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«A QUINTA BRANCAAMP É DE TODOS!»[3]
Por Armando Sousa Teixeira
Barreiro

«A QUINTA BRANCAAMP É DE TODOS!»[3]<br />
Por Armando Sousa Teixeira<br />
BarreiroOs barreirenses de nascimento ou de opção, necessitam de um espaço amplo de recreio, lazer, desporto, diversão – um Parque Público Natural – gerido pelos seus eleitos, com participação associativa e popular, incluindo a iniciativa privada.

A HISTÓRIA NÃO SE ALIENA!
O PRESENTE NÃO SE RESUME AO LUCRO!
O FUTURO NÃO PODE SER POSTERGADO!

A. INTRODUÇÃO

- A quinta está abandonada, porque não se vende e pronto! – argumenta a Lisete , amiga de infância.
O contacto directo com a população para a recolha de apoios para a Petição, permite ouvir opiniões diversas, usufruir da riqueza do diálogo ao vivo que nunca nenhuma máquina cibernética proporcionará.

- A iniciativa privada resolve coisas que as autarquias não conseguem! – argumenta o Nelson, um amigo mais velho com experiência na matéria.
A conversa olhos nos olhos possibilita o entendimento da idiossincrasia dos interlocutores, do seu argumentário. Saber ouvir e contrapor de forma rigorosa, mostrando que no caso vertente aquelas não são as melhores soluções, é fundamental para ganhar para esta causa justa diversas camadas da população.

B. RESUMO DOS ARTIGOS ANTERIORES

Nos dois artigos anteriores abordámos as questões fulcrais colocadas pelo presente e o futuro de Alburrica, particularmente a área da Quinta Braamcamp:

1 – As características únicas de um território excepcional, a secular apropriação privada e o seu aproveitamento para fins industriais.

2 – A crise da Indústria Corticeira e a tentativa de especulação imobiliária, antes e depois do 25 de Abril.

3 – A desavisada decisão autárquica admitindo a construção de habitação, a necessária revisão do PDM de 1994 e a mudança de paradigma com a aquisição dos terrenos pela CMB em 2016.

4 – A Quinta Braamcamp é parte integrante do esplendoroso território de Alburrica/Mexilhoeiro, necessitando de decisões estratégicas para o futuro, não passando nunca pela sua venda!

C. FALTA DE SENSIBILIDADE HISTÓRICA

Tropeçamos amiúde com decisões e situações em que, no afã do sucesso imediato de um certo “pragmatismo tecnocrático”, se cometem autênticos actos de lesa património. Exemplos não faltam, começando pela nossa terra (a reconstrução neo-modernista do Moinho Pequeno!).
É justo porém considerarmos que nos últimos decénios, encontramos a nível nacional cada vez mais exemplos de inteligência arquitectónica aliada à sensibilidade histórica. Como disse M. Yourcenar: “Quando se gosta da vida, gosta-se do passado porque ele é o presente tal como sobreviveu na nossa memória”.

A propósito da Quinta do Braamcamp e da vandalização de que foi alvo pelo fogo criminoso, reproduzimos um pensamento inspirador, motivado pela anunciada recuperação da Catedral de Notre-Dame, cuja destruição constituiu uma dor de alma: “ Deve consolidar-se o testemunho na sua autenticidade, o que resta da sua matéria original, e não promover a acção de desvirtuar essa autenticidade com a acção de “refazer”.

O território e o património da quinta devem ser preservados na sua autenticidade como parque natural, ecológico e patrimonial. Alienar para a construção de prédios, qualquer que seja a área e a volumetria, é um erro tremendo, revelador de falta de sensibilidade histórica.

D. O PRAGMATISMO TECNOCRÁTICO

Querer vender a todo o custo a Quinta Braamcamp (pior se meter concurso público porque seria uma alienação irreversível), não é uma boa medida de gestão autárquica, reveladora de falta de coragem e de perspectiva para ordenar e organizar o território, não assumindo as responsabilidades outorgadas pela população.
Gerir uma autarquia como se fosse uma empresa em que o “sucesso” dos gestores se mede pela remuneração do capital, é sintoma de incompetência na direcção da vida presente e futura da edilidade.

Os barreirenses de nascimento ou de opção, necessitam de um espaço amplo de recreio, lazer, desporto, diversão – um Parque Público Natural – gerido pelos seus eleitos, com participação associativa e popular, incluindo a iniciativa privada.
Vender é fácil! Preservar, ordenar, recuperar, gerir no interesse de todos é um verdadeiro desafio cívico e municipalista, infinitamente mais valioso do que qualquer êxito financeiro do “pragmatismo tecnocrático” que anima o actual executivo camarário.

E. FALTA DE PENSAMENTO ESTRATÉGICO

No ordenamento do território, tendo em vista a integração da complexa diversidade de questões, é necessário desenvolver um pensamento estratégico. No caso concreto do excepcional território de Alburrica/Mexilhoeiro, em que coexistem a História, a Cultura, o Património, o Ambiente, a Ecologia, o Passado e o Futuro, essa visão estratégica integrada é fundamental, elaborada multidisciplinarmente, discutida com os interessados e com a população em geral.

“A memória é a consciência inserida no tempo”, reflexão atribuída a Fernando Pessoa. Consciência de que estamos perante uma questão que desafia o presente, não admite decisões casuísticas, muito menos em função do sucesso financeiro do negócio. Insistir em tal é sinal de falta de pensamento estratégico.

F. O QUE ESTÁ EM CAUSA? DEFENDER O SANTUÁRIO DE AVES

Em toda a zona de Alburrica, lato senso até à Estação Ferro-Fluvial antiga, está colocado um enorme desafio à capacidade de planificação e de intervenção integrada. O que fazer? Como fazer? Quando fazer? Com que meios? Com que apoios? Onde intervir prioritariamente?

Os vectores direcionai são muitos, o planeamento estratégico complexo: Instalações desportivas do Clube Naval e Praia Norte, com os necessários apoios; O aldeamento “lacustre” do Mexilhoeiro e os apoios de pesca; Istmo dunar do Mexilhoeiro, sua defesa; Caldeira e Moinho do Braamcamp; Margem sul da caldeira dos “Ingleses”, santuário de aves; Ruinas da mansão e das instalações de apoio da quinta; Área verde, constituição de um Parque Natural; Praia de Alburrica e seus apoios privados; Caldeira e ruinas do Moinho do Cabo; Moinhos de Vento de Alburrica (3); Caldeira do Moinho da Serração, recuperação da moagem; Caldeira do Moinho Pequeno, recuperação da moagem; Margem poente da Rua Miguel Pais até à doca da CP; Avenida de Sapadores, cais da cortiça e estação ferro-fluvial.

Não cabe neste trabalho entrar em propostas de pormenor que também as temos. Terminamos com uma referência urgente. Adivinhávamos a importância da margem da caldeira ao vermos as asas brancas no verde luxuriante do arvoredo. A visita de dia 30/4/19, durante o dia da “Quinta do Braamcamp é de todos!”, deixou-nos o coração a bater forte de emoção ao constatarmos que o bosque existente na margem com um micro-clima fantástico é um verdadeiro santuário de aves. Não apenas a colónia de garças de bico preto que ali vivem quase todo o ano, como outras espécies que correm um risco sério com a actual profanação indisciplinada do território.

Enquanto não avança o necessário Plano de Ordenamento da quinta é urgente a tomada de algumas medidas de que faço público apelo:

- Vedar de forma efectiva toda a margem arborizada da “Caldeira dos Ingleses”, para preservar o excepcional local de sobrevivência e nidificação de várias espécies de aves.

- Impedir o acesso de todo e qualquer veículo motorizado à quinta.

- Promover com as escolas do concelho um programa de divulgação e visitação da Quinta Braamcamp, fomentando a consciência da defesa ambiental e do amor à natureza e aos animais.

Armando Sousa Teixeira

23.04.2019 - 22:58

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