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Ephemera colocou o Barreiro no roteiro das comemorações dos 50 anos de Abril

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Ephemera colocou o Barreiro no roteiro das comemorações dos 50 anos de Abril Fui visitar a exposição «Unidos Venceremos! Protesto, Greves e Sindicatos no Marcelismo (1968-1974)», patente ao público nas Oficinas da CP, no Barreiro, uma iniciativa promovida pela Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril e da Ephemera – Associação Cultural, entidades a quem, desde já, aqui deixo o meu aplauso por colocarem o Barreiro, esta terra de resistência e de luta pela Liberdade, no roteiro das comemorações dos 50 anos de Abril.

Os muitos homens e mulheres que, aqui, nesta terra de luta, sentiram na pele a repressão, a prisão, a perseguição, certamente, ficam agradecidos, pelo facto de, neste século XXI, o Barreiro estar, presente nesse roteiro de celebração dos 50 anos do 25 de Abril, esse dia “limpo”, pelo qual muitas gerações sonharam e deram vida.
Eles agradecem, quer sejam eles comunistas, anarquistas, socialistas, católicos, ou pessoas sem outras opções, que não fosse o sonharem com a democracia e amor à Liberdade. O Barreiro merece estar na primeira linha da celebração da Liberdade e da Democracia e dos 50 anos de Abril.

O Barreiro, por muito que se procure desconstruir a sua memória, a sua verdade histórica, ninguém o vai retirar dessa sua dimensão de vila operária, que foi exemplo de dignidade, de resiliência, de combate, uma terra onde as vozes se ergueram contra a fome e pelo pão, contra o cerco, como escrevia Manuel Alegre, nos seus poemas épicos : Há Greve no Barreiro!
Mas, voltando à exposição, que foi inaugurada com pompa e circunstância, com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, quero salientar que estava com a ideia que ia visitar uma exposição de grande dimensão, até, por esse facto, ser a primeira iniciativa que assinalava, no Barreiro, a abertura das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.

Fiquei desiludido, porque o conteúdo da exposição, sendo interessante, podia estar patente ao público aqui, ou em qualquer outro lugar. Ali, pouco, mesmo muito pouco, é feita referência às lutas e acções de protesto que, naquele período, dos anos 60 e 70, aconteceram no Barreiro, na margem sul, e, que, sem dúvida, marcaram a vida do concelho e do país, naqueles anos 1968-1974.

Por exemplo, nem uma palavra sobre a repressão da GNR no Largo da Santa, no dia 3 de maio de 1970, nem uma palavra às prisões que estiveram na origem da repressão, com os cavalos da GNR a entrar pelo Café da Pilar, acção que até deu origem a poemas e canções de Zeca Afonso – “por trás daquela janela”- em homenagem a Alfredo Matos.
E, por exemplo, num folheto que está naquela exposição é assinalada a prisão de Daniel Cabrita. Este facto, só por si, merecia um tratamento especial e dar um grande destaque – um painel que fosse- alusivo a este barreirense, recordando esses dias de fraternos e solidários abraços ao homem, politico, ao lutador e sindicalista do Barreiro – Daniel Cabrita. E, saliento que até há outros barreirenses que estiveram envolvidos naquelas lutas sindicais de Lisboa, nomeadamente ao nível do sector do Comércio.

Mas, também nesse tempo, do Marcelismo, há registos de greves e lutas dos ferroviários que mereciam um registo. E, porque não, recordar as acções do movimento associativo – o célebre CANTO LIVRE no LUSO, com os dirigentes do Cine Clube e do Luso submetidos a interrogatórios e prisões na Policia Politica – PIDE. Ela existiu.
A PIDE prendeu e perseguiu barreirenses. Os filhos e os netos desses lutadores, que sentiram na pele a prisão, não os esquecem. Isto não é mito. Foi real.

Foram prisões, torturas, em Caxias, Aljube, Tarrafal. Eu vi as marcas no corpo de homens que sofreram na prisão. Vi lágrimas nos olhos de mulheres que lutaram pela liberdade. Lutaram para que existisse um dia Abril e vivermos, hoje, em democracia.
Na verdade, ao ver a exposição, fiquei com a sensação de vazio, de tristeza, até, aquela referência, envergonhada, que se faz à industrialização e à desinsdustrialização. Um antes e um depois que pareceu-me uma coisa deslavada, um registar só porque sim, e, por trás do dito, ficar um não dito que deixa em aberto interrogações e dúvidas.
Assim como se aquele recordar fosse um querer deixar um tema para debate futuro, uma marca, de um tempo bom e um tempo mau, coisas em rodapé que não se sabe se visam construir ou desconstruir a memória.

Mas, digo, ao menos, valho-nos isto, a exposição está ali, para quem quiser visitar, aqui, no Barreiro, acontece um evento que coloca a cidade na agenda nacional das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, algo que, obviamente, acontece, agora, porque existe no Parque Empresarial do Barreiro a Ephemera – Associação Cultural.
Por isso mesmo, apesar de alguma insatisfação sobre o conteúdo, aqui, deixo o meu OBRIGADO à Ephemera e a Pacheco Pereira, por colocar o Barreiro no roteiro das comemorações de uma efeméride que está no coração de muitas gerações de barreirenses, aqueles que gostam de afirmar : Sou do Barreiro, hoje, tal como acontecia antes do 25 de Abril, uma afirmação que, só por si, significava : Sou da terra da Liberdade!

António Sousa Pereira

26.05.2023 - 01:51

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