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A(nota) mentos
«Fabricado no Barreiro»: a banalidade do ano 2023
Por António Sousa Pereira

A(nota) mentos <br>
«Fabricado no Barreiro»: a banalidade do ano 2023<br>
Por António Sousa Pereira Hoje, dia 4 de janeiro de 2024, quando fui à farmácia, surgiu, nem sei a que propósito a conversa do “fabricado no Barreiro”, e, na verdade, o que escutei foram risos e comentários – “agora tudo é fabricado no Barreiro…e, no meio da conversa, alguém acrescentava, “se isso fosse a realidade”. E de facto só dá para rir.

José Tolentino Mendonça, numa das suas crónicas, publicada no livro «A mística do instante», recorda que a filósofa Simone Weil, trabalhou numa fábrica, e, dessa sua experiência escreveu no seu diário uma reflexão : “Que cada um no seu próprio trabalho seja um tema de contemplação”.
O Cardeal Tolentino Mendonça, refere que Simone Weil, descobriu, nessa realidade, no seu trabalho, que a contemplação, lhe estava vedada na fábrica, porque, ali, afinal, o dever número um, pelo qual todos eram compensados, ou punidos, era a velocidade da produção, monótona, maquinal, desumanizada.
Simone Weil, salientava que, como ser pensante, com recordações e fragmentos de ideias, sentia que na fábrica, a única coisa que contava era : “que o homem possa funcionar mecanicamente como peça de uma engrenagem”, e para ela, “isso representa, mais cedo ou mais tarde, a destruição do homem”.
Ocorreu-me ao pensamento este texto, quando, no passado mês de dezembro, ao abrir a minha caixa de correio, encontrei o tradicional cartão de Boas Festas da Câmara Municipal do Barreiro, e, nele, bem no centro, bem visível, para que todos pudéssemos “contemplar” lá estava “imposta” aquela célebre frase da gestão 2830.

Enfim, uma frase que que vai ficar para a história como a marca de um modelo de gestão que aposta na imagem, no culto da personalidade e vive da politica de surf, ou seja, das coisas herdadas do passado e das coisas que vão nascendo, ou privadas ou públicas, tudo isto se resume à frase : Fabricado no Barreiro.
Pessoalmente, já sabia, de anos anteriores e, também, de novo este ano renovado, que afinal, agora, coisa que nunca aconteceu nas últimas décadas, já se pode dizer: “Barreiro - aqui há Natal”.
Assim, para além do Boletim da comunicação autárquica “Jornal Aqui Barreiro”, convém não esquecer, e, portanto acrescentar ao dito, que “Aqui há Natal”, coisa que sabemos é inovadora, porque, também agora, o Natal é “Fabricado no Barreiro”.

Eu que sou velhote, sempre associei o Natal a palavras como fraternidade, amor, solidariedade, paz, boa vontade, família, amizade, ternura, carinho, esperança, entre outras, nuca senti o Natal com essa dimensão intelectual socializante do “Fabricado no Barreiro”. Ignorância minha.
Todos sabemos, ou muitos sabem, e conhecem a tal célebre frase da CUF, a marca de Alfredo da Silva :“O que o país não tem a CUF cria”, desconhecia, e, esta é, para mim, a grande novidade que fica a marcar o ano 2023, afinal, o Natal, essa festa universal, é “fabricado no Barreiro”.

Na verdade, já nas Festas do Barreiro do ano 2023, esse slogan, da gestão socialista, foi imposto como o lema daquele evento que, na verdade, largamente transcende qualquer gestão autárquica, pois é um evento com mais de 300 anos.
O «Fabricado no Barreiro» é, na verdade, um slogan fantasioso, desligado da realidade, é a mera expressão de um pseudo “narcisismo local”, é um slogan vazio, que pretensiosamente procura fazer, eventualmente, a ponte entre a cultura empresarial e industrial dos ferroviários, da CUF, com a actualidade, mas não tem qualquer conteúdo, porque não tem qualquer projecto, nem se vislumbra uma estratégia subjancente.

Aliás, a única “ideia” que emerge deste slogan é o querer fazer cidade e cidadania, com base no conceito de “produção”, como quem considera que “produzir cidade” é “arquitectar cidade”, é “fabricar cidade”, é olhar para o território e zás, a cidade é isto, que uns ilustres pensadores germinaram, ali, para o mausoléu do Largo das Obras, de tal forma que, agora, até já se fala “em fabricar o Barreiro novo”.

Quando se afirma em “fabricar um Barreiro novo” é porque se considera que há outro Barreiro «o velho que tem que ser desmantelado. E pessoalmente gostava de conhecer esse Barreiro Novo. O que vejo é nascer, a todo o vapor, a cidade do betão.
Esse, Barreiro Novo é algo que ninguém conhece, que está no segredo dos gabinetes dos “pensadores da cidade”, os fabricantes, sem a participação dos cidadãos, é, sem dúvida essa a cultura do “fabriquismo”. Eles é que sabem.

O fabriquismo é uma ideologia, sem ideologia, é marketing de vazio, sem ideias.
Fabricado no Barreiro é uma espécie de Barreiro 2830, que quer produzir um “orgulho local”, vazio de identidade e de memória.
O fabriquismo o que pretende é, regra geral, dizer que para trás tudo esteve mal, para depois erguer a bandeira – “tá melhor có que estava”. É isto o fabriquismo.
O fabriquismo é a história de milhões, muitos milhões, ou do PRR, ou de privados, fruto das circunstâncias, que nada tem a ver com um projecto de cidade.
O fabriquismo está a fabricar um Barreiro Novo que só se pensa no centro, a 15 minutos de Lisboa, e é incapaz de se pensar como uma centralidade da Península de Setúbal e da AML. Daí o silêncio sobre a localização do aeroporto, ou o salta pocinhas sobre a Terceira Travessia do Tejo. Ou a ausência de uma séria reivindicação de construção da ligação da ponte Barreiro - Seixal. Ou até o pensar conceitos de cidade-concelho, polinuclear, que vai para além, muito para além da cosmética de rotundas e de pseudo recuperações de antigas zonas ferroviárias, ou de bairros sociais.

Em suma, o slogan da gestão 2830 – Fabricado no Barreiro – foi, para mim, a banalidade do ano 2023, mas é uma banalidade que espelha as politicas de surf, que vão gerindo a cidade de acordo com os acontecimentos, sem outra visão que não seja a cidade do IMI .

Se, para mim, este slogan estava morto, ou era apenas um slogan, abraçado pela gestão 2830, agora ao dar-lhe a dimensão natalícia, ficou reduzido a isso mesmo, é uma banalidade, porque espelha a dimensão do fabriquismo que tudo quer municipalizar.

Afirmar : Fabricado no Barreiro é como afirmar a cultura do «fabriquismo», cuja essência visa a desconstrução da memória, negar o legado de outras gerações, forjar a ideia que um “mundo novo” está a nascer - “um novo Barreiro”.

Hoje, dia 4 de janeiro de 2024, quando fui à farmácia, surgiu, nem sei a que propósito a conversa do “fabricado no Barreiro”, e, na verdade, o que escutei foram risos e comentários – “agora tudo é fabricado no Barreiro, e, no meio da conversa, alguém acrescentava, “se isso fosse a realidade”.
E, de facto, isto só dá para rir. Vão lá dizer o contrário aos criadores.

O fabriquismo não é um pensamento de fazer cidade e cidadania é apenas um modelo de marketing político, de gestão de imagem, e, cuja finalidade é promover visões e ilusões para manter o poder pelo poder.
Como escrevi, noutro texto, o fabriquismo é a promoção de um orgulhismo patético, que não tem valores, nem princípios, é a-ideológico, e, apenas quer contribuir para estimular o populismo.
Do “Fabricado no Barreiro – produzimos orgulho local” ao “Barreiro – aqui há Natal – Fabricado no Barreiro”, reside a banalidade de um barreirismo sem alma.
Divirtam-se.

António Sousa Pereira

04.01.2024 - 17:37

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