inferências
BARREIRO - Por dentro dos dias
GRATIDÃO!
Hoje, talvez, porque o calor aquece os nervos e sinto, polifonicamente, que as palavras ficam presas nos olhos, sons a navegar por pensamentos que semeiam amor, apetece-me escrever sobre a palavra, e, melodicamente, sentir a palavra GRATIDÃO.
Gratidão por, neste mês de Julho, aquele que é o primeiro mês inscrito na minha vida, sentir, infinitamente, que todo este tempo vivido foi sempre uma aprendizagem, de avanços e recuos, de momentos solitários, de momentos de trabalho de equipa, porque a vida é construída com os outros, trabalhando, transformando, crescendo, construindo, como quem parte pedras para, com elas, construir, troço a troço, a calçada por onde vai fazer sua caminhada, passo a passo, de forma permanente, sorrindo na descoberta da beleza vida. Viver é amar o tempo que fomos e o tempo que somos. É isso que faz brotar a ternura e dá beleza aos dias. O final é, sempre, aquilo que deixamos, para crescer no futuro.
Gratidão por sentir que, sem dúvidas, desde o dia que descobri o seu valor, naqueles dias de silêncio, antes de Abril, abracei a Liberdade como um valor, uma bandeira que nos dias difíceis, nas horas sem esperança, abraçava e prendia nos meus braços. Contigo Liberdade aprendi a força das palavras, a beleza da humanidade e a sabedoria que magnetiza o coração. O amor ao porvir! Tu és isso - Liberdade!
Gratidão por sentir que a vida é bela, muito mais bela, muito mais rica, sempre que a vivemos com causas que nos dão razão para viver os dias, com valores, paixões, sonhos, mesmo aqueles sonhos impossíveis, mas que transmitem a energia que faz brotar na consciência a tranquilidade que nos diz: valeu a pena sonhar, valeu a pena amar, valeu a pena sorrir. Valeu a pena a entrega plena à vida. E sentir, que nada apagará tudo o que fomos, tudo o que lutamos, e, com saudade a brilhar nos olhos, vivemos a alegria de sermos sempre nós mesmos. O resto é o resto!
Gratidão por sentir que não é o ódio que transforma a vida, que é pelo amor que erguemos os olhos ao sol, que iluminamos as trevas, que descobrimos a penumbra do luar e, nesses instantes, sentimos como é sublime a verticalidade de estar, sentir, ser, viver, ou mesmo, se quiserem - morrer de pé! Porque morrer de pé, acreditem, é solenemente estar de pé, com a esperança, em silêncio, a gritar no coração a palavra - Fraternidade!
Gratidão, sim gratidão, por ser cidadão, ser homem na cidade, ter opinião, ter opções, não ter medo de enfrentar a calúnia, a inveja que quer amordaçar, nem os sorrisos de quem, um dia, tal como eu, vai partir para o infinito da eternidade e ficar, silenciosamente, no universo. Sim, sentir a gratidão de erguer a voz e cantar, de erguer a voz e sorrir, de erguer a voz e acreditar nas potencialidades inscritas, ao longo dos anos, em palavras solidárias. Sentir que fazer jornalismo local é, inscrever memórias no futuro. Pluralismo. Democracia. Cidadania.
Gratidão por sentir que o sonho de comunicar, partilhar ideias, construir, comunicar, é um valor nobre que permite sentir a consciência livre, e, na vida quotidiana, as palavras a transformar-se num pássaro, azul a colorir as nuvens brancas, a voar por dentro no tempo, sorrindo ao sol, como se fosse um colibri sozinho, mas feliz, heroicamente feliz, a voar entre as chamas do silêncio da cidade. Voando, só porque é preciso voar, só porque é preciso amar, sem preço…e ser livre, livre, livre!
Gratidão por ter sonhos, muitos sonhos, desde criança, na adolescência, na idade adulta e na velhice, hoje e sempre, ter a certeza que não é preciso cultivar o ódio, nem querer ser senhor de uma verdade única, nem precisar de ser maniqueísta, dividir para reinar, ou querer ser senhor de um mundo de servos, de pensamentos a preto e branco, de maus e bons, de ilusionismos que escondem ambições de poder, dinheiro, ou, apenas aquela situação residual de sobrevivência. Olhar tudo isto e de cabelos brancos, mesmo na recta final dos dias, erguer com emoção as ondas de uma enorme esperança a vida, continuando esta caminhada, com a consciência livre, com o aroma das paixões, que ficam inscritas nos ventos da memória, e, no vento que sopra nas asas, sentir essa certeza, como dizia Galileo que a terra move-se em torno do sol, esse astro que ilumina o dia, e, solenemente, faz a noite brilhar na penumbra do luar. É isso a esperança!
Gratidão por saber que tenho limitações, muitas, mesmo muitas limitações, que não sou perfeito, nem quero ser perfeito, e, afinal, que apenas tenho uma certeza, quando olho para trás, gosto de tudo o que vivi, gosto de tudo o que abracei, gosto de tudo o que amei, gosto de tudo o que aprendi, em todas as situações, em todos os contextos, em todas as relações humanas, em todos os medos e todos as alegrias. Lições de vida, que dão tranquilidade. Vivi todo o tempo, de corpo inteiro, com aquela paixão de quem ama a vida de forma plena e fraterna. Amando os dias. Vivendo os dias. «Pai, és um sonhador!» – diz a minha filha, Rita.
Gratidão por todas as aprendizagens, que as relações com os outros motivaram, com os acontecimentos, com todos os contextos e situações. Vivi tempos de lágrimas e amor. Vivi os dias de Allende. Os dias de Timor. Os dias de Covid. Os dias da crise financeira. Os dias da guerra colonial. O Vietname. As Torres Gêmeas. Sentado no sofá assisti à Guerra no Iraque, Vivi os dias dos blogues. Do nascer da internet. Os dias da Televisão. Corri a fugir da política de choque no funeral do Ribeiro Santos. Vivi o tremor de terra de 1969. «Filho anda para aqui, morremos aqui os dois», dizia o meu pai, enquanto me abraçava e eu escutava um urro sonoro e uma onda a fluir nos meus pés. Escutei, com lágrimas, os cânticos no dia da partida do Zeca Afonso. Vivi o dia 25 de Abril, como sendo um antes e um depois, num tempo puro e limpo, feito de sonhos e amor que se escreviam com a palavra Liberdade. Vi forças políticas absolutas ruir como baralho de cartas. Vi homens arrogantes a embebedar-se para sentirem a vida. Um dia hei-de escrever sobre tanta coisa que vivi, porque a vida, para mim, foi sempre um tempo para viver e para transformar os dias. Sonhar com um mundo melhor. Tudo são lições, umas boas, outras más. Uma coisa é certa, na vida, aprendemos com os erros. Acreditamos. E os erros, afinal, surgem como o desbravar de eurekas que abrem caminho para descobrirmos a verdade. Essa que é a busca permanente da ciência, da filosofia, da teologia, do homem que se interroga. O que é a verdade?
A verdade, meu Deus a verdade. Tantas pessoas que morreram, e continuam a morrer, por verdades, pela razão e pela fé. É vida! Ah, é verdade, «quem nunca errou que lance a primeira pedra»!
Gratidão por ter uma certeza, com convicção, que o mundo não começou comigo, que não sou o princípio da história, que não estava tudo por fazer quando entrei na vida, e, também, sei que o mundo não vai acabar quando eu partir. Outros vão continuar. A vida é sempre uma continuidade – sementes, flores e frutos. O mundo só começa no zero para quem vive a vida a iludir-se e a vegetar no próprio umbigo. São perfeitos, tão perfeitos, que ignoram uma coisa simples que a minha neta Alice, um dia me disse : Avô nada é perfeito! Quando eu lhe dizia que, ela, tinha desenhado um coração perfeito.
Gratidão, porque estas notas sobre gratidão não nasceram do nada ocorreram-me quando, este ano 2026, no recente primeiro domingo de Julho, o Padre João, no decorrer da homilia da missa, em que decorreu o baptismo da minha Alice, falou de gratidão, e, com os olhos colocados nos olhos de todos, dizia: passamos a vida a falar mal das coisas, da vida e dos outros, de tal forma que esquecemos as belezas dos dias, a gratidão que devemos à vida – o amor!
É verdade, nesse domingo, o Padre João alertou-me, mais uma vez, para algo que já tinha pensado com os meus botões a importância da palavra gratidão, nas nossas vidas. Registo que, nesse mesmo dia, discretamente, o Padre João, dirigiu-se a mim para me ensinar o valor do silêncio num espaço de culto. Pois é, Padre João, é o meu eterno defeito. Sempre assim foi - falo demais! Sempre senti o pulsar da vida, em todos os instantes, e, ali, naquela Igreja, onde um dia partilhei o amor e a força das palavras, inscritas nos Direitos Humanos. A emoção toca os meus sentidos. Naquele tempo, em troca recebi um livro do Padre Joseph – Teologia da Libertação! Onde estão expressos os pensamentos partilhados pelo Monsenhor Óscar Romero, que dá o nome do Largo da Igreja. Monsenhor Óscar Romero, canonizado pelo Papa Francisco. Um nome abraçado pelo meu amigo Padre Rodrigo, com grande Amor! Um nome que, sem dúvida, faz parte da história dos Padres Operários, que germinaram a comunidade católica do Lavradio.
Gratidão, é uma palavra que deve ser sentida e vivida com coragem. É, essa coragem de dizer : Obrigado! É, essa a coragem da compaixão. É, essa a coragem de pedir perdão. É, essa coragem de dizer: Boom Diaaa! É a coragem do discernimento.
É, essa a coragem de amar e partilhar os dias, na sua plenitude, e, neles, tudo o que somos na sua totalidade. Emoção. Razão. Espiritualidade.
Gratidão é, afinal, essa coragem de estar grato pelo que recebemos de todos os que nos antecederam e sermos gratos por tudo o que deixarmos aos vindouros. O nosso legado – de fé, amor e esperança, como continuidade da vida que se faz, ou devia fazer-se, sempre com a palavra Dignidade.
Dignidade é a gratidão do tempo que vivemos, a força que nasce, todos os dias, na gratidão à vida – eu, tu nós!
Por isso, só por isso, e, porque é lindo, desejo que no meu legado fique inscrita, com amor, a palavra – GRATIDÃO!
António Sousa Pereira
9 de Julho de 2026
TE 180
09.07.2026 - 22:16
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