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A(nota)mentos – Obrigado Otelo!
Ele encheu o Campo do Luso no Barreiro e o Pavilhão do Fabril

A(nota)mentos – Obrigado Otelo!<br>
Ele encheu o Campo do Luso no Barreiro e o Pavilhão do Fabril<br>
Aquele foi um dia único que ficará inscrito na história do meu país, um dia inesquecível, um dia em que sentimos a Liberdade dentro dos nervos a pulsar no coração. Limpida. Nobre. Pura.
E, esse dia é, sem dúvida é indissociável de um nome – Otelo Saraiva de Carvalho.

Esse dia, que sentimos no cântico de «Grândola, Vila Morena». Esse dia que floriu num cravo que se tornou referência no mundo.
Um dia, nos anos 80, estava na Praça S. Marcos, em Veneza, Itália. Vários grupos de pessoas juntavam-se e entoavam cânticos dos seus países. Num desses grupos falei. Alguém, de imediato, apontou para mim e disse: «Grândola». E, ali, em coro, num cântico de linguagem polifónica, cantou- se «Grândola, Vila Morena».
O meu país livre de silêncio. O meu país que senti pulsar no coração, com orgulho, esse orgulho que nos faz sentir a nossa identidade.
Esse dia de Abril, esse Dia de Primavera, escrito com coragem de muitos, que se uniram numa vontade de derrubar o silêncio. A prisão. A censura. A guerra colonial. A miséria que emigrava em busca de melhores dias. Um pensamento único, triste e castrador.

O Dia 25 de Abril foi um dia dificil, de muito suor e angústia. E, ali, na linha da frente, a comandar, esteve sereno e nobre Otelo Saraiva de Carvalho.
Por esse facto, por essa memória, por essa verdade, Otelo tem o seu nome inscrito nas páginas da história do meu país. Vertical. Sem ambições. Puro.

Ele que sonhou com um país melhor, com um mundo melhor. Acreditou.
Talvez por isso, decidiu aceitar o convite de se candidatar à Presidência da República e, hoje, e aqui, quero recordar-vos que ele, na sua primeira candidatura, foi o escolhido na margem sul, em todos os concelhos da Península de Setúbal, derrotou Ramalho Eanes.

Ele encheu o antigo Campo do Luso Futebol Clube, o campo, as ruas envolventes, uma multidão em festa, cantando em eco pelas ruas do Barreiro: «Grândola, Vila Morena». Era um cântico por Abril. Era um cântico de esperança. Era um cântico de sonho. Eu votei Otelo.

Sim, nas eleições presidenciais seguintes, esse mesmo Barreiro, que tinha eleito Otelo, não lhe deu o voto, e, então, votou Ramalho Eanes, que, se não estou em erro, deve ter sido, até aos dias de hoje, quem em eleições presidenciais, maior votação recebeu no concelho do Barreiro, na ordem dos 80 % dos votos.

Ele encheu o Pavilhão do Grupo Desportivo Fabril do Barreiro, num jantar integrado nas comemorações dos 30 anos do 25 de Abril, em 2004, na gestão PS, liderada por Emidio Xavier. Que noite de festa!

Otelo Saraiva de Carvalho, não será apagado da memória, como diz um amigo meu a história é feita de factos, e, sem dúvida perante essa realidade, os factos que não são alteráveis. A sua página da história está escrita com nobreza. É, por esse dia que quero recordá-lo e prestar-lhe uma justa homenagem. Obrigado.
O 25 de Abril é indissociável de Otelo Saraiva de Carvalho. Um homem polémico. Um homem não consensual. Mas, isso, ninguém lhe pode retirar esse facto de ter sido o estratega das operações que conduziram à queda de um regime, que marcou o recomeço de um novo tempo da história deste canto à beira mar plantado.
Portugal, por muitos séculos ainda, na sua história será marcada pelo antes e de pois do 25 de Abril. O antes da fundação, passando pela epopeia da abertura às portas da modernidade da humanidade. O mar e a língua. E de novo, após o 25 de Abril, recomeçar neste cantinho da Europa, com os olhos no mundo.

Hoje, neste dia que foi a enterrar o estratega que conduziu à vitória a revolta militar que conduziu à derrota do regime caduco, senil e castrador, aqui deixo o meu fraterno abraço a Otelo Saraiva de Carvalho, a esse homem sonhador que nos restituiu a vida politica pensada, no Programa do MFA, em três palavras, que, mal ou bem, estão cumpridas: Descolonização, Democracia e Desenvolvimento.

Tudo o resto faz parte da tribalização, do sistema que foi sendo contruído – este que somos, este o estado a que chegámos.
Obrigado Otelo!

António Sousa Pereira

28.07.2021 - 20:12

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