para pagar, ver e calar.

Se conseguir vencer, o modelo da Superliga será devastador para as competições nacionais, para a formação de jogadores e a malha social que o futebol constrói a todos os niveis. A Uefa e a Fifa não são inocentes neste tenebroso filme. Mas a criação deste Clube do Bolinha monstruoso é o reflexo deste novo mundo virtual, onde as finanças ou os drones mortais, só pensam nos resultados e estão imunes às emoções.

Fernando Sobral

20.04.2021 - 17:41

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