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Por dentro dos dias - Barreiro
Eh pá, força na verga!

Por dentro dos dias - Barreiro<br>
Eh pá, força na verga! Os dias, nos dias de hoje, são cada vez mais imprevisíveis. Tudo se transforma num instante. Troikas. Pandemias. Acasos. E de repente sentimos tudo desabar.
Tempos complicados. Tempos que doem. Tempos que nos proporcionam momentos de reflexão. Angústia. Resiliência. Amor à vida. Desejo de viver. Abraçar o sol. Beijar o luar.

“Acabei de estar com ele, hoje deu mais um pequenino passo, ainda em coma, mas já está com menos medicação”, comenta a minha amiga, falando do seu amor, que há mais de dez dias trava uma luta, um combate de gladiador, contra esse destruidor dos dias de hoje, que, recorde-se, alguns por aí teimam em negar.

Ele é um jovem, quarentão, na força da vida. Ele e o Serviço Nacional de Saúde, estão a travar um combate pela vida. Uma luta que começou no Hospital do Barreiro, passou para o Hospital Garcia de Orta, em Almada. Dias de silêncio. Dias de isolamento. Dias marcados pelo desespero e a esperança. Um desejo enorme de nunca desistir e sempre acreditar.

Eu dizia-lhe, numa mensagem: “Eh pá, levanta-te. Força na verga, pá!”.
Os dias foram passando. Ora incertos. Ora com luz a iluminar. Muita calma, nestes dias é preciso muito calma. Coragem. Isto vai, isto vai…

Só quando sentimos esse combate, ao nosso lado, percebemos, como vivemos tempos imprevisíveis, tempos em que todos os calculismos, previsões, projeções, caem por terra e, de um momento para o outro, desabam em lágrimas.
Um destes dias, que são enormes, intemporais, a minha amiga dizia-me - “ ele hoje abanava a cabeça para responder sim ou não, sorriu e também deixou cair umas lágrimas. Fez um coração com as mãos”.

Senti, fortemente, como este é um tempo de luta e combate. Um tempo em que todos os segundos contam e abrem a porta à esperança. Uma lágrima que é um cristal a iluminar o futuro.
Ele deixou cair uma lágrima. Uma lágrima que foi um sorriso. Uma lágrima que foi um beijo. Uma lágrima que foi um raio de sol matinal.

É nestes instantes que sentimos uma lágrima transformar-se num enorme sorriso, vemos nelas a vida a renascer lentamente. Uma luta contra o tempo.
Acreditamos, está quase, isto vai, e, por dentro do meu pensamento continuo a escutar, em eco, o poema de Ary: isto vai amigos, isto vai…

“O meu menino já foi transferido para o Barreiro. Está cada vez mais perto”, comentava ontem a minha amiga.
É isso, está mais perto, porque estar mais perto é sentir bater o coração dentro do peito, que se prende num abraço. Estar mais perto é como sentir o olhar a tocar o coração. Os lábios a beijar os olhos. É sentir os nervos a pulsar na ternura dos neurónios.
Estar mais perto, é estar dentro do pensamento, é abrir a janela e mandar energia voando nas asas de uma gaivota.
Uma gaivota que rasga o sol matinal, e, com os dedos a abrir um coração, ao ouvido dizer-lhe, silenciosamente: Eh pá, força na verga!
Isto vai amigos, isto vai…

António Sousa Pereira

04.09.2021 - 09:18

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