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Por dentro dos dias - Barreiro
O 25 de Abril é de todos os que amam a Liberdade
Por António Sousa Pereira

Por dentro dos dias - Barreiro<br />
O 25 de Abril é de todos os que amam a Liberdade<br />
Por António Sousa Pereira  E o Barreiro, a terra dos meus filhos e da minha neta, essa foi a terra onde, um dia, antes de Abril, descobri a Liberdade e onde escutei a palavra fascismo, ao vivo, sonante nos meus ouvidos, dita por um Padre, o Padre Rodrigo, no decorrer do batizado da minha sobrinha Sandra.
Ainda hoje escuto esse eco que me acordou para a Liberdade.

A convite do TESFAL – Teatro de Ensaio da SFAL, hoje, participei num evento com o objectivo de celebrar o 25 de Abril. Foi uma honra estar presente naquele encontro, no Café Bar da SFAL, com o respeito por todas as regras sanitárias e distanciamento, crianças, jovens, uns mais idosos, outros menos idosos, homens e mulheres, um verdadeiro encontro intergeracional para escutar canções e poemas. Viver Abril.
Foi uma manhã de Abril vivida com emoção. Uma jovem, no final, dizia-me: “Você emocionou-me!”

Sim, emociono-me sempre que falo do 25 de Abril, desse dia que guardo como experiência única, aqui, dentro dos meus nervos, porque sinto o meu coração pulsar como um cravo que se agita ao vento. Esse sentimento que vem de longe, dos confins das noites vividas com lágrimas, a chorar entre as canções do Zeca, do Adriano, do Fanhais, sentindo ao relento os nervos e as palavras sufocadas. Os meus amigos na prisão. Os meus amigos a morrer nas balas, lá longe em terras, ditas nossas.
Esse dia da Liberdade a florir nos olhos, esse dia que se inscreve com saudade, que toca a força do meu ser, porque sonhei, um país a renascer nos três dês – Descolonizar, Democratizar e Desenvolver. Três dês cumpridos. Só quem não tem memória quer confundir o que hoje somos, com o que eramos antes de Abril, como se Abril estivesse por cumprir. O que está por cumprir, como diz Pessoa, de há muito é Portugal.

Não confundo, como alguns acham que é bonito fazer, aquele regime tenebroso caído no dia 25 de Abril, de prisões, perseguições, sem direitos politicos, sociais, de censura, com as recentes restrições fruto dos estados de emergência. Porque não confundo a democracia, nem um Primeiro-Ministro eleito num regime democrático, com uma ditadura e um ditador. Alguns querem nos fazer crer que vivemos coisas idênticas, parecendo que querem apagar a história. Reduzindo a ditadura a uma pandemia. Coisas. Felizmente há o movimento associativo, onde a democracia está viva e me faz sentir que, na verdade, há mais democracia que aquela que emerge da democracia representativa. Felizmente!

Sim, também há aqueles que vêm dizer-nos que o 25 de Abril é de todos. Até concordo, que é de todos, sim de todos os democratas, de todos os que amam a Liberdade. E, esta manhã, na SFAL, eu comentava que o 25 de Abril não é de todos, porque nem todos defendem a democracia, nem todos defendem a Liberdade. Há até, os que usam a democracia, para castrar a democracia, para silenciar as opiniões, para comprar consciências. Esses que cultivam o pensamento único, esses que não aceitam a critica, esses que querem destruir quem ama a Liberdade. Os arautos da parecer, do culto da imagem, dos jogos palacianos. Esses que até vestem a roupagem da democracia. E cultivam o racismo, a xenofobia, atacam os direitos humanos, em nome de pensamentos puros, da razão ou da fé. Esses não defendem o 25 de Abril. Esse amor à Liberdade, nascido naquela «madrugada que eu esperava. O dia inicial inteiro e limpo”, como escreveu a poetisa Sofia.
É por isso, só por isso que o 25 de Abril é de todos e não é de todos. É de todos os que amam a Liberdade. E nem todos amam a Liberdade. Há aqueles que só amam o poder, e, pelo poder, não olha a meios para atingir os fins. Aprendi isso com a vida.

Mas, voltando ao Café Bar da SFAL, de facto, foi bonito escutar poemas por jovens, de forma livre espontânea, foi bonito vê-los a contar estórias, a pensar sobre os dias de antes de Abril. É que esses dias existiram.
Recordei o Ti’Felismino, um sócio da SFAL, com quem conversava ali no café, homem puro e simples, que nunca puxou de galões. E foi o fundador da primeira célula da Juventude Comunista, no Barreiro.
Recordei o Ti’Flávio Alves, sócio da SFAL, homem humilde e culto, com quem conversei e que fiquei com os nervos à flor da pele, naquele dia que regressaram ao Barreiro as bandeiras que estiveram hasteadas nas chaminés da fábricas, e, uma delas, como prova da PIDE, estava assinada pelo Ti’Flávio Alves.
Recordei o Ti’ Jerónimo Alves e o Ti’ Mário Saraiva, que em sequência da realização de um Colóquio com Urbano Tavares Rodrigues foram obrigados a prestar declarações, nas instalações da PIDE, na António Maria Cardoso, em Lisboa.
Recordei os livros que estão numa estante do Café Bar, uma reliquia, de obras que estavam escondidas, num recanto da Biblioteca, porque era obras proibidas antes do 25 de Abril.

E disse, que mais que celebrar o 25 de Abril, a recordar o passado, que não podemos ignorar, o importante é celebrarmos o 25 de Abril a pensar futuro, a fazer futuro..
Isso é uma missão de todos nós. A principal é estarmos na primeira fila da luta pela Liberdade, pela Democracia.
Essas são as grandes heranças do 25 de Abril.
Há aqueles que comemoram o 25 de Abril, com o sangue a pulsar como um cravo no coração. Há outros que não gostam de festejar o 25 de Abril.
Um coisa é certa o 25 de Abril é um dia único inscrito na história de Portugal, esse dia ligado aos três dês – Descolonizar, Democratizar, Desenvolver.
E o Barreiro, a terra dos meus filhos e da minha neta, essa foi a terra onde, um dia, antes de Abril, descobri a Liberdade e onde escutei a palavra fascismo, ao vivo, sonante nos meus ouvidos, dita por um Padre, o Padre Rodrigo, no decorrer do batizado da minha sobrinha Sandra.
Ainda hoje escuto esse eco que me acordou para a Liberdade. Porque afinal, se Deus existe, ele existe, só pode existir no nosso coração, se for expressão dessa força que é Amor, Amor é indissociável da Liberdade.
É isto o dia 25 de Abril, o dia que Amor beijou a Liberdade nas ruas do meu país e se fez história – homem, mulher, criança, velho, multidão – um povo!
Obrigado SFAL, por me fazeres sentir Abril!

António Sousa Pereira

Foto - Amélia Militão

25.04.2021 - 20:30

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