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Janela da Cidade – Convite a Participar
Barreiro antigo e moderno
Por Miguel Amaral

Janela da Cidade – Convite a Participar<br />
Barreiro antigo e  moderno<br />
Por  Miguel Amaral Abre-se a janela da cidade e revela-se, a partir dela, de rompante, aquela luz única e característica do Barreiro, um céu azul atlântico, o verde glauco da água do nosso Tejo. Por entre os novos edifícios, altos, monolíticos, construídos nas zonas mais centrais da cidade e financeiramente inacessíveis à maioria dos barreirenses, descortinam-se as velhas chaminés de “tijolo burro”, hoje obsoletas e despidas, mas que já ostentaram corajosas bandeiras vermelhas num ato de resistência antifascista e operária ao fascismo do Estado Novo.

Vêem-se, os edifícios decadentes das antigas fábricas, os moinhos de vento, e de maré e seus actuais sucedâneos mal amanhados; vislumbram-se vestígios dispersos, espoliados, abandonados da indústria manufactureira, ferroviária, piscatória, moageira, naval, vidreira, outrora principais actividades económicas e criadoras de trabalho para várias gerações de barreirenses. Subsistem inúmeras associações, colectividades e cooperativas – muitas com largas décadas, algumas centenárias e outras mais recentes – que apesar de se debaterem com graves problemas infraestruturais (telhados e paredes, precários, infiltrações, falta de verbas e de outros recursos) vão, à sua medida, com um inacreditável esforço, desenvolvendo actividades artísticas e desportivas, agregando e formando pessoas, suprindo necessidades e fortalecendo a nossa cultura e o nosso tecido social.

Em contraponto, num registo mais mediático, vamos vendo um ou outro “co-working space”, onde os “locals” e os “expats” (imigrantes com dinheiro) fazem as suas “online meetings” em “business pods” insonorizadas. Passamos pelo “hostel” e pressentimos o advento florescente de várias “guest houses” e “boutique hotels“. Rejubilamos com o projeto de um novo hotel em plena “riverfront” e vamos ouvindo falar do fracasso da espécie de “eco resort“ habitacional planeada para a Quinta do Braamcamp, cujos planos passam agora pela aposta numa urbanização de habitação acessível “premium” – “um pouco de luxo democrático para a nossa classe média, que já bem merecia”, e ainda “um fantástico activo ‘Triple A’, sem qualquer risco durante décadas para os ´hedge funds´ internacionais” – como explicarão, eventualmente, alguns “decision-makers” num tom seguro e jovial perante câmaras, microfones, “drones” e devidamente difundidos nas redes digitais. Não passa despercebida a nossa “start-up incubator”, tão prolífica em “workshops”, “masterclasses”, “bootcamps”, “coaching” e “mentoring”, mas ainda tão parca em termos de “firm creation”, “product & service innovation”, “job generation” e “scalability”. Ouvimos conversas e ideias sobre a forma como o “real state”, os “innovation hubs” e as “creative industries” criarão um “business park” mais vibrante, em redor da antiga avenida das nacionalizações, e atrairão “digital nomads” e outros “newcomers”, mais jovens, com mais qualificações e maior poder de compra. Todo o “lifestyle” destes novos “content creators” requer a criação de, por exemplo, diversos “fitness clubs”, “wellness centers”, “street food courts”, “gourmet markets”, “beach clubs”, “rooftop bars” e variadas “pop-up stores” e “marketplaces”. Este contexto fará com que sejamos, certamente, premiados enquanto “Best Customer Experience Award”, “Best Digital Transformation City”, “Best Lifestyle Destination”, ou algo similar, por entidades supostamente independentes, que afinal são aparentemente pagas pelos municípios que elas próprias avaliam.

Os nossos políticos, “influencers” articulistas de jornais vão reforçando, de forma visionária, determinista e amplamente coadjuvada pela inteligência artificial, que todo este “storytelling” e “branding” irão atrair os “sponsors” certos e promover as “partnerships” de que todos nós precisamos para fazer o “scale up” para uma verdadeira “smart city”. Podemos até ficar aborrecidos com todos estes neologismos que muitos dos barreirenses nem decifrarão à primeira, mas prometem-nos que vamos crescer, que vamos gerar infinitos postos directos e indirectos de trabalho e cria-se uma ideia clara e generalizada de que, no Barreiro, o futuro é agora e que estamos a fabricar orgulho local.

De manhã, ao levar o meu filho mais novo à escola primária, durante o percurso que demora 5 minutos a pé, vamos falando os dois de tudo isto e observando as pequenas diferenças que encontramos na cidade. Cruzamos também o olhar com dezenas de transeuntes – cada um com as suas histórias de vida, origens, trajectos, desejos, frustrações, formas de estar, de ver o mundo e o concelho onde residem – e fazemos diariamente um jogo: contamos o número de pessoas que passam por nós e que paramos para cumprimentar. O Edmiro, o Severo, a Alice, a Inês Amado, o Jóia, o Rafa, o Beto, a Ana Antunes, a Isana, o Jorge Choupana, tantos e tão diferentes todos os dias, e digo ao meu filho que a riqueza e densidade de uma comunidade se pode medir não pelas modas e pelas fórmulas serôdias que vão sendo importadas, mas sim pelo número e qualidade das ligações que temos aos membros dessa mesma comunidade. Falo frequentemente com os meus três filhos sobre cultura e identidade, digo-lhes que a cultura não se estimula através da oferta de um cheque meramente virtual, nem pelo critério da bilheteira ou pelas leis do mercado, nem se traduz só na existência de programação artística ou de eventos culturais – é todo o sistema de significados, práticas e símbolos que permite a uma comunidade reconhecer-se, comunicar e transformar-se. Tento desconstruir a ideia de que há um Barreiro “trendy” e “cool” que devemos abraçar e um Barreiro “vintage” e “retro” que devemos descartar. Transmito-lhes a importância da articulação entre os diversos tipos de património: imaterial, natural, ambiental, paisagístico e tangível. Descubro e co-crio com eles, todos os dias, um conjunto de formas e de expressões simbólicas através das quais vamos dando sentido à nossa vida em comunidade. Falo-lhes empenhadamente do Barreiro antigo e moderno: cultura, identidade, ideologia, memória, confiança, combatividade, a força dos elos fracos; sempre com a plena consciência de que os meus filhos serão o maior contributo que jamais poderei dar à minha comunidade.

Miguel Amaral

01.06.2026 - 06:07

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