inferências

A(nota)mento – É o Barreiro que nos divide
Do império industrial ao império do betão

A(nota)mento – É o Barreiro que nos divide<br />
Do império industrial ao império do betão<br />
Dentro de dois meses, no próximo dia 12 de outubro, vão realizar-se as eleições autárquicas. Muitos amigos, por vezes interrogam-me sobre o que eu penso sobre este processo eleitoral. Ele está em curso, sente-se a sua presença nas ruas com outdoors, e, naturalmente, nas redes sociais é grande a agitação, os motores vão aquecendo.

Uma das ideias que registei neste processo pré-eleitoral foi uma frase política onde se afirma – “é o Barreiro que nos une”. E fiquei a pensar que, num processo eleitoral, em democracia, ainda bem que aquilo que acontece, não é ser o Barreiro que nos une, mas ser o Barreiro que nos divide.

Bom, uma coisa é dividir para reinar, outra coisa é o dividir que proporciona a existência de diferenças, que é o sal da democracia, ou seja, a existência de formas divergentes de sentir e pensar estratégias de desenvolvimento para o território. Visões de planeamento, Visões culturais. Formas de afirmação e vivência da cidadania activa. Uma comunidade é feita de diferenças é isso que lhe dá sentido e sabor.
As eleições são mesmo para isso, para perante aquilo que nos divide, na forma de pensar e sentir o Barreiro, serem apresentadas as alternativas e as soluções. Na diferença encontrar o caminho. Por isso, no resultado final, contados os votos, neles está reflectido o pluralismo de opções. Por vezes, até, a democracia fica expressa numa maioria absoluta, que não, devia significar, nunca, o absolutismo, porque, quando assim acontece, na prática, são ignoradas as posições das minorias expressas nos votos. E, essas, são também visões e formas de pensar a cidade, que, igualmente, receberam legitimidade democrática, ou seja, o direito de não serem ignoradas.

Por exemplo, nas diferentes visões sobre a gestão do território, há diferentes visões sobre a Terceira Travessia do Tejo. Este é um projecto estruturante e central para o futuro de muitas gerações que aqui vivem, um tema que devia estar a animar os debates pré- eleitorais. Um tema que devia estar na agenda políica actual.
Uns defendem que a ponte deve ser apenas ferroviária. Outros defendem que deve ser ferroviária-rodoviária. Há até, os que discordam, da construção da TTT e defendem a construção de um túnel para o Montijo. Nada se discute.

O Novo aeroporto de Lisboa, outro tema de grande actualidade, uns defendem, há até quem diga que não e devia ser é potenciado o aeroporto de Beja.
O Novo aeroporto na margem sul é uma realidade, essencial, para que de uma vez por todas, Lisboa deixe de olhar para a margem sul como a outra banda”, e, começar a pensar-se como uma cidade de duas margens, ponto central de uma zona estratégica metropolitana de nível europeu. Uma região para viver, trabalhar e fruir culturalmente, na sua diversidade comunitária e paisagística. Uma cidade de futuro, polinuclear, como foi sonhado nos PROT AML. Sobre tudo isto nada se discute.

E, por exemplo, as diferentes visões sobre o pensar e sentir o território, também se expressa na forma como se faz planeamento, por exemplo, sobre a Quinta Bramcaamp, uns defendem a construção de fogos para ali nascer a “Veneza do Tejo”, outros defendem que aquele espaço, único no estuário do Tejo, seja uma marca de diferenciação, de ligação da cidade ao rio, onde o ambiente, as actividades desportivas e culturais, possam ser uma referência, única na AML e no Tejo. Um espaço que sendo propriedade da autarquia está ao abandono há mais de sete anos. Que futuro para este território? Que fundos europeus podem ajudar a encontrar um caminho? Nada se discute.

Outro exemplo, na zona dos Fidalguinhos, um espaço onde ser previa um amplo espaço urbano e um complexo de piscinas, agora vai receber um retail planet, 486 habitações e uma piscina.
Há quem discorde. Há quem concorde. Este, um tema que devia entrar na agenda eleitoral, sendo ou não irreversível, é, um exemplo para debater a forma de planear o território. Um exemplo que pode abrir, neste processo eleitoral, o caminho para um debate em torno do PDM – Plano Director Municipal, oriundo dos anos 90, na época tão criticado, por apontar para uma cidade de betão, e, agora tão acarinhado porque abre todas as portas para o investimento imobiliário. Sobre o PDM este é outro tema que não existe na agenda pré-eleitoral.

A péssima iluminação pública que existe, nos dias de hoje, em diversos locais do concelho. Outro tema que merecia o debate político. Saber o balanço da estratégia desenvolvida e pensar que caminhos de futuro. Nada se discute.

A Ponte Barreiro- Seixal que seria uma infraestrutura estratégica, que colocava o Hospital do Barreiro a cinco ou dez minutos do Seixal, que ligava as três pontes – as duas existentes e a TTT – não se discute. Uma ponte que permitia gerar economias de escala, ao nível de todo o território que aproximava os antigos territórios industriais da Siderurgia e CUF, colocando-os, desde já, como uma referência para integrarem a grande cidade aeroportuária.

E a ponte pedonal, junto à Estação Barreiro-Mar, e uma ampla discussão sobre todo o corredor do Coina. Que opiniões dividem? Que opiniões unem?

Enfim estas, algumas reflexões, mas há mais, muito mais…tanto, tanto, tanto…
Num tempo que o imobiliário, por razões exógenas ao Barreiro, e por razões endógenas a Lisboa, uma realidade que nada tem a ver com estratégias de desenvolvimento, mas apenas porque esta é a onda da AML, que desloca as classes médias para a margem sul e, por essa razão, cresce o investimento no território, arrastando consigo, como é natural, outros investimentos, outras áreas de negócio, directa ou indirecatmente associadas a esta erealidade, como é o caso dos investimento que estão em marcha na área da saúde.
É óbvio, que todos estes investimentos aconteciam fosse que fosse que estivesse a liderar os destinos do concelho. Isso não é problema.
A questão que se coloca, e devia estar a ser debatida, é se a forma de pensar o território deve ser centrada só, e apenas, no imobiliário, um legado político do PDM de 1994.
A pergunta que coloco é se este território resume-se a receber estes investimentos, ou se, na verdade, nele, há mais espaço para pensar e sonhar.
Gostava de escutar, naquilo que nos divide, e, naquilo que pode unir as diferenças, com entusiasmo, nestas autárquicas encontrar respostas á pergunta: Barreiro do império industrial ao Barreiro império do betão. É este o nosso futuro?

António Sousa Pereira
TE – 180
Equiparado a Jornalista

12.08.2025 - 20:07

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