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Barreiro - Por dentro dos Dias
A Escrita Criativa - uma folha em branco!

Barreiro - Por dentro dos Dias<br />
A Escrita Criativa - uma folha em branco! Sempre tive curiosidade de participar numa dessas acções que decorrem tendo como tema : Escrita Criativa. Não sei porquê, talvez apenas, com o desejo de pensar, sentir e viver essa emoção de aprendizagem, porque, para mim, nada mais belo que fazer da vida um percurso de constante descoberta. Estamos sempre a aprender.

No último domingo fui participar numa dessas acções que decorreu nas instalações da Cooperativa Popular Cultural Barreirense, organizada pela associação MOLA, com orientação de Mariana do Ó, uma jovem barreirense de 23 anos, Licenciada em Teatro, actriz, que no começo da acção comentava – “gosto mais de escrever que estar no palco, gosto de fazer o que quero fazer”.

A começar cada um dos participantes apresentou-se referindo a sua actividade e as motivações, que o levavam a marcar presença naquele encontro com a palavra, um porque “a escrita atrai-me”, outro porque a escrita “transmite sentimentos”, ainda, outra, para enfrentar o “desafio da escrita”, porque está muita coisa escrita e guardada na gaveta, e, também, outra, apenas para “vir conhecer e observar”. Cada um deambulava por dentro de palavras, em busca de si, nessa emoção de sentir a escrita como uma base para partilhar, raciocinar, viver as palavras.

Ali estávamos, numa tarde de domingo, neste começo do ano de 2023, neste mês de janeiro, um dia chuvoso e de neblina, começamos por contar histórias da vida de cada um, estórias reais ou falsas, e, nesse vaguear pelas palavras ditas, cada um mergulhou no seu tempo por dentro da memória, viajando por dentro de cores. O leit motiv do desafio.
Afinal, é tão simples como as cores trazem ao pensamento emoções, recordações, factos que ficam inscritos nas ranhuras do cérebro e, de repente, renascem em palavras de estórias inventadas. O belo é nesse encontro colorido sermos nós mesmos. A mim calhou-me o roxo. E contei uma estória do arco iris, num dia da criança, no ano de 1981. No tempo que a cor laranja era proibida, e, até, queriam retirá-la do arco iris. Era um sentimento psicossomático.

Numa tarde de domingo, ali sentados, a escutar estórias e factos, as emoções floriam na autenticidade. O mistério estava nas palavras que ficaram por dizer, o outro lado das estórias. A suspense. O pormenor. A curiosidade.
As estórias que nos aconteceram, as estórias que vivemos, são sempre ricas de coisas que nos podem motivar a escrever – um texto, uma poesia.
A Mariana sorria, um sorriso cativante, motivando à descoberta de estórias dentro das estórias – o que têm todas as histórias de comum?, interrogava.
Para uns era o tempo, para outros era o eu, e, sentia-se por fim que em todas as estórias existia um “conflito”, uma “estrutura”, o que faz andar, o que agita. Uma personagem. A aventura.

Em todas as estórias os pormenores são importantes. Os detalhes. Há o que existe e o que não existe. O dito e o não dito. O romance, o conto, têm uma estrutura. Na poesia é mais difícil encontrar uma estrutura.
Escrever, sentíamos, é deixar a mente mergulhar nos afectos. É difícil mentir quando se escreve com o coração, sublinhava a Mariana do Ó.

Um novo desafio foi colocado a cada um, numa folha A4, escrever um acontecimento, Um instante. Podia ser autobiográfico, ou não. Sentiu-se o silêncio. Viveu-se o silêncio. Sentiu-se a beleza de mergulhar numa página em branco e sentir as palavras a saltitar da mente para os dedos, dos dedos para o papel e a caneta, subitamente, tornar-se continuidade do silêncio e da musicalidade suave que invadiu aquela tarde, no Barreiro, esta terra que não é minha, mas que é a terra dos meus filhos e da minha neta. Esta terra que me ensinou a viver a palavra Liberdade. Esta terra, onde, ao fim da tarde, neste ano de 2023, ao anoitecer, perdia meu olhar na neblina, que escondia a chaminé na penumbra e, de repente, viajo pela fábrica, cheiro o céu poluído de trabalho e o fervor de um tempo que os sons, os cheiros, a sirene, eram um sinal de vida.

Olho em meu redor e sinto a ternura das palavras que, ali, silenciosamente, estão sendo semeadas, naquela escrita que, a Mariana do Ó, fez despertar no pensamento numa viagem por dentro do eu, do tempo e da criatividade que faz mover a roda da vida – a escrita. O poema.
Cada um lê o que escreveu num momento de partilha. Uns falam do rio e do sol. Outros do voluntariado e a importância do voluntariado que marca os dias. O Tejo não falta, o Tejo no Barreiro, nunca pode faltar. Alguém recusa ler o que escreveu, coloca a caneta de lado, e, nos seus olhos desperta uma lágrima.

Há quem fale em momentos de dor, tocando com as palavras em sentimentos de amor e espiritualidade. Depois, surgem fonemas donde emerge uma luta contra a solidão, uma busca de palavras que ajudem a crescer, a criar objectivos. Viver.
Há quem conte a luta de uma vida contra a violência verbal vivida na escola primária, situações recordadas com a clareza de uma marca inscrita nos nervos, tempos que fizeram perder a confiança, destruíram a auto-estima, escondendo num recanto dos nervos, o gosto pela escrita – “que está dentro de mim desde criança”.

Todos escutamos as estórias e as vivências, partilhamos, aprendemos, todos nos enriquecemos, porque, ali, naquela tarde fria de inverno, acrescentamos à nossa vida o calor de palavras de vidas, vividas.
A beleza, o amor, a dor, o sofrimento, o descobrir que os outros são espelhos de nós mesmos. A força do outro que se projecta no nós que somos.

Um novo desafio, em grupos de dois, sentamo-nos para reconstruir um novo texto, unindo dois textos diferentes, o escrito anteriormente por cada um, e deles, fazer nascer um novo texto. Criar, recriando. Não era corta e cola. Era fundir, talvez por isso, no final, no meu grupo: eu segui com a Liberdade debaixo do braço. E, a minha companheira, levou o amor no seu coração.
Fechamos esta jornada de palavras de escrita por dentro da escrita, criando Haikus – um estilo japonês de poemas curtos, de três versos, que tinham que nascer no nosso olhar debruçado sobre a noite, a tocar as luzes e o silêncio.

A noite sem fim
Veste-se de luz
O silêncio, acorda, em mim!

E, por fim, naquela tarde que fui sem saber para quê, nem porquê, ali estive a beijar palavras, deitado com as palavras, a comer palavras, com palavras a florescer na memória, essa memória que sou, porque a vida é feita de palavras.

Vivi, talvez, um tempo de catarse, ou terapia de grupo, talvez. Ou foi, isso, apenas isso, um encontro com a vida. Afinal, cada dia é isso, uma folha em branco, que faz-se num tempo de Escrita Criativa!
Obrigado, Mariana do Ó.

António Sousa Pereira

13.01.2023 - 09:42

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