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Por dentro dos dias - Barreiro
Cila, até sempre!

Por dentro dos dias - Barreiro<br>
Cila, até sempre!<br>
Quero escrever uma nota para te dizer Adeus, e penso que dizer adeus, é triste. Rebusco palavras no vazio das sílabas. Digo - Até sempre! Porque dizer até sempre, é acreditar que, o tempo que nós somos, esse tempo frágil, afinal faz-se sempre eternidade.


Nós somos o tempo que se expande no universo, até ao infinito. A vida é isto uma viagem no tempo.
O belo são as cores que ficam a pulsar nos nervos. Os sorrisos. Os gritos. As alegrias. Os momentos partilhados. O arroz doce. O café. Os olhares que se cruzavam em interrogações. O «Muchu», como eu lhe chamo, o teu gato lindo, branco da cor do algodão, a saltar para a minha varanda, a correr pela cozinha, em busca das delícias do sol. O mesmo que sol que tu gostavas de fruir, em tardes de ternura em busca de ti mesma, silenciosamente.

A vida dá voltas e que voltas a vida dá, conheci-te no começo dos anos 70, em convívios e conversas, ali, numa garagem no Bairro dos Actores. Um grupo que se juntava para ouvir música e conversar. Eu um estranho. Tu filha da terra e com raízes em familias. Eu era um “emplastro”, acabado de chegar que, fruto de encontros e conversas na SFAL, aquelas tertúlias à noite no portão, fui-me integrando na vila.
Depois, fomos cruzando a vida, aqui ou acolá, na tua loja, ou na Quimigal. E, um dia, por mero acaso, desde os anos 90, acabámos vizinhos, a viver lado a lado, tu no esquerdo, eu no direito, e, assim, ao longo do tempo partilhamos dias de cumplicidades, uma relação de vizinhança sóbria, de proximidade, no respeito mútuo e forjada na simplicidade dos dias.
Há vizinhos e vizinhos. Tu eras uma vizinha especial. Aquela com quem eu brincava e provocava. Intencionalmente, só para te ver reagir. Irritavas-te e, naturalmente, eu provocava. Por fim já não ligavas, e, eras tu que picavas. Tu sabias que era tudo mera brincadeira. Uma vizinha de portas abertas. Uma amizade sem querer nada em troca, se não aquela energia que dizia, quando era preciso: Estou aqui.

Tu fazias parte do Terrace House Loios. Tu e a Lurdes, eram duas irmãs – próximas e distantes.
E, hoje, que tu partiste, tenho a certeza que ela, tua companheira de tantos instantes e confidências, naquela carapaça de fortaleza, está muda e silenciosa, mas, por dentro, deve estar a sangrar lágrimas, feitas de sal e amargura.

Queria escrever uma nota para ti, para te dizer, como senti o teu combate, como registei a forma como guardavas para ti as angústias. E, hoje, chegou ao fim esse teu combate. Senti a tua partida. Senti no silêncio. Senti numa gota que molhou os meus pensamentos.
Uma cidade é feita de relações de vizinhança, mais próximas ou mais distantes, uma cidade é feita de afectos, de gente que se cruza, que se beija, que se abraça. Sabes, é essa cidade que eu gosto de viver, essa cidade de gente que gosta de conversar, de se encontrar no café e partilhar o tempo, cruzando olhares e palavras. Tu tinhas a tua Tertúlia, ali, no “Nova Geração”. Quantas vezes entrei a provocar, contigo, com Ana Sancho e com todas, com gestos para viver momentos, a rir e brincar.
Partiste. Um destes dias, ali, vamos beber um copo por ti, para te saudar e sentir no tempo que passa, que estás ali, que és o tempo, neste tempo que todos nós somos, que vamos sendo, até um dia, imprevisível que marcará o nosso caminho até ao infinito onde, certamente, nos vamos encontrar…sorrindo!
Até sempre vizinha! Bejocas.

António Sousa Pereira

06.07.2022 - 22:00

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