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Barreiro – Por dentro dos dias
Viver e acordar daquela angústia do desconhecido

Barreiro – Por dentro dos dias<br>
Viver e acordar daquela angústia do desconhecido Ontem fui fazer uma colonoscopia no Serviço de Gastroenterologia do Hospital de Nª Srª do Rosário, no Barreiro. Nada de outro mundo. Até porque, a equipa que nos recebe, sem dúvida, procura desde o primeiro momento criar um clima de afectos e simpatia.

Mas, este exame começou dias antes, na dieta de caldos, e, na recta final, a preparação com aquela bebida para limpar os intestinos. Uma noite quase sem dormir, um cansaço nos olhos, uma ansiedade nos nervos. Aquela angústia do desconhecido. Sabia que o exame era realizado com anestesia total. Coisa normal, para quem, ao longo do ano, certamente, vive esta realidade como uma tarefa sem qualquer risco. Mas, há sempre um mas, principalmente para o utente, que pela primeira vez entra nesta realidade.
A juntar à fome, resultado da dieta rigoroso e da dita preparação, acrescenta-se a angústia da incerteza.

Na tarde de ontem, tudo começou na realização de um electrocardiograma. Está tudo normal. Sigo. No corredor alguém passa por mim com lágrimas nos olhos. As macas transportam doentes de um serviço para outro, ou para o RX, ou para o Laboratório de Análises. Muitos rostos de idosos. >
Observo. Penso. Recordo a conversa que, momentos antes, por ali, um funcionário comentou comigo: “Sabe, o mal de tudo isto é que os serviços de saúde vivem a realizar acções de tratamento da doença, quando a linha principal devia ser no prevenir a doença. Sabe, o que você vai fazer é isso mesmo, observação e prevenção”.
Ao escutar estas palavras, na verdade, recordei os dias que, recentemente, passei nas Urgências. A dor dos gritos. As lágrimas. Um roda viva permanente de luta pela vida. As alegrias de se saber que alguém estava a renascer, depois de uma situação complicada. Ali estava a minha cidade envelhecida. Rostos marcados por rugas da vida. Homens e Mulheres que fizeram este país, ser este país, que fizeram esta cidade, ser esta cidade. Agora, no limite, em sofrimento, restas-lhe bater à porta do Hospital, quando, na verdade, deviam viver de forma airosa a velhice na alegria dos dias, no convívio e fraternidade.

Deviam, isso sim, existir estratégias de promoção do envelhecimento activo, de valorização do saber dos idosos através da partilha intergeracional, devia apostar-se na tal cidade dos afectos, através da promoção da Saúde Pública – espaços verdes, transformar as colectividades em Rotundas da Cidadania, dinamizar a prevenção através do enriquecimento dos Cuidados Primários de Saúde. Enfim, sonhos.
Quando tudo isto falha, depois, a realidade social bate à porta do Hospital. E, por fim, lá temos o bode expiatório a funcionar, as críticas ao dito mau funcionamento do SNS, que absorve no limite o que devia ser preventivo.
Ocorreu-me tudo isto ao escutar as palavras do funcionário, cansado de funcionar, enquanto estava, por ali, sentado no corredor a aguardar a minha vez. Uma espera normal. Aguardei pela hora agendada.

Os funcionários na hora de mudança de turno, quer da enfermagem, quer do pessoal auxiliar, passavam no corredor, conversavam, uns a sair do serviço, outros a entrar, falavam da vida pessoal, riam, partilhavam a vida, sentia-se o movimento daquela rotina diária, a vida de um mundo imenso, esse onde as horas de angústia cruzam-se com horas de alegria. Estar diariamente, entre a vida e a morte, com serenidade. Uma vida profissional de grande dignidade. Admiro.

Sentia fome. Ao meu lado falavam de petiscos, de doces, de bolinhos, de bebidas. Fui escutando. O meu cérebro deliciava-se. Por fim, não resisti: “Vocês devem estar a gozar comigo. Eu cheio de fome e vocês só falam em comida e doces”.
Riram-se. Começaram a falar em roupas.

O tempo passava. Será que acordo da anestesia geral? Interrogava-me. Coisas de leigos. Medos. Ansiedade. O desconhecido agita sempre os nervos. Eu perdido neste silêncio de interrogações. Angústia. Um amigo veio cumprimentar-me. E lá começou a conversa. Já fiz esse exame três vezes. Ri. Tecia comentários que tinha gostado. Fazia gestos. Falava que não sentiu dores. Que não custava nada. Eu escutava as palavras dele, distantes de mim, ele continuava a partilhar as três experiências vividas. Escutava, mas, por fim, quase que só sentia o rumor de um som a sair do movimento dos seus lábios.
Mas, ele, querendo expressar a sua solidariedade, continuava, repetia a dose. O exame é assim, o exame é assado. Voltava a rir. Fechei os olhos e encostei-me para trás, ele, serenamente, voltava a repetir as estórias e gestos. Falava. Falava. Falava. Por fim, deitei-me no meu silêncio e deixei de o ouvir. Lá decidiu partir, deixando os votos das minhas melhoras – “Não vai doer. Vai correr tudo bem. Não vais ter problemas” E voltava a rir divertido.

Lá continuei sentado. Se estava ansioso, aquela conversa, de facto não veio reduzir a minha angústia. Eu, naquele momento, queria apenas e só, tranquilidade. Silêncio.
A hora chegou. Escutei: “António Pereira”. Lá fui. É agora.

Entrei. A enfermeira disse-me: “Senhor António, dispa-se. Coloque esta bata. Pode ficar com meias”.
Pouco depois, lá fui, pelo corredor do serviço, rumo ao local onde iria ser realizado o exame. Entrei deitado na maca. Boa Tarde. Sorrisos. Perguntas. Correu bem a preparação? É alérgico a alguma coisa? Está tudo bem? Volte-se. Fique de lado. Encolha as pernas. Tudo com imensa simpatia. Procurando colocar-me à vontade.
“Este senhor é do jornal Rostos”, diz uma enfermeira.
Depois, a enfermeira que me recebeu, vem junto de mim, e diz: “Senhor António, agora vai dormir um pouco”. Foram segundos. E zás.
Acordei, de novo, no local onde tinha entrado. “Senhor António, pode acordar. Levante-se devagar. Vista-se e pode sair”, disse a enfermeira.
“Sente-se bem?”- interrogou. “Sim. Já aqui estou. Olhe, sei que dei um passeio na Avenida da Praia. E sonhei com o Mário Soares.”, comentei.
Vesti-me. Tudo normal. Um pouco zonzo. Uma leve tontura. Nada de anormal. Não dei por nada. Tudo com eficiência e eficácia. Um exame feito de forma exemplar. Parabéns à equipa do Serviço de Gastroenterologia. Obrigado!
Entregaram-me o resultado do exame. Penso que esteja tudo bem. Interroguei: “Já posso comer?”. “Sim, não beba bebidas alcoólicas”, disseram-me.

De novo no corredor. As macas continuavam a circular. Outros utentes entraram para o exame. Um mundo que pulsa e não para durante as 24 horas.
Ali, sente-se a vida da cidade, por ali passa muito da vida da cidade – do nascer ao partir.
Olho para trás, quando já estou na rua, ali, olho e penso, sobre a importância deste hospital e na sua centralidade na Península de Setúbal.
Ah, é verdade, deviam começar a reflectir sobre o seu papel no futuro, com a Terceira Travessia do Tejo, com o aeroporto, com a ponte a ligar o Barreiro ao Seixal, sem dúvida, este Hospital, que serve uma região que abrange os concelhos de Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo, vai ser um equipamento estratégico central. Pensem nisso.

Escrevo esta crónica, para dizer, que tenho contado, sempre que a doença bate à porta com o apoio deste serviço público, quer pela sua competência, quer pela sua eficiência. Ontem, mais uma vez, senti isso, tinha que o escrever. Obrigado!

António Sousa Pereira
TE – 180
Equiparado a Jornalista

23.05.2024 - 20:08

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