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ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...
Um rosto convidado...Luís Santos Batista
ABRIL

ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO... <br />
Um rosto convidado...Luís Santos Batista <br />
ABRIL Esta semana, quando matinalmente atravessava as ruas quase sem vivalma e onde a parca luminosidade anunciava o crepúsculo da manhã, uma manhã quase outonal como nos conta Charles Baudelaire - "Quando o cinzento céu, como pesada tampa//Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta...", dou comigo a pensar que, nestes últimos dias, um cinzento muito maior que todas as nuvens que nos sufoca o Sol nestes dias de Abril, tem atormentado os meus pensamentos.

O Mundo está doente, continua doente.
Não sei se fruto desta pandemia, mas o mundo continua a acordar doente, todos os dias!
E essa doença também nos afecta a nós neste pequeno país que, a uma velocidade de contágio muito rápida, conseguiu transportar, por todos nós a descrença, a desconfiança, o egoísmo e onde, como uma vez Gerad Reve escreveu, "vivemos o eterno erro que consiste em tomar a libertinagem por liberdade."
É um tempo onde os cravos que faltam nas ruas se transformam num vermelho censura que despreza a igualdade e a liberdade, que nos quer impedir de celebrar Abril em Abril, que ataca esculturas e figuras proeminentes da nossa história. Há uma tinta vermelha censória que, qual "Sermão da Epifania", ignora que "A causa da cor é o sol.//As nações, umas são mais brancas, outras mais pretas, porque umas estão mais vizinhas, outras mais remotas do sol”.

Sinto no coração um nihilista e irreconhecível Abril. Um Abril onde nas suas noites de cravos sobram agora lapelas, um Abril onde ainda quero acreditar que neste incómodo silêncio se continua vitoriosamente a cantar "Liberdade".
É um silêncio de silêncios, um silêncio do verbo revolucionar, um silêncio de ausências de convicções, mas ainda de cravos e onde na quase ausência do seu vermelho embebedamo-nos no perfume dos Jacarandás que começam a florir. LIVREMENTE!
A liberdade de Abril acontece na liberdade do seu florir. Acontece neste caldeirão de emoções, num tempo sem tempo, numa Lisboa ou numa outra qualquer cidade deserta de ocupações selvagens e apaixonadas, neste tempo tão frio, tão gélido e talvez tão deserto como naquela noite de 1974.
Não vislumbro ainda os Cravos, mas tenho o aroma dos Jacarandás e da sua liberdade.

Nesta estranha forma de celebrar Abril, perco-me nas palavras de Adília Lopes, in ´Poemas Novos´ e que me descreve o lilás dos Jacarandás na cidade branca semeada de pedras, negra como um beco, degradada e que se não a libertarmos se acaba.

Faço-me ao caminho e, eis que surge em mim a vontade de dar razão a Baudelaire, "Existem manhãs em que abrimos a janela e temos a impressão de que o dia está à nossa espera..."

Luís Santos Batista

22.04.2021 - 14:56

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