inferências
A(nota) men tos - PALMELA Grupo de Teatro ACEITA
Quando o teatro é um encontro de gerações e amor à Liberdade
Comemorar o 25 de abril é reviver emoções lindas, sentir que, a Liberdade continua a renascer, em cada ano, sempre nova, no quotidiano, por dentro dos nervos dos ossos e penetrando nos nervos da alma. Neste dia gostei, sempre gostei, de sentir, puro e limpo, o sabor da palavra Liberdade.
Viver o dia da revolução, em tranquilidade comigo mesmo, com serenidade, sem agendas, apenas partilhando a vida real, com a comunidade, com pessoas, com vida, com futuro, sentindo as cores de abril, florir em todas as cores, a rasgar a luz do sol brilhante, para além, muito para além, de palavras de circunstância. Quero viver abril sempre renovado em esperança. Liberdade!
Abril é Amor
O meu 25 de abril, neste ano de 2026, começou no Café Bar da SFAL, com o grupo de Teatro Infantil – TISFAL – numa performance «UMA MANHÃ A FLORIR», deliciosa, Foi com garra e emoção à flor da pele, que os jovens actores e actrizes, recordaram os tempos da repressão e do silenciamento. Foi lindo. Neste tempo que tanto se cultiva o ódio, ali, vivi um acto de ternura. Um acto de amor. Amor à vida. Amor à Liberdade.
Foi uma manhã excelente um encontro de gerações a cantar a Grândola. Emociona quando, olhamos para o lado, e, registamos as lágrimas a beijar um rosto de cabelos brancos, e, no mesmo ângulo, está uma criança de cravo erguido a sorrir. É isto o 25 de Abril. Puro e limpo.
Fomos almoçar em família, no Clube da Vela do Barreiro, a olhar o Tejo, onde, como diz o poeta, está tudo o que lá não está. A poesia. O trabalho. A distância entre duas margens. Sim, é verdade, “pelo Tejo vai-se para o mundo”. Afinal, Abril é Amor.
Abril é cultura participada
Depois, de tarde, rumei até aos limites do concelho do Barreiro, ali, onde a Penalva e a Vila da Serra abraçam a Quinta da Marquesa.
Quando entrei na sala o conjunto TOKAMAR, animava o baile, alguns pares dançavam divertidos. Em volta, as cadeiras, todas ocupadas a assistir. Recordei os bailes que, em tempos idos, animavam a vida das colectividades. Saudade.
O presidente da direção dirigiu-se a mim: “Então o que tráz o Rostos por cá”, interrogou. “Vim a convite da Susana”, respondi. Conhecemo-nos da UTIB, ele, leciona, e, é membro do Conselho Geral da UTIB, que também já integrei, e, nem sei se ainda integro.
Não conhecia aquele lugar. Nem aquelas boas instalações da Associação de Moradores da Quinta da Marquesa. Nunca ali tinha ido.
Foi o convite da minha amiga Susana, na verdade, que motivou, com entusiasmo, agendar esta tarde do 25 de Abril, por aquelas bandas rurais do concelho de Palmela. Afinal, uma tarde, que veio ao encontro do que gosto, essa vontade de viver abril no seio da pureza dos seus valores. Abril cultura participada.
“Caso queira comemorar a tarde do dia 25 de abril com teatro, recomendo ir à associação de Moradores da marquesa”, escreveu, numa mensagem a Susana. La fomos, eu e a Lurdes. Valeu a pena. Valeu mesmo a pena.
Alentejo nas vozes vibrava em ecos de saudade
Para além de uma peça de teatro, que levou ao palco «miúdos e graúdos». Escutei o cante alentejano, pelo Grupo de Cantares Modalentejo. Um grupo de mulheres com ternura no rosto e a beleza de uma vida marcada, nos olhos, de muito trabalho e amor. Vozes suaves, com cântico polifónico, como exige o cante. Cantavam o Alentejo que, nas suas vozes, vibrava em ecos pelas searas verdejantes de saudade.
Nunca desistas dos teus sonhos
Ainda, vivi a actuação musical proporcionada pelo Grupo Pachulia, que encheu a sala num coro de juventude – percebi que o refrão era «Ai Soledad». Perguntei a uma jovem qual era o significado, daquele canto o qual todos participavam com entusiasmo. Respondeu-me que «soledad é ir sempre a andar, é ir sempre em frente, caminhar e nunca parar”.
Fiquei com a ideia que aquela canção – rock - era um desafio – vai sempre a andar nunca desistas dos teus sonhos. Eles comentaram que as suas canções eram, também festejar Abril. Pensei, sim :«É isto Abril!».
ACEITA - um verdadeiro encontro de gerações
E, os cenários começaram a ser instalados, o equipamento audiovisual a funcionar. Não soaram as «pancadinhas» de Moliére, mas, sentiu-se que o espectáculo estava prestes a dar vida ao espaço.
A hora do teatro é sempre hora de festa. O Grupo de Teatro ACEITA, apresentou a peça «O Zé das Moscas ou as Moscas do Zé».
De salientar que o grupo é composto por um colectivo de mães, pais, filhas, filhos, que nos seus tempos livres, com muito carinho, na partilha de encontros, enriquecem a vida da comunidade, dando vida a este projecto que, sem dúvida, é um verdadeiro encontro de gerações. Unidos pelo amor à arte, unidos pelo amor à cultura, unido para celebrar o 25 de Abril. Unidos para erguer a palavra Liberdade.
Os bufos essas moscas que zumbiam…
Uma peça que recorda as cartas escritas por bufos a denunciar à Polícia Política, a PIDE, os vizinhos, os amigos, de cosias insólitas. Numa sociedade antes de Abril, onde o medo inscrevia-se no quotidiano. Os bufos essas moscas que zumbiam, zumbiam…
A vida quotidiana do antes do 25 de Abril, numa azáfama abre de forma épica o espectáculo – o cauteleiro, a vendedora de peixe, o Zé da Moscas, as moscas, num zumbido que tocava os nervos e fazia soar algumas gargalhadas.
O público subitamente entrou em cena, o cauteleiro parou junto de mim e disse: «Queres uma cautela Sousa Pereira». Sorri. Era um conhecido associativista do Barreiro. Crianças. Jovens. Mães. Pais. Emoção. Teatro é isto emoção.
Ana Catarina Sousa, a encenadora, no papel de Zé Mosca, desempenhou de forma viva, intensa e dinâmica a sua personagem. Ela é um ponto central na peça. Nunca está só e procura de forma entusiasta dialogar com os outros personagens, dando-lhes espaço para contracenar. A peça tem ritmo desenvolve-se com fluidez, sem pontos mortos, as marcações estão devidamente enquadradas, os cenários enquadram com a simplicidade o espaço cénico, o guarda roupa está excelente e dá vida própria às diferentes personagens.
Teatro é encontro de gerações
«O Zé das Moscas ou as Moscas do Zé» é uma peça inspirada num texto de António Torrado - «Teatro às três pancadas».
Teatro é o texto, e, no Zé das Moscas, o texto está bem estruturado.
Teatro é a interpretação do texto, é dar vida ao texto, e está bem interpretado de forma permitir a quem vê – que o sinta e o pense.
Teatro é encenação que dá vida, cor, imaginação. A arte no espaço. Há criatividade.
Teatro é amor à arte dramática, e, na verdade, todos, em palco, pais e filhos, viveram de forma apaixonada e intensa toda a peça. Ergueram um espectáculo divertido, com uma mensagem carregada de grande actualidade – as moscas andam por aí – e, com alegria, deram voz as sonhos do 25 de Abril.
Teatro é encontro de gerações. E naquele palco as gerações deram as mãos erguendo cravos de abril.
Teatro forja amizade, e. é essencial para dignificar a vida de uma comunidade. Uma comunidade que vive o seu teatro, com o coração, é uma comunidade que está viva.
Diverti-me, gostei e sonhei – Abril!
Na verdade, tenho a convicção, que para colocar em cena este espectáculo na sua pureza e simplicidade foi necessária uma grande entrega, muitas horas de trabalho, muita diversão, muito amor à vida, muita partilha. Acredito, todos divertiram-se, sonharam e criaram amizade.
Eu diverti-me, gostei e sonhei – Abril!
E, no final, cantei naquele coro enorme, a «Grândola Vila Morena», com entusiasmo e com o vosso entusiasmo, escutando o cântico e sentindo que erguiam bem alto a palavra : Liberdade.
Sim, foi uma tarde onde vivi e senti – o sabor da palavra Liberdade, neste abril de 2026.
Abril é participação
Uma nota final, gostei de registar a presença de Ana Teresa Vicente, presidente da Câmara Municipal de Palmela que, para além das palavras de saudação, marcou presença, aplaudiu e recordou, com simplicidade, que o 25 de Abril, é, acima de tudo vivermos o direito de participar na vida das nossas comunidades, fazendo cultura, e, essa é a melhor forma de manter Abril vivo.
Abril é participação, tem que ser participação, Foi isso, tudo isso que senti, no dia 25 de abril, do ano dois mil e vinte seis, ali, na fronteira dos concelhos do Barreiro e Palmela, há um povo que vive abril, num encontro de gerações, com alegria e solidariedade.
Obrigado pelo convite. Que bela forma de viver o dia 25 de Abril.
Encerrei o dia, pela noite dentro, na SFAL, a cantar Zeca Afonso, Fanhais, Adriano, com Toni Costa e Octávio.
António Sousa Pereira
TE – 180
Equiparado a Jornalista
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02.05.2026 - 20:10
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