inferências
A(nota)mentos - Um passeio no Parque da Cidade do Barreiro
Não somos começo, somos sempre duração e alteridade!
Por António Sousa Pereira
Os dias correm, o tempo esvai-se no quotidiano. Mais que viver um dia de cada vez, o que é lindo é viver um dia todos os dias. Vivemos e sentimos, quando navegamos pela memória, a beleza do tempo, a energia da memória, essa ponte que une o que somos ao que fomos.
Março é um mês que sempre vivi com intensidade, talvez porque nele a vida recomeça a florir, os dias crescem, a energia solar aquece os nervos. A luz faz o dia estender-se pelo anoitecer. O tempo de equinócio. O tempo do começo da primavera. O tempo que permite que os dias abracem a natureza.
Ontem, pela manhã, serenamente e sem pressas, dei uma volta pelo Parque da Cidade. Um espaço vivo, um oásis, um lugar onde sentimos a natureza a entrar nos ossos, escutando o chilrear dos pássaros, deslizar os olhos no canto polifónico dos galos, deitar os sentidos no murmúrio da água a correr, borbulhando, a rasgar o silêncio. A natureza. O campo. O pulsar da vida. Lá, longe, bem perto, os gritos humanos da cidade.
Caminhando, passei junto ao Auditório Municipal Augusto Cabrita, encontrei antigos companheiros da autarquia, lá estava o Canelas, um nome indissociável das actividades musicais. Uma enciclopédia de saber vivido.
Ali, recordei, olhando aquele espaço (a carecer de uma pintura), que no dia 16 de março, decorreu o 103 º aniversário do Mestre Augusto Cabrita, e, na minha memória ocorreram centelhas de discursos que escutei. Sim, as promessas anunciadas, ali, ditas naquele AMAC, quando da celebração do centenário do seu nascimento. Promessas que não passaram de promessas, porque, até aos dias hoje, continuam por realizar. Enfim, promessas anunciadas nas circunstâncias. A vida é assim, os discursos são bonitos para marcar as circunstâncias.
Recordei que foi anunciada, a criação de um espaço, na Casa da Cerca, que seria dedicado a manter viva a memória do Mestre, através da divulgação permanente da vida e obra do Mestre Augusto Cabrita. Era, sem dúvida, uma decisão com visão estratégica, que podia ser um importante contributo para criar as condições, essenciais, que permitissem colocar a cidade do Barreiro, cada vez mais, na rota do mundo da fotografia.
Uma cidade tem que criar, no seu marketing territorial, âncoras que contribuam para dar força à sua dimensão cultural ao nível regional, nacional e internacional. O Mestre Augusto Cabrita é uma marca, uma ferramenta, um elemento estratégico de grande dimensão cultural, através da memória e obra do Mestre, podia potenciar a fotografia, como elemento estratégico de promoção da imagem da cidade, quer no plano do turismo, quer no plano de dinamização de eventos.
Uma obra como a obra de Augusto Cabrita, não se promove, nem se valoriza, porque atribuímos o seu nome a um cetro cultural, a uma escola, a uma rua ou a um passeio ribeirinho. Isso é o reconhecimento, a gratidão. O Obrigado Mestre!
Uma obra como a do Mestre Augusto Cabrita para ser estruturante na dimensão cultural, tem que ter um plano de trabalho, uma visão estratégica, que não se limite a circunstâncias. Tem que ter espaço. Tem que ter parceiros. Tem que ter investigação. Tem que ter passado, presente e futuro. Tem que ter projecto.
O Mestre Augusto Cabrita, tem espólio, na fotografia, no cinema, na televisão, e, a sua obra tem dimensão histórica que, estudada, estruturada, colocava, sem dúvida, a cidade do Barreiro com uma centralidade de referência na arte do audiovisual na área metropolitana de Lisboa, no país, e, ao nível internacional.
Por exemplo, no próprio AMAC, para além do nome e de uma fotografia, até aos dias de hoje, não descobriram um recanto, um nicho, que permitisse aos visitantes ficar a conhecer um pouco a vida e obra do patrono do local.
Mas, a tal, a Casa da Cerca, seria naturalmente a primeira semente de uma estratégia que, também, para quem gosta de pensar e viver para os números, certamente um dia iria dar os seus frutos. A cultura é geradora de economia.
Ah, é verdade. no centenário, igualmente, foi anunciada edição de um livro, histórico, inédito, com trabalhos do Mestre, até aos dias de hoje, tal, também não passou dos tais rumores anunciados, nos discursos de circunstância.
Continuei a minha caminhada, enquanto circulava e escutei o riso e os gritos das crianças a brincar na tenda, aquela que foi inventada nos tempos de Emídio Xavier, e, ao longo dos anos tem sido um ponto de encontro e de realização de actividades culturais, e desportivas e eventos ligados à natureza.
O Parque da Cidade foi inaugurado no ano 2000, na gestão de Pedro Canário – CDU – quando da inauguração as árvores então existentes, tinha sido acabadas de plantar, e, na realidade, nem sombra davam aos pés.
Não faltaram as críticas, das forças da oposição, principalmente do PS, propagando a ideia que, aquele, era um – “parque no deserto”.
Vou passeando, sinto a natureza nos meus sentidos, novos espaços, os Campos de Padel, os painéis a alertar para a biodiversidade do espaço. Visite e observe.
Olho para trás no tempo, viajo pelas memórias, recordo que, em boa hora, foi decidida a construção do Parque da Cidade, criando um pulmão verde no tecido urbano. Uma delicia, um exemplo que demonstra como é necessário, no pensar e fazer cidade, abrir espaços para respirar.. A cidade não é só betão.
Sentado, ao cimo, perto da porta de Santo André, olhei a paisagem. Meditei : “Este Parque é um exemplo, real, de um tempo que não se fazia nada. Um tempo que o Barreiro, dizem, os «presentistas», parou no tempo. E afinal, esse tempo legou futuro”.
Cá estamos, na Primavera, um, tempo que marca o equilíbrio entre a luz e a escuridão. A Primavera é renascer. Sempre! E neste mergulhar pelas memórias, recordei que Março, foi o tempo que anunciou Abril, naquele dia 16 de março de 1974. A viagem de comboio que fiz de Leiria para Lisboa. O Quartel de prevenção. O sermos recebidos na Estação do Rossio, com um aparato militar, que fazia lembrar os filmes da Guerra Mundial. A Polícia Militar a ocupar a gare, de metralhadoras em punho, e nós, que tínhamos finalizado a recruta e a especialidade, encaminhados paras os camiões Unimogs. Eram tempo duros, mas tempos lindos, de sonhos e de esperança.
Esse tempo, que o Barreiro tinha orgulho de ser resistência e terra de Liberdade. Esta terra onde, na realidade, na cidadania vivida, aprendi a amar a Liberdade.
Gostei de dar o passeio pelo Parque da Cidade. É agradável caminhar por um lugar onde respiramos. Um espaço com memória. Um espaço com presente. E só, onde existe memória do passado e energia do presente, é possível pensar futuro.
Quem quer desconstruir o passado para reinventar um presente, feito de puro presentismo, está a negar a memória e abre caminho para incertezas. O mundo é sempre um legado. Não somos começo, somos sempre duração e alteridade!
É por isso, apenas por isso, que é preciso pensar cada parcela do território, cada lugar, cada sitio, como elementos estruturantes de um todo – o concelho. Um concelho cidade!
António Sousa Pereira
TE – 180
Equiparado a Jornalista
26.03.2026 - 22:49
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