inferências
Barreiro – Por dentro dos Dias
«Barreirense! Barreirense! Sempre Barreirense!»
Muitas vezes, pela manhã, os nossos passos cruzavam-se, e, nesse encontro matinal, ou em qualquer outra circunstância, nas nossas vivências de vizinhança, o nosso código de saudação era uma marca que se repetia, em sorrisos de cumplicidade.
Ias buscar o teu jornal. Eu ia buscar o meu jornal. A leitura diária era indispensável ao nosso quotidiano. E, esse ritual, era um ponto de encontro do quotidiano, de um bairro onde cultivamos sempre relações de proximidade.
Quando te observava na rua, mesmo à distância, no teu caminhar lento e com o corpo a descair, por cima dos teus passos, de longe, tu, escutavas em eco as minhas palavras e sorrias:
“Estás um homem!”, gritava eu.
“Há grandes vidas!”, respondias tu.
Outras vezes, tu mais sereno, que só falavas quando chegavas perto de mim, mais discreto e, na verdade, nada, como eu, que sou um espalha brasas.
“Há grandes vidas!”, dizias tu.
“Estás um homem!”, respondia eu.
E, por vezes, para te provocar, porque sabia que escutava sempre, mas sempre, a mesma resposta, e, naturalmente gostava de te ouvir, ao nosso código-saudação. acrescentava a sorrir, sempre a sorrir, porque a vida, para ti e para mim, tinha o sabor de um sorriso que forjava a amizade e o respeito mútuo.
“Saudações Leoninas!”, dizia eu.
“Barreirense! Barreirense! Sempre Barreirense!”, respondias tu.
Eu dava a minha gargalhada.
Admirava a tua dedicação à vida associativa e à comunidade. Sabia que tinhas dedicado muito de ti ao Futebol Clube Barreirense, como dirigente, como associado. Sabia que tinhas o Barreirense no teu coração. Um clube que serviste com paixão. Sabes, também, como tu, fui dirigente em duas direções do Barreirense, esse clube que tu amavas e de forma alegre e feliz, dizias: “Uma esperança que não finda. Uma fé que tudo vence!”
Ontem, quando fui despedir-me de ti, na Capela da Santa Casa da Misericórdia, olhei para ti, e disse para mim: “Já não vou mais brincar contigo. Já não vou mais cruzar os meus passos com os teus passos. Já não vou mais gritar, da minha varanda, para ti, ao passares na rua : “Estás um homem”. E escutar, a sorrir, a tua resposta: “Há grandes vidas!”.
Mas olhei e senti o teu sorriso a saltitar, sobriamente, feliz, nas cores da bandeira alvi rubra que, com ternura, cobria o teu corpo, naquele lugar onde partias rumo ao silêncio da eternidade.
Sim, é verdade, nos teus mais de 80 anos, continuavas a dar de ti, todos os dias, servindo a comunidade na vida associativa. Muitas manhãs, via, diariamente, a tua partida para cumprires a tua missão de Tesoureiro, da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro. Outra bandeira que, na despedida, tinhas aos teus pés. Eras um exemplo de dedicação à comunidade. Estava no teu sangue, está no sangue de todos barreirenses, camarros de gema, que, na verdade, sempre sentiram na vida associativa a forma de dar um contributo para fazer um mundo melhor e viver a palavra solidariedade. Acho que foi isso que sempre te animou – servir a comunidade.
Soube em Dezembro, numa conversa com a tua enorme companheira, Vanda, e, também em conversas com o teu filho David, que estavas a travar uma batalha dura, aquela que era um combate pela vida. Afinal, é esse o combate que todos nós travamos todos os dias. Essa luta pela vida, que é a luta que nos anima a sonhar, e, sabermos que, de certeza, um dia partimos, envolvidos num requiem de Mozart, que nos conforta até à eternidade.
É isso Luís, talvez um dia nos possamos encontrar, e, quando olharmos por dentro do silêncio, eu vou gritar : Estás um homem!”
E, não te esqueças, nunca te esqueças, tens que responder: “Há grandes vidas!”.
Sim, grandes vidas, como a tua foi, de permanente serviço e entrega à comunidade, de forma discreta, de forma serena, de forma humilde, nos bastidores, dando de ti, sem querer mais nada em troca se não esse conforto de estares feliz e, dentro de ti, saberes que ser feliz é ser um Homem Bom.
Sabes, no nosso bairro ficou mais um vazio, fica sempre um vazio quando deixamos de escutar a ternura de passos que conhecemos, ou o sorriso da partilha de olhares, ou escutar a força de palavras que cultivam a amizade.
Um bairro somos todos nós, na beleza de olhar um amigo, olhos nos olhos, a sorrir, sempre a sorrir.
É isso – Há grandes vidas! Há grandes Homens!
Até amanhã!
António Sousa Pereira
Fotografia - Jantar de Natal da vizinhança
Urbanização dos Loios. Tasca das Gêmeas
09.02.2026 - 01:46
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