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Quinta Braamcamp - 1943
Lugar de Memórias e Resistência no Barreiro
Por Rosalina Carmona

Quinta Braamcamp - 1943<br />
Lugar de Memórias e Resistência no Barreiro<br />
Por Rosalina CarmonaRecordar a coragem de alguns barreirenses, e também dos aliados britânicos proprietários da Quinta, que nas condições particularmente difíceis da ditadura, não hesitaram em lutar pelos ideais em que acreditavam.

O que se pretende com este texto, no momento em que tanto se fala da Quinta Braamcamp, é contribuir para o conhecimento mais aprofundado da memória do lugar. Recordar a coragem de alguns barreirenses, e também dos aliados britânicos proprietários da Quinta, que nas condições particularmente difíceis da ditadura, não hesitaram em lutar pelos ideais em que acreditavam. Que o seu exemplo seja inspirador no presente, quando se trata de defender a Quinta Braamcamp como bem público, paisagem cultural, herança histórica e elemento identitário do Barreiro, integrada num projecto de fruição pública participada, democrática e acessível a todos.

No ano de 1943, ainda a II Guerra Mundial estava no auge e o nazi-fascismo muito longe de ser derrotado. Salazar declarava neutralidade, mas a colaboração com a Alemanha passou pelo fornecimento de ferro e volfrâmio das minas portuguesas; pelo abastecimento de conservas de peixe - um terço da produção das mesmas era desviada para alimentar os exércitos nazis, enquanto os géneros alimentícios faltavam e era aplicado o racionamento aos portugueses -; a colocação de emissores de rádio na costa portuguesa para apoio às operações dos submarinos alemães, entre muitos outros aspectos. Por seu turno, o governo hitleriano vendeu armamento a Salazar: blindados para a polícia e GNR e ofereceu carabinas à Mocidade Portuguesa, para serem utilizadas em manifestações políticas. É possível que algumas destas armas fossem as usadas em desfiles da Legião Portuguesa, por exemplo nas paradas no Estádio de Santa Bárbara na CUF do Barreiro, em 1938.

O ano de 1943 será marcante pelas diversas formas de violência, física e psicológica, exercida sobre a população do Barreiro. Para acabar com o movimento grevista na CUF e reprimir os levantamentos populares que enchiam as ruas da vila e também Alhos Vedros e Lavradio contra a fome e falta de géneros, o regime envia um Comando Militar que, instalado dentro da CUF coloca o Barreiro em estado de guerra não declarado, mas efectivo. Pelas ruas escutam-se as lagartas dos carros de assalto e atroam nas calçadas os cascos da cavalaria, impondo o terror quotidiano a toda a população. A partir de 1944 um Esquadrão Misto de Infantaria e Cavalaria, sob comando da GNR, torna a ocupação militar permanente até 25 de Abril de 1974.

É neste ambiente opressivo e perigoso que nos surgem referências a um movimento de solidariedade e auxílio britânico, que deveria chegar ao Barreiro onde seriam distribuídos géneros alimentícios «para os grevistas e suas famílias pela empresa corticeira Brancampe [sic], com sede nesta vila do Barreiro, cujos géneros eram recebidos directamente para tal fim da EMBAIXADA INGLESA em Lisboa».

A informação surge em declarações prestadas por Salvador Augusto Costa, carpinteiro, detido no Posto do Barreiro em Julho de 1943, acrescentando ainda este, que «recebera instruções do guarda-livros da empresa, no sentido de prevenir os habitantes do Barreiro, de que a oportunidade de se abastecerem era quando vissem no edifício da empresa em questão, içada a bandeira inglesa.»

Relacionado com o mesmo assunto surgem outras prisões, como a de Hermínio Augusto de Castro, operário da CUF detido em 28/07/1943, que foi enviado para o Aljube acusado de ter ido a Lisboa com uma Comissão de Operários à Embaixada Inglesa, pedir auxílio e víveres a distribuir pelo povo do Barreiro «os quais seriam enviados por intermédio da firma Braamcamp, que para sinal arvoraria a bandeira inglesa»;

José Sardinha Júnior, pedreiro, também foi preso e acusado de estar relacionado com a mesma Comissão de Operários que foi à Embaixada Inglesa. Foi igualmente preso pela PVDE (antecessora da PIDE) e enviado para o Aljube;
Joaquim Bento, ajudante de caldeireiro na CUF, foi preso em 02/08/1943 quando saía da Embaixada inglesa onde ia entregar «uma carta ao Sr. Doutor Alberto Reynolds». Recolheu incomunicável à prisão de Caxias. Seria depois incorporado pelo Ministério da Guerra no 4º Esquadrão da GNR para integrar o Batalhão Disciplinar de Trabalhadores da CUF. Este Batalhão foi essencialmente constituído por grevistas despedidos que foram obrigados a voltar ao trabalho sob disciplina militar.

Também Raúl da Conceição Malveiro, corticeiro, foi capturado por ordem do Capitão Gaspar de Oliveira a 28/07/1943 e enviado para o Aljube, acusado de estar relacionado com uma Comissão de Operários que foi à Embaixada Inglesa pedir auxílio e víveres que seriam distribuídos ao povo «pela casa Braamcamp do Barreiro.»

Não sabemos se o prometido auxílio chegou ou não aos destinatários, o mais certo é que não tenha acontecido, já que a polícia política o deve ter impedido. No entanto, não deixa de ser interessante assinalar que na Quinta do Inglês existia uma vontade solidária para com o movimento grevista da CUF e com as famílias dos operários, acossadas pelas dificuldades. Lembremos que as Forças Aliadas que combatiam o nazi-fascismo, durante a II Guerra Mundial, constituíram uma aliança antifascista formada pela Inglaterra, União Soviética e Estados Unidos. Os ingleses em Portugal, e concretamente os proprietários da Braamcamp, também devem ter sido incomodados pelo regime salazarista, por terem tomado partido por um dos lados do conflito.

Em próximo artigo falaremos de outro acontecimento importante na luta de resistência contra a ditadura salazarista, as «Manifestações Subversivas na Quinta do Inglez» que tem por cenário, uma vez mais, a Quinta Braamcamp.

Rosalina Carmona
Historiadora

1. Veja-se as fotos existentes na Torre do Tombo publicadas em “O Regresso das Bandeiras”, Câmara Municipal do Barreiro, 2016, pp.42.
2. Armando da Silva Pais, O Barreiro Contemporâneo, CMB, 1971, p.163
3. ANTT, PIDE/DGS Prcº. 906/43 NT 4813, vol.12
4. A Quinta Braamcamp era designada nos anos 40 do século XX por ‘Quinta do Inglês’ por ser pertença da família britânica Reynolds, proprietários da fábrica de cortiça ali existente, onde residiram até 1969. Cf. Guia Documental da Casa Reynolds / Sociedade Nacional Corticeira, Câmara Municipal do Barreiro, 2015, pp. 18.

23.06.2019 - 16:08

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