inferências
Por dentro dos Dias - Barreiro
Tertúlia de «Os Leças» - Obrigado, Nuno Santa Clara Gomes!
O tempo vai passando e no tempo que passa inscrevemos - o presente, o passado e o futuro. A beleza da velhice é o tempo que está à nossa frente, para nele, sentirmos sorrir o conforto do futuro.
No quotidiano a vida vive-se e esvai-se. Sentimos a vida esvair-se quando, em certos momentos, um pouco da vida vivida dilui-se no silêncio do olhar. Um amigo que parte. Sorrisos que se perdem no futuro. Apertos de mão desfeitos no presente. Conversas que se forjam em memórias. Uma ruptura que rasga, em ruídos feitos miragens, todas as palavras partilhadas. Nesses momentos, o presente e o passado forjam-se na imensidão da luz que se escreve saudade. Esse ponto de encontro onde, afinal, a bruma semeia, no vento e nas trevas, a palavra igualdade. Essa igualdade que nos aguarda, intemporal, seja na terra ou no fogo. É assim, todos, amanhã, vamos renascer cinzas ou pó. Eternidade!
Escrevo estas palavras, quando ao vaguear pelo pensamento, recordava o último almoço da Tertúlia de «Os Leças». E sentia, nos meus olhos, bem vivo, aquele minuto de silêncio, que todos partilhamos, em memória de Nuno Santa Clara Gomes. Um capitão de Abril que sempre que participava naquele convívio, nos seus braços transportava as armas do riso, da ironia, da simplicidade, da bondade e da pureza, que tinha inscrita na sua sapiência, na sua cultura universalista. Ele recordava histórias da caserna, nos tempos da guerra colonial. Partilhava a sua visão, reflexão e pensamento estruturado, que tinha sobre o mundo, os conflitos geo-políticos e geo-estratégicos mundiais, os quais regularmente difundia em artigos que editava, como colunista do jornal Rostos. Um homem de Abril. Um homem culto. Um homem que deu o seu contributo pela conquista da Liberdade.
Sim, recordámos no último almoço da Tertúlia de «Os Leças», num minuto de silêncio e com um cravo inscrito em páginas de um sonho chamado Liberdade – 25 de Abril sempre!
Uma recordação pela sua dedicação ao Barreiro, a Portugal e à humanidade.
E, no final do almoço, brindámos, de copo erguido.
Obrigado, Nuno Santa Clara Gomes!
A Tertúlia de «Os Leças» é um ponto de encontro semanal, às segundas-feiras, sem compromisso. Vai quem quer. Vai-se quando tem disponibilidade. E, por ali, uns conversam sobre memórias da juventude. Outros trocam entre si bocas, aquele sereno picanço para animar. Outros partilham ideias sobre a vida actual – eleições, conflitos mundiais, vida política nacional. Não há agenda de trabalhos. Não há um programa. Há diferenças. Grita-se. Dão-se gargalhadas. Por vezes acaloradas.
Aquela malta a caminhar por dentro do tempo, de um tempo vivido. Diverte-se.
Malta com muitas memórias e muitas estórias. O Barreiro a pulsar por dentro do tempo, dos fumos da chaminés, das prisões, do amor à Liberdade. O tempo que fomos, o tempo que somos, o tempo que seremos.
Malta que continua a sonhar e tem poemas no coração.
Um ponto de encontro que forja, ou procura forjar, conversas marcadas pela diversidade e pluralidade.
E, como acontece com tudo na vida, ali, humanamente, o tempo corre rumo ao futuro. Constante. Fluído. É assim evocamos a memória dos que partem. E, festejamos o aniversário de um companheiro que deu mais uma volta ao ciclo do sol. Desta vez cantámos alegremente os parabéns ao João Pereira. Cantou-se os «Parabéns» numa polifonia que sincopava em tons que se misturavam, anarquicamente, cada um a seu gosto – metia-se no meio dos «Parabéns a você», os ecos da «Internacional», ou, os sons da «Grândola, Vila Morena».
Saboreámos um agradável bolo de aniversário. E o jovem septuagenário, soprou e mordeu as velas.
Rimos. Conversámos e Recordamos.
A vida, o tempo dentro do tempo caminhamos inscrevendo - o presente, o passado e o futuro.
António Sousa Pereira
04.02.2026 - 13:23
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