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Barreiro - Por dentro dos dias
«Se fosse tão simples assim…»

Barreiro - Por dentro dos dias<br>
«Se fosse tão simples assim…» O tempo roda e com a roda do tempo vai o tempo da vida. Esta temporalidade que celebramos efusivamente, como quem rasga uma barreira do tempo dentro do próprio tempo. Foguetes. Música. Promessas. As passas que escondem desejos. Beijos que assinalam o amor, a ternura a brilhar nos olhos.

O tempo roda e com a roda do tempo vai o tempo da vida. Esta temporalidade que celebramos efusivamente, como quem rasga uma barreira do tempo dentro do próprio tempo. Foguetes. Música. Promessas. As passas que escondem desejos. Beijos que assinalam o amor, a ternura a brilhar nos olhos.

A minha passagem de ano, este ano foi muito diferente das últimas décadas. Há muitos anos, que sempre optámos, eu e a Lurdes, de celebrarmos a entrada do novo ano no recanto do nosso Terrace House Loios. Festejamos com a energia de quem guarda o tempo dentro do coração, renovando no brilho dos olhos o brinde que fazemos ao futuro. Um beijo.
Este ano, sem nada estar programado, o Terrace House Loios recebeu toda a famelga – Lurdes, SP, Miguel, Xana, Rita, Neves, Alice e Marta. Oito rostos. Cantou-se. Dançou-se, Brindou-se. Uma festa animada. Foi uma passagem de ano maravilhosa, com muito amor. Todos juntos a festejar um hino ao tempo. O nosso tempo total, de vidas vividas com calor humano. Foi lindo estarmos, nesta noite, da roda do tempo, com os nossos mais queridos e sentirmos pulsar o coração, a sorrir por dentro da festa do tempo.
Sentir, afinal, que chegámos aqui, a este ano 2026, celebrando tudo o que dá sentido às nossas vidas – o amor. A família este pilar que nos une em fraternidade.

E cá estamos, no ano 2026. No dia 1 de janeiro pela manhã, fui beber a bica ao Capri, ali na JJ Fernandes, um espaço histórico, feito de memórias e saudade. Naquele lugar, enquanto saboreava o café, no meu pensamento recordei rostos ausentes. Olhei em redor, revivi sorrisos. Recordei outros tempos, outras gerações. Na TV divulgavam a notícia da tragédia na Suíça. É isto a vida. Ao sair, junto á porta encontrei a Filipa. Um beijo e os votos de bom ano. A Filipa, como eu costumo dizer, a minha tesoureira da SFAL, um braço direito de entrega, de voluntariado, de serviço à comunidade. Respeito.

Entrei no carro. Fui beijar o Tejo. A minha Catedral, um lugar onde sinto a tranquilidade do meu interior e viajo no silêncio das ondas. Olho a paisagem, a outra margem. Sempre diferente, sempre com cores que é preciso olhar e transportar para dentro dos nervos. Um barco, ao longe, navega rumo ao Montijo. Uma gaivota rasga o céu nublado. Está frio. Sinto o calor do coração animar os meus olhos. Observo a ondulação a beijar as pedras das margens. No chão estão espalhadas garrafas, estrelas douradas, marcas da festa da noite, que marcou a entrada de um novo ano.
No silêncio, recordo pessoas que partiram – o Kira, o poeta das cores e das luas a abraçar Alburrica. A minha irmã Manuela Fonseca, que tanto amava o Tejo e o seu Barreiro. Que começava os dias a dizer: “Grândola Vila Morena”, O meu amigo Emanuel Góis, poeta, que parece voar nas asas da gaivota, a sorrir e a dizer, estou aqui, escreve nas nuvens um poema, num eco de eternidade: Se fosse tão simples assim…

Saí do carro para dar um passeio, por ali, nas margens, do Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita. O fotografo do mundo que levou o Barreiro ao mundo e colocou o Barreiro na história mundial da fotografia. Que saudade da sua irreverência poética.
Um amigo cruza-se comigo, do seu carro diz : “Bom Dia Sousa Pereira. Bom Ano Novo”. Pára o carro. Aproximo-me. Um cumprimento fraterno. Como eu estava a fotografar a paisagem, ele comentou: “Vamos ter notícia”.
“Estou aqui a fotografar este recanto da Quinta da Braamcamp. Que já podia estar recuperada e ser um belo espaço de lazer.”, disse-lhe.
“Esta caldeira aqui junto ao Tejo podia estar transformada num maravilhoso a espaço lúdico e de treinos de remo. Sendo este um terreno municipal, continua assim… como se nada tivesse mudado”, acrescentei.
“Eles querem é fazer prédios por aqui”, respondeu o meu amigo.
E, sem mais palavras, olhámos uma para o outro, sorrimos, como quem diz: É vida! Seguimos os nossos caminhos. Bom Ano!

Regressei a casa. Parei a olhar o mural do VHILS, na Alameda da Rua da CUF. A CUF que está inscrita na história e nas memórias do Barreiro. A CUF nunca de cá saiu, mesmo que digam que está a regressar. Afinal, como pode regressar quem pertence ao passado, ao presente e ao futuro da história deste território. E, se for verdade o anunciado, vai integrar o futuro da AML. Coisa que está no silêncio dos desuses e ninguém fala, nem a população é envolvida. Sim, é verdade, hoje é tudo mais para consumir e calar. Cultiva-se a indiferença.
No meu pensamento e sentimentos, neste recomeço do tempo, Recordei os dias que percorria aqueles lugares. Operário Não especializado. Pau para todos os trabalhos. Trabalhava no Zinco Metálico. E, simultaneamente, mantinha o Jornal Daterra. Naquele tempo, então Quimigal, em que o Zinco Metálico, o Forno Cal, o Kowa Seiko, ainda laboravam, mas, na verdade, dentro de si, já estava inscrita a morte anunciada. Elefantes brancos. Herança do FMI. Fruto das crises internacionais que, ao longo do tempo marcam, sempre a história da humanidade.
Um tempo que anunciava o fim da desindustrialização. Um tempo no qual, a terra da resistência caminhava, a passos largos, para outro tempo, para a terra da resiliência.
Sim, anunciava-se um novo tempo. O tempo que deixava para trás a “política das carcaças” e germinava, lentamente, a “politica dos hambúrgueres”. Formas de sentir, pensar, e registar o pulsar do território.

O dia caminhava para o fim. O primeiro dia do ano de 2026. E pensei escrever uma crónica. Não tive oportunidade. E, hoje, dia 2 de janeiro ao anoitecer, sentei-me a pensar neste começo do novo ano.
As palavras saltitaram dos meus nervos, entre memórias e a vida real. Sorri.
Aqui está a primeira crónica de 2026…

António Sousa Pereira


António Sousa Pereira
TE – 180>
Equiparado a Jornalista

02.01.2026 - 23:55

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