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Por dentro dos Dias
Ao fundo o laranjal continuará verde

Por dentro dos Dias<br>
Ao fundo o laranjal continuará verde Recordo-te hoje, ao fim do teu dia, a data que está inscrita nesta memória que faz parte das memórias que enchem os meus nervos de cor, musicalidade e essa saudade que se escreve amor ao futuro.

Todos nós, no tempo que vivemos, conhecemos pessoas que se inscrevem nas nossas memórias. São, afinal, essas memórias que enchem os nervos de cor e musicalidade.
A vida mais bela, a vida bela que toca os nervos, que fica erguida no tempo, para além, muito para além dos escombros, é sempre feita das alegrias e lágrimas que aquecem o coração.
A beleza da vida é descobrirmos, diariamente, para lá dos recantos das rotinas, a frescura de um olhar, um poema que se escreve nos olhos, ou num sorriso, sussurrando palavras que acordam o futuro, como se o futuro existisse vivo, em todas as memórias por nascer.

Uma amiga que nunca esqueço que me ensinou a amar a Liberdade, que me ajudou a descobrir a palavra Paz, que escuto sempre o seu sorriso no voo de uma gaivota, ali, quando me sento a pensar na Catedral do Tejo, no dia de hoje, se fosse viva, festejava os seus 87 anos.
Recordo-a sempre.

Ainda em Agosto, fui beijar a ternura da sua ausência ali, no Torrão, em Alcácer do Sal, a sua terra natal, onde ela descansa a olhar a eternidade, na planície que se estende até ao Sado, onde – “ao fundo o laranjal continuará verde” – como ela escreveu num poema que me dedicou no ano de 1991, e, só este ano, descobri que estava publicado no seu livro de poemas – “A palavra Iluminada”.

Falo de Maria Rosa Colaço. A mulher que antes do 25 de Abril, escreveu o livro-poema: «A Criança e a Vida», que semeou palavras em histórias de amor para crianças. Esse livro, que era senha de Liberdade. Que era voz de ternura. Que era dor de saudade. Quer era força de fraternidade. Que era a voz que se faz amor, por amar, por amor.
Esse livrinho que ofereci à minha Lurdes, para lhe beijar o coração com palavras de criança. O livrinho que passava de mãos em mãos, com palavras a inventar o sol azul, e, pássaros a beijar o amor pela madrugada, e, com os dias a fervilhar no sangue o encanto da palavra Liberdade.

Falo da minha irmã, como ela sempre me tratou - Maria Rosa Colaço - que um dia no Lavradio, me estimulou para escrever poesia, e, que disse-me com energia que publicasse um livro de poemas, porque, afirmava, tu tens os “poemas à tona da pele”, e, as tuas mãos semeiam poemas por dentro de todas as palavras. Nunca escrevi o livro de poemas que lhe prometi que, um dia iria escrever, mas, talvez, um destes dias venha a cumprir, porque, afinal, escrever um poema é sempre dar um sentido à vida. E a beleza da vida é ser poema.
Para que serve um poema? Interrogo-me muitas vezes.
Talvez sirva para recordar uma janela na noite escura. Ou inscrever um beijo na eternidade. Ou tocar na cascata de sentimentos escondidos na ternura do luar. Ou guardar a distância da penumbra que se esconde por trás de um olhar de magia. Ou sentir a criança a gritar na hora de nascer no sol colorido de placenta brilhante. Ou, apenas, para fazer renascer as flores, os cravos vermelhos, que colocámos a teus pés, no dia que fomos dizer-te adeus, eu e a Manuela Fonseca, e, ali, dizer um poema onde Abril estava por cumprir, esse Abril que tu sempre guardas-te nos teus nervos vindo das ondas do Indico, até às ondas das searas do teu Alentejo, ou, ainda, aos dias de Almada que vias as crianças na escola a escrever PAZ em todas as línguas do mundo.

As crianças que te diziam que eras a Maria sem laço, porque eras Colaço e não tinhas laço.
Ou, talvez, o teu espanta pardais a dizer-te adeus em Toronto, que recordavas a sorrir, em asas de Anjo, cantadas pelo Francisco Ceia.

Recordo-te hoje, ao fim do teu dia, a data que está inscrita nesta memória que faz parte das memórias que enchem os meus nervos de cor, musicalidade e essa saudade que se escreve amor ao futuro.
Um dia vamos conversar. Um beijo.

António Sousa Pereira

19.09.2022 - 23:59

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