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HAVEMOS DE VENCER
Por Armando Teixeira
Barreiro

HAVEMOS DE VENCER<br />
Por Armando Teixeira<br />
Barreiro Na mesa da presidência está o velho senhor Cabanas e um tenente da Guarda que irá interromper a sessão quando se falar das guerras em África, um tema proibido mas várias vezes reiterado por interventores e candidatos.

No “Operário” também se grita no final da sessão com mais de mil participantes: “CDE!”, “CDE!”, “Liberdade!”.

Para lá chegar tínhamos de atravessar a zona fabril pela Rua da União, um caminho público onde se sentiam os ruídos e os cheiros característicos das fábricas em laboração continua. Espreitando pelas baias, experimentava-se o espanto de ver as enormes e diversas instalações fabris profusamente iluminadas, no local de atravessamento Norte/Sul do Complexo Químico, portão de entrada e saída histórica das Fábricas durante gerações de obreiros.
Vislumbrava-se num repente um mundo fantástico de luzes, de viaturas e de máquinas em movimento, de homens ao ritmo cadenciado das tarefas em mesteres complementares, todos trabalhando num exército de produção organizada e socialmente relevante, criando riqueza sem divisão equânime.
Com um pouco de sorte podia-se assistir à passagem do comboio com um apito estridente ouvido à distância, uma pequena máquina resfolgando e puxando na sua aparência frágil, um número espantoso de vagões de pirite, ou de adubos, ou de outras muitas matérias-primas e/ou produtos acabados.

Uma emoção única e inolvidável aquele périplo primordial pelas ruas estreitas, entre construções características em tijolo burro escurecido ou com rebocos carcomidos e cinzentos dos gases fluorídricos que vão corroendo a matéria e os homens, proletários de salário firme mas insuficiente, respirando tosses e catarros, ganhando a mística do trabalho produtivo e as revoltas da riqueza produzida e mal distribuída, e da vigilância opressiva de bufos, legionários, pides e “gnr´s”, a mando do patronato explorador e do poder político fascista, querendo impor em conluio a sacrossanta “conciliação de classes”.

Rumando pela rua da CUF, passando pelo Bairro Operário, quase desmantelado desde 1964/65, o destino era a sede do Grupo Desportivo Operário, no Bairro das Palmeiras, criado e dirigido por trabalhadores que viviam no bairro popular, acrescentado em ilhas de pátios interiores e lúgrebes, para acolher a imigração ainda significativa nos finais dos anos 60.

É na simpática colectividade, também conhecida por “Os Vermelhos”, que irá decorrer o primeiro comício da campanha Eleitoral do MDE/CDE, iniciada oficialmente nesse dia 6 de Outubro de 1969.
Quase nove da noite, espera-se com expectativa, irá aparecer mais gente? A malta nova mobilizou-se porque haverá uma intervenção em seu nome, preparada em conjunto. O salão ainda não está cheio mas vão chegando espectadores interessados e preocupados, em cima da hora. Lá fora está a GNR a cavalo e a pé, numerosa e amedrontadora.

Na mesa da presidência está o velho senhor Cabanas e um tenente da Guarda que irá interromper a sessão quando se falar das guerras em África, um tema proibido mas várias vezes reiterado por interventores e candidatos.
Faz-se silêncio no início. Sobe ao palco uma jovem alta e forte e um acompanhante à viola. Tocam e cantam “We Shall Overcome”, um hino inolvidável, uma emoção inesquecível. A jovem apresentada como estudante universitária, que cantou em inglês inacessível para a maioria, explica que se trata de um hino de luta baseado num espiritual dos negros norte americanos, contra a discriminação e a segregação racial: “Um Dia Venceremos!”.

Foi popularizado por uma jovem cantora de “folk” chamada Joan Baez, e assim cantaram Martin Luther King e centenas de milhares de negros (e brancos!) americanos nas célebres marchas pelos direitos humanos e contra o “apartheid” social.
No “Operário” também se grita no final da sessão com mais de mil participantes: “CDE!”, “CDE!”, “Liberdade!”.

Cá fora alguns mais reguilas atiram pedras à GNR que patrulha o quarteirão. Os guardas correm em perseguição e fazem algumas detenções inconsequentes de passantes e mirones, levados para o Posto e libertados depois do “regulamentar” interrogatório feito pelo famigerado sargento Reis. Como no caso do João “Barriguinhas” que tinha vindo do namoro… A malta nova tem pé ligeiro, esgueira-se pela ponte para a Escavadeira e disfarça-se na zona escura em noite de breu.

Como a noite que se abate há muitos anos, demasiados, sobre a pátria vil e triste. Na memória inolvidável levam a canção: “We Shall Overcome” – “Havemos de Vencer!”.
Nota final: Trecho extraído do livro, “Na tua juventude a força do povo”, em pré-apresentação no dia 16/2/2019, na Associação de Reformados do Barreiro a partir das 15.30h. Publicado a propósito da próxima vinda de Joan Baez a Portugal, agora com 78 anos, num concerto de despedida, imperdível.

Barreiro, 27/1/19
Armando Teixeira

27.01.2019 - 22:03

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