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BARREIRO E BRAAMCAMP: UM EXERCÍCIO DE MEMÓRIA
Por André Carapinha
Barreiro

BARREIRO E BRAAMCAMP: UM EXERCÍCIO DE MEMÓRIA<br />
Por André Carapinha<br />
Barreiro<br />
Há muita coisa para fazer no Barreiro, e muito pode e deve ser feito para fazer esta cidade crescer de um modo sustentado, mas não será certamente vender as suas zonas nobres aos pedaços, como acontece neste momento, e não só quanto à Quinta do Braamcamp.

Fui criança no Barreiro dos anos 80. Nesse tempo, em que se apostou pela última vez na indústria pesada, resultado da nacionalização da CUF e da sua transformação em Quimigal, o normal para uma criança desta terra era a poluição. Nunca me esquecerei da nuvem que cobria o Barreiro e em que eu mergulhava todas as noites de terça e quinta feira quando descia da Quinta da Lomba para ir treinar futebol de cinco no histórico clube 31 de Janeiro, “Os Celtas”, e também da diferença que havia entre os dias de semana dos treinos e os fins de semana dos jogos, naquilo a que nuvens carregadas e mal cheirosas dizia respeito. Esses tempos gloriosos em que fui titularissmo e ídolo da torcida do “31”, se bem me lembro ou quero lembrar, foram também, e disto não tenho quaisquer dúvidas, os responsáveis pela doença asmática que carregarei até ao fim da minha vida, e que, sabemo-lo, afecta um número desproporcionado dos meus conterrâneos desses tempos que, como eu, cresceram a jogar à bola no meio do nevoeiro dos fumos da fábrica, e que ainda hoje identificam ao longe o cheiro de uma descarga de amoníaco.

Outra coisa que esses meus amigos dessa altura se lembrarão bem, é do rio. Nós ali pela Quinta da Lomba, e em especial na Quinta dos Arcos, onde eu cresci, era só vir o calor da primavera e começavam os banhos, os saltos da muralha e os passeios no barco da minha mãe. Conhecemos tudo daquelas margens do rio, aquelas que mudaram e aquelas que ainda são como eram. Entre aquelas que mudaram, estão os esgotos que lá desaguavam sem tratamento algum, e que não eram um, nem dois, nem três, eram exactamente cinco naquele troço que vai entre a antiga muralha que agora faz parte do Polis e outra parte que foi arroteada a caminho da Verderena, onde o Polis ainda está por terminar, e onde havia uma pequena praia que desapareceu. Isto não é de somenos, porque nós, crianças dos anos 80 deste nosso Barreiro, mergulhávamos literalmente no meio da merda, do lixo dos esgotos sem tratamento. Isto que nós fazíamos na “Praia da Copacabana”, faziam os outros putos todos, na Recosta, na Alburrica, na Avenida da Praia, na Barra-a-Barra. Mergulhos no Rio Tejo desse tempo.

Nos anos 90, quando era adolescente e quando a fábrica começou a fechar e foi fechando muito depressa, lembro-me de outras coisas desta cidade: de haver muita pobreza e muita malta agarrada à heroína, de amigos meus que morreram por causa disso, de uma vida nocturna vibrante no Barreiro Velho, de o barco para Lisboa demorar muito tempo e por isso a malta ficar toda por cá, de gostarmos de música e de arte em geral e de não haver quase nada a passar-se e de por isso começarmos a organizarmo-nos para fazer coisas acontecer. Também de ir para a faculdade no barco da 8 da manhã, onde encontrava amigos que iam trabalhar para Lisboa, porque não havia trabalho no Barreiro, e iam para as obras em Sacavém ou para o escritório em Picoas. Entretanto, em 1998, tentou-se instalar por aqui uma unidade de co-incineração de resíduos tóxicos. Nessa altura, e isto é importante que se lembre, perante certas hesitações dos poderes municipais desse tempo, foi a população do Barreiro que se levantou e mobilizaram-se mais ou menos à revelia dos partidos políticos centenas ou milhares de pessoas, entre escolas, colectividades e associações, que ajudaram a impedir esse projecto. Já nessa altura se notava que a herança do passado industrial do Barreiro, que construiu esta terra, era tudo menos pacífica e que os barreirenses sabiam bem dos custos desse modelo de desenvolvimento. Nesse movimento de 1998 estava, creio, já contida uma ideia sobre o futuro do Barreiro.

Esta ideia que no fundo é o resultado do passado do Barreiro-fábrica, não deixa de nos aparecer, uma e outra vez, sob a forma de dilema: o conflito entre a recuperação do Barreiro para os seus cidadãos e a nostalgia de uma cidade “desenvolvida”, ou seja, onde há emprego e criação de riqueza. Para além disso, a inserção do Barreiro na Área Metropolitana de Lisboa tem sido mais difícil do que a de outras terras devido a este passado, uma vez que a sua suburbanizaçáo começou mais tarde quando comparado com localidades que sempre foram subsidiárias da capital.
Desde o inicio dos anos 2000, o Barreiro beneficiou de uma série de obras que devolveram à cidade muitos espaços, que abriram a cidade ao rio, que criaram locais de lazer de qualidade. A criação de ETARs ao longo de todo o estuário do Tejo, ao mesmo tempo que as quase todas as indústrias da sua margem iam desaparecendo transformaram esse rio poluído e cheio de coliformes onde mergulhávamos quando putos num Rio Tejo onde a vida marinha regressou, onde pescamos e comemos sem medo robalos e corvinas. Apesar de tudo o que falta fazer, a qualidade de vida do Barreiro actual em termos ambientais e de espaços de usufruto para a sua população não tem qualquer comparação com os anos 80.
No entanto, de tempos a tempos, eis que surge o fantasma: um projecto qualquer, uma ideia suprema, um “investimento”. Eis que se quer fazer da frente ribeirinha um terminal de contentores, dos céus do Lavradio as traseiras de um aeroporto, ou de um qualquer espaço nobre da cidade um grande projecto imobiliário. Serão, diz-se então, estes investimentos que irão resolver a quadratura do círculo entre a ideia mais ou menos real do passado de uma cidade vibrante e cheia de “actividade económica” e aquilo de que os cidadãos do Barreiro já não abdicam, que é o de serem habitantes de uma cidade moderna, com as suas particularidades e as suas idiossincrasias, e não dos arrabaldes de uma fábrica onde deixaram o seu esforço, a sua saúde e o melhor das suas vidas.

Aqui chegados, a 2019, a miríade é outra: inspirados muito provavelmente no exemplo que infelizmente chega da grande capital, os actuais poderes públicos parecem acreditar que o grande maná é o investimento imobiliário, e por isso pretendem, entre outras coisas, vender o terreno da Quinta do Braamcamp, uma das últimas áreas, e a mais importante, que o Barreiro necessita de recuperar para si mesmo de modo a completar-se como cidade virada para o rio que se consiga diferenciar pela qualidade vida que oferece aos seus cidadãos.

Há muita coisa para fazer no Barreiro, e muito pode e deve ser feito para fazer esta cidade crescer de um modo sustentado, mas não será certamente vender as suas zonas nobres aos pedaços, como acontece neste momento, e não só quanto à Quinta do Braamcamp. Os poderes públicos que elegemos tem obrigação de ser mais do que isso, e se não conseguem entender o que significa um território daqueles para uma cidade como o Barreiro, não servem.

02.04.2019 - 11:10

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