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opinião

Quinta Braamcamp – 1945
«Manifestações Subversivas na Quinta do Inglês»
Por Rosalina Carmona
Barreiro

Quinta Braamcamp – 1945<br />
«Manifestações Subversivas na Quinta do Inglês»<br />
Por Rosalina Carmona<br />
Barreiro<br />
Pelo caminho gritava-se «Liberdade», «Viva a Rússia e o comunismo», «Viva Stalin» e «Morras a Salazar, à canalha dos bandidos salazaristas, à PVDE e ao Tarrafal»
A manifestação terminou junto ao portão da Quinta Braamcamp, com a intervenção da PVDE e a detenção de diversas pessoas.

A Quinta Braamcamp volta a ser cenário de resistência antifascista em 1945, nesta altura já no contexto das grandes manifestações de júbilo pelo final da II Guerra Mundial, em 8 e 9 de Maio de 1945.

Após a vitória dos Aliados uma onda avassaladora de alegria atravessou o planeta, pelo fim do conflito nazi-fascista que ceifou cerca de 50 milhões de vidas humanas. Foram dias de esperança e confiança e em Portugal acreditava-se na queda do fascismo.

Salazar não encobrindo a sua simpatia pelo Eixo Nazi, chegou até a proclamar luto nacional pela morte de Hitler, a 4 de Maio de 1945, e proibiu todas as manifestações de apoio aos Aliados. Contudo, as forças antifascistas aproveitando a conjuntura internacional favorável, apesar da proibição, realizaram grandes manifestações celebrando a derrota do nazismo e, simultaneamente, de contestação à ditadura salazarista. Milhares de pessoas saíram à rua em todo o país desafiando e enfrentado a repressão da PVDE, junto a residências ou locais frequentados por ingleses , e, por ser proibido festejar a vitória soviética muitas pessoas ostentavam paus onde faltava a bandeira da URSS .

Pela documentação consultada na Torre do Tombo referente às manifestações de 8 e 9 de Maio no Barreiro, percebe-se que a polícia reuniu num mesmo processo um conjunto de informações no qual constam nomes de 67 pessoas presas em Lisboa, Alhandra, Alverca, Amadora, Vila Franca de Xira, e entre elas, 18 pessoas do Barreiro, das quais duas mulheres.
A leitura das fontes policiais – Notas de Culpa e Motivos da Acusação – reproduzem pelo negativo das respostas dos presos, como as coisas se terão passado. Referem as fontes policiais que ocorreram «Manifestações Subversivas na quinta do inglez» . Que a população do Barreiro se reuniu no Parque Municipal, seguindo depois para a Quinta do Inglês (hoje Braamcamp). Pelo caminho gritava-se «Liberdade», «Viva a Rússia e o comunismo», «Viva Stalin» e «Morras a Salazar, à canalha dos bandidos salazaristas, à PVDE e ao Tarrafal»

A manifestação terminou junto ao portão da Quinta Braamcamp, com a intervenção da PVDE e a detenção de diversas pessoas. Recordemos agora quem eram e os nomes destes barreirenses, todos acusados de desenvolver «actividades subversivas» contra o regime.

Álvaro Pina - 38 anos, casado, cravador nos Estaleiros Navais da CUF
António Cerqueira - 41 anos, serralheiro da secção de mecânica da CUF
António Ferreira Filipe - 36 anos, casado, contramestre da secção de Tecidos da CUF
António Macêdo “O Rachadinho” - 49 anos, casado, trabalhador
Armando Tavares Rodrigues – 36 anos, casado, serralheiro na Parry & Sonns
Artur Duarte Neto “O Neto” - 32 anos, casado, conferente da CUF
Ema da Silva Coelho “A Ema Duro” - 37 anos, casada, operária da secção de Tecidos da CUF
Francisco Batista dos Santos “O Batista” - 44 anos, casado, carregador da CP no Barreiro
Francisco Dias Gabriel “O Chico Darwin” - 39 anos, cortador
Joaquim Augusto “O Joaquim da costureira” - 29 anos, casado, fiandeiro na CUF
Joaquim Ferreira - 44 anos, caldeireiro na CUF, casado com Maria Pinto Ferreira (também detida)
José Balseiro Fragata - 25 anos, solteiro, aprendiz de carpinteiro na CUF
José Ferreira “O Côxo” - 35 anos, casado, sapateiro
José Meléças Sande Nobre Madeira - 31 anos, casado, tipógrafo, filho de José Nobre Madeira, deportado em Cabo Verde
Leonel da Conceição Nogueira - 30 anos, solteiro, contramestre na secção de Tecidos da CUF
Luiz da Silva - 49 anos, casado, conferente da CP
Manuel Alves Figueiredo “O Sardinha” - 25 anos, solteiro, empregado no bufete do vapor “Trás-os-Montes” da carreira Barreiro-Lisboa
Maria Pinto Ferreira “A Maria Pintainho” - 39 anos, doméstica, casada com Joaquim Ferreira, também detido nesta manifestação. Maria Pinto Ferreira foi uma conhecida mulher antifascista que conheceu as prisões da ditadura fascista mais do que uma vez.

É o exemplo de coragem de todos estes homens e mulheres barreirenses que quisemos homenagear. Resgatar a memória deste acontecimento é, também contribuir para a defesa da Quinta Braamcamp, enquanto bem público pertença de toda a comunidade.

A Quinta Braamcamp foi adquirida com o fim de mantê-la na esfera pública para usufruto dos barreirenses, com toda a carga histórica e memórias a ela associada. No momento presente, trata-se de não permitir que o nosso património colectivo seja usurpado por entidades privadas.

Rosalina Carmona
Historiadora

1. Veja-se o exemplo da cidade do Porto, onde a forte presença da comunidade inglesa encorajou poderosas manifestações que adquiriram particular relevo, como se lê num ofício da Legião Portuguesa/Serviço de Informações, que refere: «grande multidão na Avenida dos Aliados (homens e muitas mulheres), que continuaram as manifestações. Algumas casas inglesas, distribuíram vinho e bolos ao seu pessoal, foram dispensados do serviço até 2ªa feira, vencendo o respectivo salário. Um grupo de maltrapilhos, na Rua de Santo António, seguia com um pano branco espetado em dois paus, onde se lia “QUEREMOS LIBERDADE”». Cf. Ephemera, José Pacheco Pereira, https://ephemerajpp.files.wordpress.com/2009/06/15-jun-09-fotografia-22.jpg

2. Revista "Mundo Gráfico", 15 de Maio de 1945 /Hemeroteca de Lisboa
3. AN/TT, PVDE/PIDE/DGS SC Proc. 465/45 3º volume NT 4868
4. Idem
5. Idem

27.06.2019 - 22:45

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