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Por dentro dias - Barreiro
Um beijo para ti, Lara !

Por dentro dias - Barreiro<br />
Um beijo para ti, Lara ! Os dias nunca são iguais, mesmo que percorramos os mesmos lugares, mesmo que encontremos as mesmas pessoas, mesmo que os ruídos distantes de um comboio que circula diariamente, em horários repetidos, ecoem na distância como marca do tempo. Tudo se transforma. Tudo é diferente.

A vida move-se quando sentimos o tempo mover-se nos olhos e no pensamento. O tempo nunca é igual. O tempo é uma infinita caminhada de diferenças, de novidades, essa, afinal, é a grande beleza da vida. Descobrir e redescobrir em cada instante, o tempo a fazer-se no tempo e a perder-se no tempo.

Sorrimos, sempre que as rotinas, pelo inesperado, transformam os acontecimentos em novidades.
Sorrimos sempre que os acasos dão colorido ao dia, dão vida ao instante que se inscreve na memória, essa centelha, única, em que o presente se faz futuro.

Hoje, pela manhã, o acaso trouxe até mim no sorriso colorido do sol, um encontro casual com uma vizinha que se cruzou comigo na rua. Fez-se memória e sorrisos.
“Conhece a Lara? A Lara que trabalhava na Câmara”, perguntou-me.
“Sim, recordo. Ela teve um acidente, caiu na escada e ficou muito mal”, respondi.
“Eu vou lá a casa dela prestar-lhe apoio domiciliário. Um destes dias disse-lhe que morava no Lavradio. E ela comentou que conhecia uma pessoa no Lavradio, de quem era amiga – o Sousa Pereira. Pediu-me para lhe dar um beijo. Diz que gosta muito de si”, referiu a minha vizinha.

A Lara era uma jovem que trabalhava na Câmara Municipal do Barreiro, na área cultural, a quem passei o testemunho de Coordenação do Sector do Movimento Associativo, quando me foi atribuída a missão de escrever as Monografias do Movimento Associativo.

A Lara era muito activa, dinâmica, vivia as actividades recreativas e culturais com muita intensidade e uma grande garra. Estava sempre na linha da frente. O sangue da sua juventude pulsava no coração. Enchia os lugares com a sua presença.
Um dia sofreu um acidente. Caiu na escada. Esteve muito mal. Uma jovem mãe que ficou paralisada, e, viveu momentos difíceis, em coma, entre a vida e a morte.
“Ela já fala, já está melhor, já conversa, já tem consciência de tudo”, comentou a minha vizinha.
“Dê-lhe lá um beijo meu, diga-lhe que também gosto muito dela”, disse.
Fiquei feliz por saber que a Lara está a recuperar, lentamente e a querer, com todo o seu querer, agarrar o tempo.

A Lara era um jovem linda, com os olhos que rasgam os nervos. Quando chegava sentia-se a sua presença, no falar, no estar, no seu rosto erguido ao sol. Confiante. Esbelta.
É, certamente essa energia, esse seu querer, que move a sua vontade, toca o seu coração e grita aos nervos: Desistir nunca!

Lara, a mulher vermelha, no sangue e na consciência, forjada na luta pelo futuro, que sonha…que não desistiu de sonhar
“Ela vai sempre votar. Liga para o 112 e vai sempre votar”, salientou a minha vizinha.
A Lara é um exemplo de vida, de luta, de resiliência, de vontade que nasce no ser e no desejo de abraçar a vida, de amar a vida.

A Lara é um exemplo, real, para pensarmos como, de um momento para o outro, de forma inesperada, e brusca tudo se desfaz na frente dos nossos passos.

É assim, perante confrontos e desafios do tempo, de repente caímos e o futuro já não é aquilo que sonhamos.
Os acasos. As incertezas. O tempo que quebra as rotinas, as rotinas que mudam o sentido do tempo que somos. Uma juventude paralisada no silêncio da noite.
“Dê um grande beijo à Lara, e diga-lhe que eu também gosto dela”, disse para a minha vizinha.
“Ela por estes dias está no Hospital do Outão. Mas hei-de dar o seu beijo”, respondeu a minha vizinha.

É assim o quotidiano, nas ruas da cidade, o acaso, faz-nos recuar no tempo e pensar o tempo, por dentro do tempo, por dentro dos dias.
Um beijo para ti, Lara!

António Sousa Pereira

20.07.2022 - 19:35

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