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Inferências – Barreiro
Da derrota das ideologias à vitória do marketing
Por António Sousa Pereira

Inferências – Barreiro<br>
Da derrota das ideologias à vitória do marketing<br>
Por António Sousa Pereira Estas eleições foram marcadas, como nunca outras antes, pela força do marketing politico, por estratégias de comunicação de gestão de emoções.
Bruno Vitorino e Carlos Humberto foram derrotados pela politica feita de «markentigologia» e pela onda de António Costa.

Ontem realizaram-se as eleições autárquicas, e, os barreirenses, tal como os portugueses votaram, é isto a democracia representativa, a escolha, a opção por um determinado modelo. Está escolhido.

Cada eleição é uma eleição mas, cada vez mais, as eleições autárquicas são marcadas pelo confronto politico nacional, havendo quem diga que estas podem ser, ou não, um cartão amarelo, ou cartão vermelho aos governos.
Não perdendo muito tempo sobre as leituras que estas eleições deixam em aberto ao nível nacional, apenas coloco duas reflexões que senti ao olhar para os resultados, por um lado a sensação do emergir de uma «onda laranja», vinda do norte, que faz adivinhar o fim do estado de graça do governo, e, abrindo caminho para as guerrilhas que se seguem anunciando, desde já, as próximas eleições legislativas, no tradicional confronto entre os partidos ditos do arco da governação, e, igualmente, sendo já visíveis os sinais emergentes de novas forças politicas que, ou vão continuar a crescer, ou serão engolidas pelo sistema. São as interrogações em aberto. Mas que isto começa a tremer e alertar, lá isso começa…

No que diz respeito ao Distrito de Setúbal, senti que os partidos do «arco de governação» na região, continuam a confrontar-se, registando-se o PS a galgar terreno, e, o PCP/PEV a resistir, apesar de todas as guerrilhas de politicas e politiquices que visam fazer do PCP/PEV o bode expiatório de todos os males e dificuldades da região. Desde os 40 anos de marasmo, ao marasmo de 40 anos. Uma cassete repetida do PS ao Chega e, obviamente, atingindo os seus objectivos de esvaziamento do PCP. Enfim, esperemos, esperemos…os resultados nas próximas legislativas e autárquicas. O ciclo pendular pode estar encerrado, mas outro ciclo vai começar…

Mas, a minha reflexão é mais direcionada para uma abordagem dos resultados do Barreiro.
Na verdade, tal como em 2017, a vitória do PS foi uma surpresa, cujo resultado beneficiou da onda nacional de António Costa, e, localmente foi fruto de uma campanha estudada ao milímetro, que usou as redes sociais com astúcia, e, até, as mais diversas técnicas de comunicação e visões, como exemplo a roda gigante, que vai ficar para a história, e para a nossa memória colectiva, como o maior bluff autárquico de todos os tempos. O facto é que tudo isso resultou, deu uma dimensão politica ao dito potencial, que era um projecto, e, depois, passou a visão, e, por fim, foi para a gaveta.

Agora de novo, nestas eleições de 2021, após quatro anos de uma gestão autárquica que viveu de forma intensa e permanente em clima eleitoral, procurando sempre desgastar, desconstruir, o seu principal adversário em lume brando, atingiu resultados, que vão para além do efeito maioria absolutíssima, porque ninguém queria de volta os causadores de todas as desgraças.
O PCP -PEV que não soube, atempadamente, rasgar caminho e preparar o confronto eleitoral, que optou por fait divers políticos, alimentando a teoria dos bons e dos maus.
O cenário de vitória do PS esteve sempre em cima da mesa, até mesmo a ideia de maioria absoluta, foi referenciada, embora, também existisse a hipótese de uma recuperação do PCP/PEV, nem que fosse por mera hipótese académica, uma probabilidade, ou, o peso politico da personalidade de Carlos Humberto.

Mas, certamente, poucos perspetivavam, uma maioria absoluta do PS arrasadora, que colocou o PCP/CDU, numa situação que era inimaginável, embora, os «estudiosos da mudança», que vivem a vida de «coração cheio», achassem, que isto era mais que certo e inevitável. Claro que era, qualquer coisa é verdade, depois de descoberta. E, agora pode verificar-se que houve franjas do eleitorado do BE e do PSD, que optaram por dar o aval ao PS. Uma carta de alforria para ter plena liberdade e fazer o que quiser e lhe apetecer.

A legitimidade política está no voto, mas legitimidade politica, deve significar legitimidade de ideias de um projecto de cidade. Esta é a diferença entre autoridade moral e autoridade politica.
Há quem diga que este resultado eleitoral legitimou a venda da Quinta da Braamcamp, talvez tenha, igualmente, legitimado o apoio ao aeroporto na BA6, no Montijo, e, porque não também, legitima o dar prioridade ao investimento no imobiliário como linha de pensamento prioridade no fazer cidade, tal como está no PDM caduco.

Os leitores votaram e decidiram, não queremos mais conversa, ponto final na discussão de ideias, que isso é coisa que não faz sentido, o importante não é perder tempo a pensar, o importante é fazer – façam tudo o que entenderem.
E pronto, vamos ter a cidade dos arquivos, a cidade com boas condições para sair e entrar, a cidade sem oposição, a cidade que pelo já se escuta, nas redes sociais, quem tiver a ousadia de criticar, não passa de um aziado, como se aqueles que são minoria, a partir de agora não tenham a legitimidade de representar os que neles votaram. É assim uma espécie de democracia absoluta.
E, como se costuma dizer : “está melhor có que estava”, não se perde tempo a pensar, porque agora, caros eleitores, é só fazer.

Nestas eleições autárquicas foram derrotados dois dinossauros da vida politica local – Carlos Humberto e Bruno Vitorino. Dois grandes senhores da politica local, que muito deram ao Barreiro, e certamente vão continuar a dar, que, pela sua acção, contribuíram com ideias e projectos para muitas mudanças no pensar e fazer cidade.
Dois homens que espelham, também, duas dimensões ideológicas no fazer politica e no pensar o território. Posições opostas, mas que muitas vezes se encontraram, ou divergiram – caso da valorização da Mata da Machada, na aproximação, ou, caso da forma de pensar a intervenção no Barreiro Antigo, na divergência.

O PSD é um partido que, podemos discordar, mas tem a sua opção, e a sua visão sobre a cidade, algumas ideias que deviam ser equacionadas, uma delas a Agência de Desenvolvimento, até, em parceria com a Baía do Tejo. A não eleição de Bruno Vitorino é uma perda para a politica local, porque, sempre foi um valor acrescentado e uma mais valia no debate de ideias.
O PSD introduzia ideologia no fazer politica, no pensar politica.

A CDU nos mandatos liderados por Carlos Humberto abriu caminhos para repensar o planeamento do território, rasgou caminhos para a construção de uma cidade sustentável, introduziu um pensamento politico, ideológico, de dimensão ambientalista, de ligação da cidade aos rios, de abertura do centro urbano ao tecido empresarial da antiga CUF, de um olhar sobre os territórios ferroviários, de renovação integral da frota dos autocarros, de requalificação das AUGIs, e, deixou um legado único – a Quinta Braamcamp, a tal, do grande potencial, destinado agora, sem dúvidas, a render 30 milhões de IMI, em dez anos.


Carlos Humberto introduziu na política local uma dimensão de pensar a democracia, para além da dimensão representativa, motivando o debate de ideias e a participação da cidadania activa.
Admirei a sua disponibilidade de querer de novo colocar-se ao serviço politico da sua cidade. Acreditando em valores e debate de ideias. Um homem com ideologia.
Admiro políticos com ideologia. Posso discordar deles, ou concordar, mas são homens que fazem politica com valores – Bruno Vitorino e Carlos Humberto, são dois exemplos.
Tenho para com eles um grande respeito, pela forma digna, pelo diálogo e confronto de ideias. Dois senhores de grande nobreza politica e intelectual.

Considero que o Barreiro tem, para ambos, uma divida de gratidão, pela entrega, pela dedicação, pelo fazer politica com ideias, valores e ideologia.
Nestas autárquicas apresentaram-se com as suas ideologias, numas eleições marcadas essencialmente, por ausência de discussão de um projecto de cidade.
Estas eleições foram marcadas, como nunca outras antes, pela força do marketing politico, por estratégias de comunicação de gestão de emoções.

Bruno Vitorino e Carlos Humberto foram derrotados pela politica feita de «markentigologia» e pela onda de António Costa.
Aqui fica um abraço e um reconhecimento de gratidão a Bruno Vitorino, porque não conseguiu superar a onda populista do marketing politico.
Outro abraço a Carlos Humberto, que sendo eleito, foi estrondosamente derrotado nos seus objectivos de, pelo menos conseguir ter força politica para discutir e motivar o debate sobre o futuro do Barreiro.

A novidade destas eleições, foi a entrada do Partido Chega na onda autárquica e, até, superar o Bloco de Esquerda.
Um abraço para o Carlos Humberto. Um abraço para Bruno Vitorino. Homens de ideias, valores e ideologias.
Afinal, é caso para dizer que, estas eleições autárquicas, no Barreiro, foram marcadas pela derrota das ideologias e pela vitória do marketing politico.

António Sousa Pereira

27.09.2021 - 17:08

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