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O BARREIRO E A QUINTA DO BRAAMCAMP
Por André Carapinha
Barreiro

O BARREIRO E A QUINTA DO BRAAMCAMP<br />
Por André Carapinha<br />
BarreiroEmbora na verdade seja discutível se este executivo realmente tem um plano para o Barreiro, se realmente se fascinou desse modo pela imagem da mãe-Lisboa, ou se apenas navega à vista dos seus preconceitos ideológicos e do seu calendário eleitoral...

Está na ordem do dia no Barreiro a questão da Quinta do Braamcamp. Trata-se de um espaço com 21 hectares (o tamanho de 21 campos de futebol), entre a Escola Alfredo da Silva e a Praia de Alburrica, e que esteve décadas no domínio privado, escondendo uma área de natureza, de ecossistema e de fruição natural. A Câmara Municipal do Barreiro adquiriu este espaço em 2015 com o intuito de o devolver aos barreirenses e de criar uma área em que o seu carácter público fosse a âncora para um projecto que o valorizasse como o espaço nobre que é de todos, apesar de ter sido demasiado tempo coutada de uns (muito) poucos.

É importante notar que a compra da Quinta do Braamcamp foi aprovada por unanimidade de todas as forças políticas em sessão camarária. É igualmente importante lembrar que essa sessão camarária aprovou por unanimidade um conjunto de princípios sobre esse espaço, designadamente o seu uso, que foi definido público e integrado no território de Alburrica. A compra da Braamcamp, um espaço nobre em todos os sentidos e com um potencial transformador para a cidade, foi considerada à altura uma excelente opção estratégica da Câmara Municipal do Barreiro, por uma unanimidade que raramente se encontra nas discussões autárquicas da nossa terra.

Neste momento os barreirenses são subitamente confrontados com planos para a Quinta do Braamcamp que contrariam em absoluto o uso que unanimemente à época se considerou, e bem, o adequado para um espaço tão importante: deseja-se a sua privatização rápida, com o argumento de que o negócio será rentável para os cofres da autarquia, e de que os privados são mais habilitados a realizar o interesse público num espaço público do que os poderes públicos. Para além de esta narrativa vir acompanhada de pressupostos na sua maioria falaciosos, e de argumentos meramente contabilísticos e ainda para mais falsos (uma vez que existem fundos aprovados e planos em discussão para um uso público da Braamcamp que permitem outro tipo de intervenção), interessa-me pensar mais um pouco sobre a lógica ou a falta dela que envolve este tipo de ideias tão habituais no novo executivo camarário: as de que o que falta ao Barreiro é investimento privado, de que o Barreiro esteve “privado” do investimento privado durante anos devido à ideologia dos executivos anteriores, e corolário dessas, a de que os problemas do Barreiro, em especial da tal zona do Barreiro que é simultaneamente o seu maior problema e a sua maior oportunidade (a zona velha e a toda a sua área ribeirinha), se resolverão pela abertura ao “investimento privado”

As três ou quatro pessoas que leram os artigos que publiquei neste jornal sabem que sou insuspeito de concordância com o aquilo que considerei ser o modelo de desenvolvimento para esta cidade que o executivo anterior considerava com a sua âncora, e que oportunamente chamei de “a ilusão dos mega-projectos” (título de dois artigos meus anteriores neste jornal, em que particularmente abordei o projecto do Terminal de Contentores, que nessa altura parecia ser unanimemente o maná de todos os problemas do Barreiro – os da falta de emprego, do desinvestimento, da criação de actividade económica). Curiosamente, agora que nos confrontamos com a realidade dos mega-projectos que nos aguardam, o Terminal de Contentores e depois o Aeroporto, muita gente percebe que obras não querem dizer necessariamente desenvolvimento, e que negócio não quer dizer necessariamente bem-estar.

Este novo executivo camarário, para além de afinal se ter apaixonado por todos estes mega-projectos de que o partido que o apoia uma ou outra vez na oposição foi crítico sem entusiamos especiais, tem decalcado uma estratégia de “desenvolvimento” que parece nascer de uma identificação talvez psicanalítica, à “Grande Lisboa”. Que assenta assim numa numa má fotocópia do infeliz modelo paternal-central de “turistificação”, e “gentrificação”: um fenómeno de transformação socio-económica com potencialidades para o turismo, e um processo de valorização imobiliária de uma zona urbana, acompanhada da deslocação dos residentes com menor poder económico para outro local e da entrada de residentes com maior poder económico. Os lisboetas, os que lá vivem ou viviam, e não os outros para quem aquilo é tudo só negócio e dinheirinho, são testemunhas para todos nós do que tem sido estes últimos anos.

Embora na verdade seja discutível se este executivo realmente tem um plano para o Barreiro, se realmente se fascinou desse modo pela imagem da mãe-Lisboa, ou se apenas navega à vista dos seus preconceitos ideológicos e do seu calendário eleitoral, o resultado tanto da sua acção como da sua omissão, e em especial para essas tais zonas que são simultaneamente o maior problema e a maior oportunidade do Barreiro (a zona velha e a toda a sua área ribeirinha) é o de que parece que as grandes oportunidades para a replicação no Barreiro destas estratégias-âncora da fixação da actividade económica são, helas, o turismo e o investimento imobiliário.

Esta estratégia-réplica tem dois problemas: em primeiro lugar, como estratégia-réplica, está condenada ao fracasso na medida em que a cópia nunca substitui o original: ou seja, é uma ilusão pensar que se pode gentrificar o Barreiro Velho da mesma forma que se vão gentrificando os diversos bairros lisboetas: a cidade-mãe está longe, os turistas também não parece que andem muito por aqui, e o investimento privado na requalificação será o que o mercado dite (mais ou menos o que se tem visto, ou seja, quase nada). Em segundo lugar, e isto é o mais importante, esta pseudo-estratégia, mesmo quando se revela uma estupidez, assenta na ideia de que devemos expulsar os barreirenses que vivem nessas zonas e substituí-los por outros que não se sabem bem quem sejam, e portanto vai fazer tanto mais mal à cidade quanto vai abrir feridas em vez de as fechar e quanto vai agravar problemas sociais em vez de os resolver.

São possíveis outros modelos de desenvolvimento para a cidade, e a Quinta do Braamcamp pode e deve ser uma oportunidade para pensarmos a cidade de outra forma.

André Carapinha

02.03.2019 - 12:10

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