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Ao domingopasseando junto ao Tejo - Barreiro
Sem pressa, agora s quero viver sem pressa

Ao domingopasseando junto ao Tejo -  Barreiro<br />
Sem pressa, agora s quero viver sem pressa<br />
Gosto de escrever ao fim da tarde, quando sinto a noite chegar, encosto-me ao meu prprio ombro, deito-me sobre as palavras, vagueio por dentro dos sons, sentindo serenamente a melodia das letras a inscreverem no meu crebro emoes e pensamentos. Mergulho por dentro do dia vivido. Penso, afinal, as palavras s fazem sentido quando do sentido aos dias, quando nos fazem sentir os dias.

Um dos meus hbitos matinais escrever um pensamento, palavras que nascem do tempo que vivo, de realidades, de atitudes, de temporalidades, pensamento que diariamente partilho na minha pgina do facebook.
Hoje, pela manh, escrevi : Crescer com dignidade sentir a euforia da Liberdade, abraar a coragem da memria, beijar a vida nos olhos. Ser poema.
como quem faz um exerccio matinal. Um pensamento que no pode exceder um nmero limite de palavras. Divirto-me. So uma espcie de aforismos.
Crescer com dignidade, isso que o comeo de um novo ano faz nascer na minha conscincia, porque penso que a beleza do tempo que vivemos reside no sentir que, em cada tempo, que um novo tempo, ns s crescemos verdadeiramente quando nos superamos, quando vamos para alm daquilo que somos, acrescentando ao que somos mais ser, nunca negando, nem temendo, todo o tempo que faz parte da nossa vida, todo o tempo que fomos, sendo. Isso que lindo!

Crescer com dignidade sentir a euforia da Liberdade, porque ns s somos, sendo seres livres, e, na verdade, s com liberdade individual e liberdade de comunidade, recriamos, criamos, erguemos o novo que nasce no velho. Dialecticamente.
Ser livre sermos ns mesmos, com essa coragem de abraar a memria e beijar a vida nos olhos. Tudo na nossa plenitude. isso que faz que a nossa vida seja um poema. A conscincia que todos os gestos se inscrevem no nosso crescimento. Ir mais alm. Voar.

Hoje, pela manh, cruzei-me com o Lus Filipe, artista plstico, neste comeo de ano, como habitual trocmos as palavras informais e os votos tradicionais de Feliz Ano Novo.
Como vais?, perguntou.
Respondi Sem pressa, agora s quero viver sem pressa.
Ele sorriu, Concordou e comentou isso, viver sem pressa.
E, pouco depois, l estava eu, a beber o meu caf, enquanto olhava o Tejo, numa manh de neblina que escondia as colinas de Lisboa e apenas, um barco vela, de brancas velas, rasgava o silncio, escrito no branco da paisagem.

Levantei-me. Fui dar o meu passeio junto s margens do rio, cumprimentei uma gaivota que rasgava o cu, em silncio.
Andei por ali, sem pressa, sem pressa nenhuma, sentindo o silncio, o cheiro da maresia, olhando o cho coberto de um manto de restos de moedas inventadas e de coraes vermelhos, as marcas da despedida do ano velho e os desejos lanados ao vento a anunciar o ano novo.

Encontrei o Bia. Falmos do Barreiro. Dos tempos da vila operria, terra de muitas gentes vindas de muitos lados, o que fomos e o que somos. At aos dias de hoje, num tempo que perdemos a coragem de abraar memria e, dentro dela, a identidade que viveu resistindo, at ao dia que nasceu com dignidade a euforia que nos fez sentir o sabor da palavra da Liberdade.
Sim, hoje um tempo que se faz e desfaz em nmeros e sucessos. Despedimo-nos. Bom Ano.

Continuei, junto margem do Tejo, deitando os meus olhos na ternura das ondas suaves.
Fui caminhado, por ali, junto ao Tejo, por onde irei sempre caminhar, sem pressa, porque, agora, cada vez mais, afinal, s quero viver sem pressa, sem pressa, apenas escrevendo poemas, nos olhos, porque, sei que viver-viver apenas saber ser poema.

Antnio Sousa Pereira
2 de Janeiro de 2022

02.01.2022 - 19:52

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