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Se tudo fosse tão simples assim…
Por António Sousa Pereira
Barreiro

Se tudo fosse tão simples assim…<br>
Por António Sousa Pereira<br>
Barreiro<br>
O sol está escondido, deitado por trás das sombras, que brilham em silêncio, rasgando os meus olhos, nesta tarde de janeiro, fria, fria, tão fria, como está o meu coração. Silencioso.

Imagino que acenas de lá, nas asas daquele pássaro que reluz no sol, com um poema, escrito ALGURES NO TEMPO, isso que somos, isso que faz as nossas vidas. MOMENTOS.
POR UM INSTANTE, imagino-te a declamar um poema, nesta tarde, feita de palavras, PEDAÇOS DE ESCRITA, sufocadas na garganta. Parece que a vida, afinal, é, ou não é, pensamentos CEM SENTIDOS. Olho o sol escondido. Vejo-te sorrir.
Escrevo estas palavras, para ti, e penso: SE FOSSE TÃO SIMPLES ASSIM!

Foi tudo tão rápido, inesperado, triste. Em 30 de Setembro, conversámos, via chat, e, fomos estando ligados. Como vai isso Kamarada?, perguntava. Kamarada, com Kapa, como era o hábito, entre nós.
Tu respondias: Estou no início do maior desafio da minha vida. Doeu. E silenciei.
Fomos trocando mensagens, pontuais. Conversa entre nós dois.
“Não deites a toalha ao chão. Grita. Arriba.”, dizia-te.
“Estou a tentar meu amigo.”, respondias.
A última vez que comunicaste foi a 22 de dezembro, a tua resposta foi apenas: abraço.
É esse abraço que te dou hoje, neste dia 14 de janeiro, estejas lá onde estiveres, tenho a certeza que estás a voar, sorrindo, entre poemas, naquele raio de sol que vi a brilhar nesta tarde fria.

Foste das primeiras pessoas com quem partilhei os meus dias quando vim para esta terra. Foi na Comissão de Redacção dos Jogos Juvenis do Barreiro. Nesses dias, que escrevíamos no «Continuando», o boletim do JJB, que tinha este título como provocação, porque a PIDE editava uma revista que era «Continuidade». Conversámos tantas vezes. O amor ao fazer vida, na vila operária.
Esses dias, antes de Abril acontecer e, onde, sabes, a palavra amizade começava a escrever-se num olhar, num simples olhar de cumplicidade. Ficamos amigos. Cada um seguiu pela sua vida. Encontramo-nos várias vezes. Ou, no Futebol Clube Barreirense, onde também fui da Direcção. Ou em entrevistas, quando eras dirigente da PERSONA. Ou nas noites de tertúlia na Associação Civica, quando exerci a função de Director do Jornal do Barreiro. Encontramo-nos na Câmara Municipal do Barreiro, quando foste vereador, e, eu, funcionário público.

Como estás Kamarada, com kapa?, era sempre o nosso cumprimento.
Um dia convidaste-me para beber um café, para conversar. Levavas contigo um conjunto de originais, para eu ler. Trazias um desafio.
“Gostava que apresentasses o meu primeiro livro de poemas?”, disseste. Fiquei surpreendido, porque, tu, tinhas sido, para mim, um Mestre, uma referência, nestas coisas da escrita e do jornalismo.
Aceitei o desafio e com muita honra escrevi o texto prefácio e apresentei o teu primeiro livro de poemas, com o Manuel Alpalhão a declamar de forma brilhante, E, eu, entusiasmado, a falar de Pessoa e nos “eus” das emoções dos teus poemas.
A escrita estava dentro dos teus nervos, fluía, nascia como flores num jardim, ora em livros de contos, ora em poemas ou pensamentos.
Fomos conversando em jantares de Tertúlias. A palavra estava inscrita no nosso sangue. Unia-nos.
Escrevias as tuas crónicas no jornal Rostos e telefonavas. Ficávamos a conversar sobre os temas, os contextos. A cidadania. A cidade.
Sempre que editavas um novo livro, ligavas a marcar um café, para conversarmos e oferecias-me um exemplar, com dedicatórias de carinho e amizade – essa amizade de 50 anos. Eu lia os teus poemas. Tu sorrias.

Hoje, quando li as palavras da tua filha Ana, viajei perdido, algures pelo tempo, e, por um instante, vivi no meu pensamento muitos momentos, da vida que partilhámos, e, de tudo isso faz, estes pedaços de escrita, para te dizer : Até sempre! Obrigado pela tua amizade!

Olho a rua. A noite desce na cidade. Penso ir dar-te um poema nesta hora da partida.
Se tudo fosse tão simples assim…esta lágrima, que teima em beijar a noite, não descia no meu rosto.

António Sousa Pereira

Fotografia - Na SDUB «Os Franceses», em abril de 2022, no dia que decorreu o ROSTOS VIVO. Tu, eu e o Francisco Naia.

14.01.2023 - 17:48

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