inferências
BARREIRO - A(nota) mentos
Mais vida e mais cidade, para além do IMI.
Uma amiga minha, um destes dizia-me que gosta de ler os meus a(nota)mentos. Há muito tempo que não escrevo esta coluna. Por isso, decidi voltar a escrever, hoje, quando o sol se deitava, para lá do horizonte, num colorido de luz que rasgava os sentidos, e dei comigo a dar um sentido, ao sentido, do sentido que a vida dá ao final do dia.
Pensei no pôr do sol, agora pomposamente é dito sunset, porque na verdade, assim, é mais cosmopolita. Este um exemplo real da vida. Ou seja, as palavras são expressão de vida, e, quando as palavras são vazias, uma moda, uma circunstância, uma repetição, não passam de uma retórica. Platão, no seu livro Górgias, explica isso, muito melhor que Freud.
Neste fim de tarde, no ano dois mil e vinte cinco, não escuto as sirenes de fábricas, nem movimentos que agitavam as ruas, marcadas por um comércio vivo, de referência, que empregava milhares de pessoas, na restauração, lojas de roupas, sapatarias mobílias, perfumarias. A rua era um grande centro comercial. Os pássaros cantavam em sinfonia na esquina da Alfredo da Silva, ali, onde o ceguinho anunciava o Natal. O pulsar da vila, ou cidade, tinha o ritmo do trabalho, as ruas enchiam -se um colorido que dava vida à vida e rostos à cidade. Em cada esquina encontrava-se um amigo, uma amiga. Uma terra de sorrisos, de esquinas, de irreverência, de gente que arregaçava as mangas para criar futuro. De lutadores pela Liberdade e de bufos do salazarismo. Muita gente vertical, dos resistentes ao reviralho. Aquele tempo que se dizia com orgulho: Sou do Barreiro!
A terra que muitos diziam dormitório, afinal, tinha uma vida própria, uns com raízes na Miguel Pais, outros no Largo do Casal, outros no Largo das Obras, a cidade estendia os seus braços de trabalho até ao Lavradio, passando pelo Bairro da CUF, ou até Vila Chã, passando pela Quinta da Lomba, Sentia-se a cidade- concelho abraçar a Cidade Sol, Palhais ou Santo António da Charneca. Um pouco mais distante, mas, por vezes esquecida estava Coina, a Penalva, Quinta da Areia ou Covas de Coina, lugares onde, muitos, pela manhã pegavam na motorizada ou bicicleta e rumavam às oficinas da CP, às fábricas de cortiça, ou à CUF. A cidade cuja cultura se confundia com a fábrica, nas relações humanas e vivas. Uma cidade que se cruzava com o Tejo e ignorava o Tejo
Sim, a fuga de muitos de Lisboa, para esta margem, aqueles que pagavam 400 escudos por um quarto, e, vinha para aqui, onde alugavam um andar por 125 ou 150 escudos, deu origem a uma explosão demográfica.
Gente vinda de muitos lados, que cruzou suas vidas com aqueles que tinham raízes nos caminhos de ferro, ou com aqueles que se agitavam nas transformações químicas e na energia que dobrava o aço – A CUF. Uma terra de trabalho, a fábrica que fabricava. Com milhares de trabalhadores de cultura ferroviária ou industrial. Pais que davam tudo de si, para que seus filhos, ou seguissem as suas pegadas, ou, estudassem. Talvez, por essa razão, nos anos 90 do século XX, o Barreiro ocupou um lugar no podium dos concelhos, do país, com maior número de licenciados.
Ao lado dos autóctones, famílias com gerações, existiam, a partir dos anos 60 e 70, os novos migrantes, aquele que, ontem, Lisboa expulsou. Por isso, muitos diziam que o Barreiro era um dormitório. Eu, na época, interrogava-me: como pode ser uma terra dormitório, se ela tem vida própria, famílias de primos e primas, conta com milhares de posto de trabalho na indústria, na ferrovia, no comércio, no estado, na construção civíl, que enchia a vila - cidade de gruas. Foi assim durante três décadas. Casas para vender e arrendar. Num tempo que os construtores deixavam para trás, por construir, os espaços envolventes, os arruamentos, passeios e estradas, por construir e os espaços livres abandonados. Muitas destas situações resolvidas após o 25 de Abril e, ainda, nos dias de hoje, tal vai acontecendo, com a renovação de espaços urbanos degradados.
Nessas novas urbanizações, no século XX, milhares, muitos milhares, ontem, e, nos dias de hoje, século XXI, são muito mais, os que vivem cá e atravessam o Tejo, pela manhã rumo a Lisboa, rumo ao trabalho e regressam à noite extenuados. Acredito que todos eles gostavam de viver e trabalhar no Barreiro, e afirmar, bem alto, não saio de cá, nem quero sair de cá, tenho aqui a minha habitação, o meu trabalho, a minha família e adoro viver aqui. Amo o Barreiro.
Hoje, contrariamente, ao que aconteceu no século XX, que, quem vinha para cá viver e continuava a trabalhar em Lisboa, na realidade, aqui, tinha casa própria, hoje, acontece, em muitos casos, que num andar, vivem duas ou três famílias. Esta uma realidade diferente, muito diferente, que devia começar a merecer uma atenção especial.
A empregabilidade no concelho do Barreiro, que outrora lhe dava vida própria, hoje, não existe, e, aqueles que rumam a esta margem, a classe média, pela fuga do custo de habitação em Lisboa, procuram habitações de qualidade – as tais que dão muito IMI, e permitem realizar festas com muitos dias. Esses são o espelho de uma nova realidade urbana.
Uma nova identidade emergente. A fábrica, hoje, é mera retórica.
Nisto, não vejo nada de anormal. Só que uma cidade não se deve resumir a um espaço habitacional. Deve haver mais vida, e mais cidade, para além do IMI.
Enfim, era por dentro destes sentimentos que eu navegava, ao fim da tarde, a olhar o sol descer no horizonte.
E pensava, lá longe a cidade…
Sim, gosto de viver nesta cidade, não sendo a minha terra é a terra dos meus filhos e da minha neta. É a terra que adoptei como minha, aqui trabalhei, aqui sonhei, aqui aprendi a lutar pela Liberdade e pela Democracia.
Aqui, afinal, continuo a dar vida aos meus dias, a sonhar e a acreditar, que, talvez, haja mais futuro que apenas IMI, e, um dia, seja possível pensar e fazer cidade para além da herança e legado do PDM, dos anos 90.
Talvez, assim, um dia, não fiquem só por cá, e, portanto, não se vão embora, os que usufruem de uma vida profissional ligada ao estado, seja em escolas, justiça, saúde, autarquias, ou serviços sociais, cuja realidade está umbilicalmente ligada ao estado. Ah é verdade, inclusive os reformados.
Depois, o que resta, são os micro, pequenos e médios empresários, gente que arregaça as mangas todas as manhãs, para dar vida à vida, erguer e fazer cidade. Alguns, enfim, dependentes das relações e serviços que prestam ao estado. É vida.
António Sousa Pereira
10.11.2025 - 21:19
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