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Gil Vicente e o «Auto do Barca da Soflusa»
Por Gonçalo Brito Graça
Barreiro

Gil Vicente e o «Auto do Barca da Soflusa»<br>
Por Gonçalo Brito Graça<br>
Barreiro ...o defunto Lenine, se ressuscitar, terá de vir no comboio da Fertagus, como a grande maioria dos Barreirenses. Parte-se do princípio que ressuscitará na capital. E terá de ir de Lisboa até Coina, e depois apanhará a carreira 6...

Mais ou menos em 2015, Manuel João Vieira (vocalista dos Ena Pá 2000, Irmãos Catita, Corações de Atum, etc) compôs a música intitulada “Lenine”. Ao seu estilo sarcástico, Vieira afirma numa das estrofes: "Lenine vai regressar/ Em manhã de nevoeiro / vem de barco sem pagar... / Desembarca no Barreiro". A canção está disponível no Youtube para todos os públicos, até mesmo para quem não aprecia a arte de Manuel João Vieira. Embora a suposta ressureição de Lenine em pleno século XXI não seja aqui o ponto de análise, é importante reter a dimensão imagética-geográfica do Barreiro na música portuguesa, ou seja, as suas travessias fluviais. Atentemos a letra: “Lenine vai regressar... vem de barco... desembarca no Barreiro”. Talvez não. Mesmo que ressuscite e que venha de barco, talvez tenha o azar de coincidir com as intermináveis supressões. Ou greves. Portanto, o defunto Lenine, se ressuscitar, terá de vir no comboio da Fertagus, como a grande maioria dos Barreirenses. Parte-se do princípio que ressuscitará na capital. E terá de vir de Lisboa até Coina, e depois apanhará a carreira 6 dos Transportes Colectivos do Barreiro se desejar sair no centro da cidade o mais rápido possível. Feitas as contas, demorará mais 30 a 40 minutos do que um percurso normal de barco. Ida e volta, basta fazer as contas... Até para se ressuscitar há problemas de tempo...

Mas nem tudo é mau. Se Manuel João Vieira escreveu sobre o Barreiro, também os jovens dramaturgos de todo o país têm aqui a sua oportunidade de êxito. A situação caótica que se vive nos terminais fluviais poderá ser o momento de inspiração para todos os que queiram adaptar o teatro de Gil Vicente aos dias de hoje. Sugestões: a peça “Quem tem farelos?” poderia-se transformar no “Quem tem passe Navegante?”, o “Auto da Índia” facilmente seria o “Auto do Terreiro do Paço”, e o famoso “Auto da Barca do Inferno” sem muitas dificuldades se adaptaria ao “Auto da Barca da Soflusa”. Fiquemos com esta última. As personagens vicentinas tradicionais (anjo, diabo, fidalgo, onzeneiro, o parvo, sapateiro, frade, o judeu, o corregedor, os cavaleiros, entre outros) poderiam ser o administrador, o ex-administrador, os sindicalistas, o mestre, o marinheiro, os políticos eleitos, os políticos da oposição, membros do Governo, e alguns utentes, claro! Se no “Auto da Barca do Inferno” são refletidos os valores da época, em que dois barqueiros decidem o futuro das almas (um leva-as ao céu, outro ao inferno), já o “Auto da Barca da Soflusa” teria um desenlace muito mais facilitado. Uma das barcas seria a da supressão, outra a da greve. E o utente comum escolheria qual a mais conveniente para o seu inferno.

O fim da peça teatral ficaria ao gosto do dramaturgo. Se comprar mais barcas, se incluir novos personagens, se dar mais protagonismo ao administrador ou ao sindicalista, ou até decidir se construir uma ponte rodo-ferroviária que ligasse o céu e inferno, eis a questão. Fim!

Gonçalo Brito Graça

08.07.2019 - 13:30

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