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Por dentro dos Dias
Uma manhã na urgência do Hospital do Barreiro

Por dentro dos Dias <br>
Uma manhã na urgência do Hospital do Barreiro Ontem, por razões familiares, passei a manhã nas Urgências do Hospital Nª Srª do Rosário, no Barreiro, um tempo para sentir o pulsar o quotidiano da cidade.

Entram Bombeiros Voluntários do Corpo de Salvação Pública, transportam uma doente na maca, respiração ofegante, suspiros, a garrafa de oxigénio está no limite, prontamente, os serviços hospitalares substituem por um equipamento do Centro Hospitalar. Sente-se aquela situação com emoção. Outra ambulância, agora dos Bombeiros Voluntários do Sul e Sueste. O ritual de dirigirem-se ao balcão, documentação, identidade. Tarefas necessárias.
Um utente fala alto que esteve ali na noite até às 2 horas da madrugada, mas como os resultados das análises demoravam, disseram-lhe que fosse descansar, para casa, e voltasse pelas 7 horas. Estava a aguardar e pedia para ser atendido. Lá foi, e pouco depois regressava, com as receitas.

Inicialmente, quando cheguei o número de cadeiras na sala de espera eram suficientes. Mas, com o tempo a passar, aquele movimento constante de chegada de utentes o espaço tornou-se insuficiente, para alguns a opção era a cadeira de rodas, para outros com mais mobilidade era ficar em pé, ou sentar no chão. Estava ali, olhando em redor, observava as pulseiras, umas verdes ( que pela informação disponível na vitrine, podiam ter optado por marcar consulta de urgência no Centro de Saúde), outras amarelas, as cores das pulseiras determinam a prioridade.
Na minha familiar era amarela. A entrada para a triagem desde o momento da inscrição, até ser chamada, foi rápida e eficaz, aliás como a própria inscrição no Balcão de Atendimento. Tudo eficiente e eficaz.
Mas, depois, é que se prolongou até que o nome dela soou, só cerca de 2 horas depois de ter saído da triagem.

Fui ao bar, ali em frente, comprar um sumo e uma merendinha. Era perto do meio-dia e apetecia comer alguma coisa. Cá fora as pessoas sentadas no muro em frente. Outros a passear de um lado para o outro.
Os bombeiros de Salvação Pública, os mesmos, já estavam de novo de regresso às urgências, com novo utente. Depois o Sul e Sueste. Um mundo em movimento.

Depois do café, voltei e sentei-me de novo. Verifiquei que os lugares já eram poucos. O número de pessoas idosas crescia.
Um idoso, uma idosa, acompanhados de filhos ou filhas, vindos da Baixa da Banheira, do Lavradio, do Vale da Amoreira, de diversos pontos do Barreiro.
Uma idosa caminha com dificuldade, o filho foi buscar uma cadeira de rodas. Os nomes continuam a soar: Claudia x, ao Gabinete 2. Maria y ao Gabinete 1. Diogo x, ao Gabinete 11. Um ritual que deve cansar quem está por ali diariamente a trabalhar.

Na TV o Correio da Manhã, divulga que o Chefe do Gabinete do Ministro Galamba foi destituído, e, em directo, é feito o relato de um empresário que desapareceu no Rio Zézere.
Ao meu lado um jovem, que está com uma familiar idosa, comenta que veio de um funeral e conclui : “Vamos para lá todos!”
O espaço do Serviço de Urgências está cada vez mais ocupado, são pessoas de diversas etnias e que falam diferentes línguas, escuta-se pelas conversas cruzadas ao telemóvel. Aquele é, na verdade, um espaço de diversidade e multiculturalidade. Olhos tristes. Braços em baixo. Resignação. A vida.
Alguém, um pouco mais distante grita, ao telemóvel” “Sim, está tudo bem. Estou aqui no Hospital. Estou à espera que chamem para a Tiragem”.
Do Gabinete da Triagem escuta-se sons de dor que rasgam um silêncio súbito. Sai alguém, a coxear, e, outra pessoa, entra numa cadeira de rodas. Deve ser utente habitual.

Observo e sinto dentro de mim, como somos tão pouco, que basta uma dor, uma queda, uma infecção e ficamos subitamente inutilizados, ou partimos, inesperadamente, para uma viagem rumo ao infinito. Ali, naquele local de urgências, sentimos a vulnerabilidade da vida. Dói nos olhos. Dói no pensamento.
E, pouco a pouco, vai aumentando o número de utentes que aguardam, alguém cansada de esperar foi-se embora, porque o mesmo nome soa pelo equipamento sonoro, por mais de uma vez, duas, três, repete-se…

Os carros de rodas aumentam. Uma utente entra com uma cadeira eléctrica. Encoste aqui o seu Rolls Royce, comenta o bombeiro.
Os Bombeiros, nota-se, fazem parte daquela rotina diária, sente-se pela relação formal de comunicação, e, pela amizade que estabelecem com os funcionários do Balcão de Atendimento.

A CMTV dá a notícia da demissão do Presidente da CPI, da Assembleia da República.
Um utente, ao meu lado, chama nomes aos governantes – “vai-te embora Galamba”, diz.
Continuo a olhar em meu redor e sinto as rugas e os cabelos brancos que polvilham aquele micro mundo, silenciosamente, com ternura, ali, está real, vivo, o pulsar da cidade, de uma cidade envelhecida, de uma região envelhecida, de um país envelhecido.

Os rostos mais novos, nota-se, são oriundos de outras paragens de África, da India, e, pela sonoridade percebe-se que outros são do Brasil, ou, então, são os familiares dos idosos. Muitos idosos e muitas idosas. Uns de máscara, outros sem máscara.
Pela uma hora da tarde a minha familiar finda a sua estadia naquele mundo – análises, RX, e, agora, uns dias de descanso para ultrapassar a dor. Coisas da idade, da vida.

Olho em redor e vejo aqueles rostos, muitos que sonharam com um mundo novo, nos dias que Abril abriu as portas. Do mal o menos, pois, ainda temos este SNS, que, sem dúvida, é, com todos os seus defeitos e virtudes, uma da mais belas conquistas deste tempo feito de esperança, uma conquista que é preciso preservar e defender.
“Gostei da médica. Era jovem, e pela forma como comunicava deve ser estrangeira. Foi muito simpática e atenciosa”, disse a minha familiar, com as dores a saltar nos nervos.

Saímos, e lá ficaram os idosos, dezenas de idosos e idosas, num serviço cada vez mais apinhado, mas, que, mesmo assim, ontem, num prazo de poucas horas, dava respostas e prestava o seu serviço a uma população cada vez mais envelhecida que, afinal, tem no Hospital do Barreiro, o seu último recurso ao nível de saúde…

Ao meio da tarde, passei na Capela da Misericórdia do Barreiro, na Praça de Santa Cruz, para me despedir do meu amigo Manuel da Luz. Em silêncio, dei-lhe um abraço e recordei alguns dias que partilhamos. Ao meu lado estava o Alves Pereira, cumprimentamo-nos e olhos nos olhos, pensamos, cá estamos, para lá iremos. Um amigo que partiu…dissemos.

Ao fim do dia, recebi a noticia que foi publicado no Diário da República a Resolução do Conselho de Ministros que aprovou o Projecto do Arco Ribeirinho Sul.
Sorri, porque, de há muito que defendo, digo e tenho repetido, que sem o governo, seja ele qual for, de que cor for, que desenvolva e tenha um projecto estratégico para esta região e nesse projecto envolva os agentes da região, tenho a certeza que nunca sairemos do gueto onde estamos…ou, então, ficamos meramente ao nível residual de um crescimento com base na politica imobiliária, sem nexo, nem visão de cidade.

Pensando em tudo isto, meditava e, nos meus neurónios, entravam aqueles rostos, tantos rostos, vindos dos tempos que o Barreiro era uma cidade com vida própria, gente de trabalho que tanto deu ao meu país, e, ali, estavam à espera, numa sala de espera, tal como o Barreiro está há décadas e décadas à espera...à espera.
Aguardemos.

António Sousa Pereira

11.05.2023 - 00:56

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