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Por dentro dos dias – Barreiro
O tempo tudo esclarece…basta esperar, serenamente

Por dentro dos dias – Barreiro<br />
O tempo tudo esclarece…basta esperar, serenamente O dia está a deitar-se, as nuvens ao longe reluzem com a cor do sol, entre o laranja e o rosa, anunciam a noite a escurecer.
Hoje, dia 1 de Outubro, celebrou-se o Dia do Idoso, é um dia de grande significado num país que está a envelhecer, numa cidade que continua a envelhecer, que, dificilmente nos próximos anos vai deixar de continuar a envelhecer

É isso que acontece quando uma cidade, lentamente se vai transformando em dormitório. É, certamente esse o seu destino. Cada terra é aquilo que escolhe.
Escrevo estas palavras, ao fim do dia, enquanto escuto a suave melodia do piano, deslizando nos meus neurónios, e, nessa mansidão de ternura, parece que escuto não uma mensagem “Para Elisa”, mas um cântico “Para o Barreiro”.

Ao meu pensamento ocorre-me as vezes, quantas vezes, tentei contestar essa imagem que o Barreiro era um dormitório de Lisboa, porque sempre senti que sendo isso, não era isso, porque tinha uma vida própria que pulsava nas ruas, a fábrica, o comércio, famílias e vida muita vida, crianças à solta, que obrigavam as escolas a funcionar, quase todas em regime duplo.

Esta era a terra que nos anos 90, para quem gosta de demonstrar as evoluções e atrasos com estatísticas, aqui, ao nível nacional situava-se em patamares com valores, entre as cidades com o maior número de licenciados. Os filhos das gentes das fábricas que os pais tudo faziam para lhes dar um futuro melhor, sim, e, eram esses filhos que nos anos 90 enchiam as ruas da cidade a protestar contra a PGA, ou saíam à rua a gritar contra a ETRI, porque não queriam que o Barreiro fosse o caixote do lixo de Lisboa. Agora vai ser, pomposamente, a cidade dos arquivos.

Estou aqui ao fim da tarde do dia 1 de Outubro, o Dia do Idoso, e dou comigo a pensar que já sou idoso, por essa razão, já vi muitos filmes, já li e escrevi muitas mensagens nas entrelinhas (principalmente, antes do 25 de Abril), já recebi muitos recados, já sei o que é ser humilhado, já sei o que é erguer a cabeça e seguir em frente perante a humilhação dos pregadores da serenidade.

Hoje, pela manhã, quando dava o meu passeio, junto na minha Catedral do Tejo, alguém passou por mim e disse: “Bom Dia. Olhe gostei do seu artigo, retrata bem o que foram as eleições autárquicas”.
E, ficámos, um pouco, por ali a conversar. É isso, há quem concorde, há quem discorde, é isto a democracia, que nos dá o direito de ter opinião.
E, não foi por essa razão, nem nunca será por ter pessoas que concordam, ou discordam da minha opinião, que considero que tenho a razão, ou que sou o dono da verdade. A minha opinião é a minha opinião. Há quem não goste que se dê opinião, também sei o que é isso, antes e depois do 25 de Abril. Mas, fica claro, para quem quiser entender não deixarei de dar a minha opinião. É vida. E sei, sempre soube, que isso tem um preço que é lindo – a Liberdade, que, por acaso, até rima com humildade!

Estou aqui, ao fim da tarde, a escutar as notas do piano, esta delícia de Beethoven, e, nos sons viajo por dentro dos meus pensamentos.
Dou comigo a ler, e reler, a frase que escrevi pela manhã, esse hábito que me dá um imenso prazer ao acordar, pensar na vida, nos movimentos dos dias, nas palavras que fazem os dias. Humildade. Idoso. Serenidade. Ternura.
Escuto as notas do piano. Penso e vou sorrindo. Interrogo-me.

«A velhice é o tempo que se sente, nos ecos das palavras, o cansaço dos pretextos e contextos, que fazem amar o silêncio», foi a minha frase, de hoje, do nascer do sol, com o comboio a rasgar a linha rumo ao sul.
A velhice é esse tempo que nos enriquece que nos permite, distinguir o que é diálogo, o que é confronto de ideias, o que é dizer sim, o que é dizer não, o que é ser livre, o que é pensar e ter o direito de dizer o que se pensa, é isso que velhice nos ensina, acima de tudo, ensina a ter a convicção que democracia é o direito de ter opinião e expressar opinião e, até, a sentir o silêncio a pulsar no coração, como quem sente o sangue a dar voz ao coração, assim, como estas teclas de piano a deslizar…num beijo para o Tejo.

De tarde fui à Universal, lá estive com a Lili, a Lidia e com a Marina, as meninas lindas e simpáticas, de uma loja que resiste em pleno Bairro Operário´. Fui lá comprar os meus blocos, muito especiais, onde escrevo as palavras do quotidiano. Estórias e memórias.
Depois, fui visitar o meu amigo Kira, no seu atelier, junto à Torre do Relógio, no Bairro Operário, onde o Cronos, Deus do Tempo, marca o compasso da vida.
Afinal, o tempo tem dentro de si essa espiritualidade que nos move do nascer ao morrer – a eternidade. Ele, tudo esclarece…basta esperar, serenamente!
Até amanhã. Divirtam-se.

António Sousa Pereira

01.10.2021 - 23:15

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